sábado, 25 de junho de 2016

Última Sessão de Música





Este é o meu texto de despedida. Certo. Soou dramático. Afinal, não é uma carta de suicídio nem um testamento. É apenas um “até logo”, do tipo que se dá em halls de aeroporto ou em guichês de rodoviária. Malas prontas e um pé no embarque. Mas estamos sempre por aí, qualquer dia a gente se vê, don't cry for me

Como em todo final, os músculos, antes de relaxarem, enrijecem. Travamos lindamente. Infantis e antiprofissionais. Sobre o que escrever na derradeira crônica? Todos os possíveis assuntos me pareceram tão obsoletos quanto jornal impresso. Uma bobagem que antes renderia uma observação filosófica, resumiu-se a bobagem que de fato era. Então fui atrás de alguma inspiração. Li alguns livros e artigos, assisti série americana e dinamarquesa, filme belga, provoquei uma briga pra ter argumento. Nada funcionou e saí da empreitada criativa sem coesão e coerência.

O meu horóscopo do dia indicou: use o passado como oráculo. Lá fui eu rememorar infância, lembrar o cheiro das coisas, chafurdar na lama dos erros pretéritos, ouvir aquele hit dos anos 70. Também não rolou. Talvez o tema “fim” fosse mesmo o caminho, mas me parece melancólico a cada linha que escrevo. Que tal um adeus festivo como na Quarta-feira de Cinzas? Talvez um rest in peace colorido à mexicana? Também não posso fugir do meu temperamento e criar uma persona só pra botar um ponto final como as pessoas desejam mais digno nessa ditadura do alto-astral. Tampouco devo surgir em castelo gótico, todo trabalhado no melodrama. 

Serei mais cirúrgico, mais cartesiano: este mês foi ligeiro e delicioso, escrevi com prazer e orgulho de fazer parte deste site opinativo, plural e inteligente. Agradeço ao oficial dono da coluna de sábado, Esdras Bailone, pelo convite singelo e pela amizade tão recente quanto afetuosa. Não sei quem me leu, mas eu me li semanalmente e achei ótimo brincar de colunista, apesar de sempre achar que, depois de publicado, aquela maldita vírgula eu coloquei no lugar errado. 

Minha participação aqui me fez lembrar que ser escritor é extraordinário e que o charme de escrever se encerra, parcialmente, a partir do momento em que se começa a escrever. É impossível trabalhar numa única frase decente sem suar e lidar com uma iminente sensação de fracasso. Escrever é, sobretudo, tentar escrever, e nisto não há nenhum encantamento. No entanto, lá vamos nós, escritores, nos isolando querendo aparecer, fechando a janela querendo abrir, mostrando não mostrando: este é o nosso jogo. Elogio equivalente a ser bom escritor é ser bom amante, porque não há a mínima diferença entre as duas iniciativas. O que um escritor quer é o mesmo que um amante apaixonado: seduzir e manter, envolver e não deixar partir. 

Mas dessa vez eu deixo partir, porque o Esdras é um exímio latin lover que, como tem feito há tempos, não deixará os leitores daqui sem uma observação sagaz, sem um jogo linguístico sapeca, sem um assunto quente e necessário. 

Estou saindo, estou saindo, estou saindo… Sábado que vem o Esdras está de volta e eu estou doido pra ver o que ele tem pra gente! Beijos.

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Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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Um comentário:

Jujubas e Mirabel disse...

<3 sentiremos saudades!!!