domingo, 19 de junho de 2016

Um Convite Para o Luto





Recentemente eu tive a oportunidade de mergulhar num mundo que transbordava amor. Era o livro Our World, da escritora Mary Oliver. O livro reunia seus textos com diversas fotografias feitas há décadas atrás pela impressionante fotógrafa e sua esposa Molly Cook. Molly, 10 anos mais velha, faleceu em 2005. E Mary conseguiu extrair do luto uma força e uma delicadeza extraordinária para dividir com o mundo quem era Molly.

É desnecessário dizer que luto é algo extremamente pessoal, e (deveria ser) livre de julgamentos. Não tem fórmula secreta ou relação com sua capacidade de força interna. Achar que alguém demora muito tempo para superar algo é encarar o luto como uma competição, na qual todos já entram perdendo. Injusto. Luto é uma passagem pela qual ninguém espera passar, mesmo sabendo que de uma forma ou de outra, irá experimentar. E Our World escancara essa verdade de que somente ao chegar no luto entendemos como ele é. 

Mais do que saudades e lembranças, o luto é um reflexo quase que inteiro de si próprio. São todas as reverberações e indagações que surgem e urgem dentro do nosso ser, e que só podem ser respondidas por nós. E é importante respeitar a dor tanto quanto respeitar o seu método. Mary descobriu que re-conhecer quem foi o amor da sua vida, como foi a vida delas, como era realmente o interior de Molly e como, mesmo vivendo 40 anos juntas, ela não a conhecia por completo, foi um jeito de passar pelo luto - ainda que não pareça uma estrada com um fim. 

O amor tem um jeito tão engraçado de ser, que me deixa sempre pensando no verdadeiro malabarismo químico que ele provoca no nosso organismo. Como um sentimento tão abstrato e desformatado pode ser, ao mesmo tempo, algo tão físico e pulsante? E como nossa capacidade de amar e de sofrer é tão irritantemente igual? 

O luto é um símbolo da perda, muito relacionado à morte. Mas, o luto vai além. A perda vai muito além da morte, que é física. A perda é emocional. Criar mecanismos de entendimento para lidar com o luto é um processo contínuo e doloroso. No entanto, paradoxalmente, é um alívio. 

Nas minhas tão poucas experiências com o luto (extremamente difíceis, de qualquer forma), eu tentei lidar quase que do mesmo jeito. Fui percebendo que com a idade vem também a tal da sabedoria. Tanto tempo e tanta energia gastos tentando anular uma parte da sua história que chegou ao fim, que se perdeu, e pouca maturidade para usar a lembrança como maior motivador do amor. Resolvi que tentaria diferente. Resolvi que usaria a terapia para me ajudar a ressignificar o presente, ao invés de encaixotar o passado. Resolvi que usaria a espiritualidade para me tornar mais leve, ao invés de transferir esse peso pra alguém. Resolvi que não deixaria mais tanto tempo passar sem me dar conta de que às vezes é preciso parar e começar tudo de novo. Resolvi que iria, ao menos, tentar. 

Tenho tentado, tem funcionado.

Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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2 comentários:

Nazaré Jacobucci disse...

Olá Patrícia! Gostei do seu texto e se me permite vou republicá-lo na minha página profissional no facebook a "Arte de Morrer e Luto".
Caso você tenha interesse no assunto a convido a visitar meu blog www.perdaseluto.com, onde escrevo sobre esta temática da qual eu sou especialista. Abs e boa sorte!

Patricia disse...

Olá Nazaré, pode republicar sim! É uma honra!
Obrigada e um abraço!
Patricia