sábado, 18 de junho de 2016

Sui Generis




Estava vendo um documentário sobre o coreógrafo brasileiro Ismael Ivo. No filme ele fala sobre a sua busca por uma partitura corporal que fosse ao mesmo tempo um mapa de seu método e uma representação de seu estilo. Ivo comentava, portanto, sobre o desejo e os percalços da autoria (que eu defino como a afinidade entre o homem e o que ele produz).

O que nos faz admirar alguém é a capacidade que uma pessoa tem de tornar-se uma potência reconhecível (e isso para o artista criador é uma questão de estar no mundo). Há quem emita essa frequência especial sem maiores esforços e há quem procure, investigue, atire flechas em direção a uma personalíssima voz que só ecoa depois de muito trabalho. Eu, como um cara que escreve há um certo tempo, também exploro as minhas possibilidades para conquistar um jeitinho mais particular de prosear.

A primeira lição de autoria que tive foi por meio do autor de novelas Manoel Carlos. Eu assistia às tramas, mas desconhecia a existência de um todo-poderoso capaz de criar personagens e intrigas. Nascia pra mim, iluminada e nobre, a figura do ficcionista, esse agente capaz de criar realidades as mais diversas.

Depois eu percebi, acompanhando os trabalhos do Maneco, que havia uma marca em comum, uma dicção que era - e só era - dele. Foi uma grande descoberta que me impulsionou a brincar com as palavras e chegar perto do que eu, fragilmente, gostaria de chamar de “meu estilo”.

Depois me veio o cinema de Pedro Almodóvar e Alfred Hitchcock. Dois gênios, dois adjetivos, com identidades tão fortes que não param de influenciar gerações e mais gerações de cineastas tamanha a intervenção plástica que eles propuseram com seus olhares sobre a sétima arte.

E quando eu vejo cantoras emulando timbre e gestual de Elis Regina? Eu logo penso em como foi marcante a assinatura estética que ela nos legou e que, por essa razão, não é de se espantar que a Pimentinha continue dando aula às novatas (mesmo trinta anos após sua morte).

Até Machado de Assis, nosso maior escritor, demorou muito para conquistar sua maturidade literária, deixando pra trás trabalhos inexpressivos da juventude e uma investida em poesia que nunca vingou.

É um exercício contínuo de costuras e desconstruções, entres febres e alguns poucos suspiros de contentamento. Expedientes de tentativa e erro. Empenho. Grandes preguiças. Um dia uma coisa “bem a nossa cara” pode aparecer. 

Independente de nossas ambições ou do quanto queremos esconder o fato, todo mundo quer ser inusual, diferente e marcante - se não para todos, pelo menos para um: e isso também se chama amor.

A prática da autoria, da individualidade criativa, deve ter como guia o verso de Paulo Leminski: “isso de ser exatamente o que se é / ainda vai nos levar além”. De modo que um bom começo é ser quem de fato somos, sem ruídos. O resto da labuta fica bem mais fácil porque ser autentico é de graça e não dói nadinha. Vamos tentar?

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Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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