sexta-feira, 10 de junho de 2016

Por Um Mundo Mais Chato





“A censura / A censura / única entidade que ninguém censura” (Plebe Rude)

Em quarenta anos, nunca vi o Brasil tão antiquado como agora. Nem na época de Geisel e Figueiredo existia essa caretice. Acho que com todo o "direito do Estado democrático" que nos é servido como um menu, os ingredientes estão vindo estragados ou com prazo de validade vencido. A população está confundindo crítica com ódio, e contradição com imposição. 

É cheio de mimimi, blá-blá-blá, discursos vazios, prejulgamentos, preconceitos... Câmeras, olhos e dedos acusadores. Ainda bem que vivi intensamente os anos 80. Hoje, com toda a tal "liberdade de expressão", certamente eu seria linchado.

Apocalipse enforcando Mística. Um simples cartaz de filme vira motivo de polêmica. A 20th Century Fox teve de se desculpar publicamente pela suposta misoginia. Obviamente, ninguém endossa violência contra as mulheres, mas peraí... eles são os X-Men! A Mística já saiu na porrada com quase todos os personagens! E só lembrando que a personagem, para quem não sabe, ainda pode se tornar homem quando ela bem quiser! E a Jean Grey / Fênix? Tem mais poder do que qualquer marmanjão, é a mulher-telepata mais poderosa do universo Marvel! Aff... Daqui a pouco estarão dizendo que não existe rampa de acesso para o cadeirante Professor Xavier na Escola para Jovens Superdotados.

E quem lembra de Os Trapalhões? Dedé era o espertalhão que sempre queria tirar vantagem dos companheiros. Mas a esperteza do nordestino Didi Mocó sempre vencia no final, no melhor estilo “roubo mesmo”. Tinha o negro Mussum, que falava errado e vivia bêbado com a garrafa de “mé” debaixo do braço e ainda a “bichinha chiliquenta” Zacarias, que usava peruca, revirava os olhinhos e era chamado de “santa”. Se fosse exibido hoje, certamente o programa seria alvo de críticas: estelionato, incentivo ao alcoolismo, preconceito racial, injúria, difamação, homofobia.

Estou quase achando que o país está nesse furdunço por causa do Didi & sua trupe. O Sloth da Petrobras deve ter aprendido muito bem os golpes assistindo o programa, assim como a turma Bolso(nazi), que tem tanto ódio no coração.

Menos, por favor.

Outro dia eu fui bloqueado no Facebook. Me deixaram de castigo por dois dias. Só porque eu disse que estava com sono. Para ilustrar a minha frase, eu postei uma célebre foto do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick: aquela em que a personagem Alex DeLarge está sendo mantido com os olhos abertos com blefarostatos e irrigado com colírio de lágrima artificial. Eu queria mesmo era achar a do Pernalonga com os palitos de fósforo impedindo o fechamento das pálpebras, mas não encontrei. Então foi a do Alex mesmo. Era somente um inofensivo comentário relatando um fato de que eu precisava ficar acordado sem usar Ritalina para terminar um artigo. Me acusaram de incitar a violência. Na mesma semana, outro amigo postou uma foto de Ingrid Bergman com um chicote e foi punido por “compartilhar um conteúdo gráfico de prazer sádico”.

Minha prima já teve destino mais sarcástico. Já foi castigada várias vezes na rede social por rir demais. Sim. Ela ri demais. Em todos os seus posts sempre há um “kkkkkkkkkkkkkkk” sem fim. Sempre que apertava o dedo na letra “k”, levava um baita puxão de orelhas, pois certamente algum inquisidor virtual devia achar que era usuária de extrato de sálvia. Hoje, ela só ri comedidamente. 

Portanto, nada de postarem fotos da Nan Goldin ou de Robert Mapplethorpe, héin, pessoal... caso contrário, possivelmente seu perfil será excluído!

Sei não... Ultimamente estou sentindo um climão meio 1984, de George Orwell, que aliás, é um clássico que todos deveriam ler. Biblioteca básica. Quem quiser, também pode assistir ao filme, que saiu no mesmo ano, dirigido por Michael Radford, com Eurythmics (Sex Crime) na trilha sonora. 

Para quem ainda não conhece a história, ela foi escrita em 1948, mas os editores pediram que a data fosse invertida. Portanto, se passa no futuro, mas poderia ser o presente. Conta a história de Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade (hummm será que foi inspiração para o Ministério da Transparência?), que tem a função de reescrever informações conforme as conveniências do Partido em um país imerso no totalitarismo, mas disfarçado como uma grande democracia (hahaha geeeente!). E tudo isso sendo vigiado pelo onipresente Big Brother (sim, daí vem o nome do programa global). Quem ousasse questionar toda a opressão ou pensasse diferente era acusado pelo crime de idéia (crimideia) e ploft... era vaporizado pela Polícia do Pensamento. As leis eram rígidas, que proibiam desde beber um cafezinho até ter um orgasmo. 

Eitaaaa... seriam coincidências? Acho melhor não falar mais nada, pois estou sentindo que posso desaparecer a qualquer momento. Semana que vem talv...

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

André Jacob disse...

Texto muito bom, criativo e bem humorado. Parabéns! Ah! Comparar o Nestor Cerveró com o Sloth, do filme "Os Goonies" foi... monstruoso. Ahahah (não usei a tecla "k").

André Jacob disse...

Uma crítica ao Blog: só existe a opção de dar likes via G+. Que tal diaponibilizar o mesmo para o Facebook?