quarta-feira, 6 de julho de 2016

À Garota Que Eu Amo Demais





Hoje a garota mais importante da minha vida faz aniversário. Minha irmã, minha primeira amiga, minha primeira confidente. Agora também esposa e mãe – depois daquela obra-prima que é a Manuela, o segundo já está lá na barriguinha, esperando pra chegar nos próximos meses –, pra mim ainda não faz muito tempo que aprendíamos juntos a andar de bicicleta; ou descíamos abraçados as escadarias do prédio após a aula de natação, pras pernas bambas não nos derrubarem.

Sempre cresci ouvindo a pergunta: “nossa, vocês são gêmeos?”. Tudo porque, dizem, somos muito parecidos (hoje em dia eu já acredito na teoria). Quando éramos crianças, ainda não tínhamos muito como explicar que irmãos de sexos diferentes nunca podem ser univitelinos, mas tinha um certo charme em deixar pensarem que éramos idênticos.

Nossas histórias se confundem. E a dela começou quando nossa mãe, pouco mais de quatro meses após eu nascer, descobriu que estava grávida de novo. Reza a lenda que mamãe fora até o orelhão (para a geração Y, aquele trambolho que lembra um telefone no meio da rua e que, um dia, era uma das poucas formas de se comunicar com os outros fora de casa), preocupada, para contar para o meu pai a notícia. Vivíamos um aperto sem igual, com uma criança recém-nascida e uma gestação fora de planos recém-descoberta. E nossa mãe ouviu de nosso pai apenas felicidade do outro lado da linha. Afinal, para quem fora criado com 15 irmãos no Agreste da Paraíba, o que era criar dois filhos, mesmo que em tempos de vacas magras?

No meu primeiro aniversário, lá ela estava na já imensa barriga de Dona Beth. Pouco menos de um mês depois, ela chegou. Causou imensos ciúmes no pequeno primogênito que, até então reinara sozinho e àquela altura não poderia, sequer, receber um colo de sua mãe saída de uma cesariana agressiva como as de antigamente. A solução da progenitora para a problemática foi drástica, mas certeira: deu o neném para o filho mais velho. Genial. Em pouco tempo, o menino saiu da posição de ciumento para orgulhoso. E onde estava a miúda, ele estava do lado, se certificando de que ninguém a levaria ou faria mal para ela.

Minha irmã é uma das poucas pessoas as quais eu sou capaz de reconhecer pelo cheiro. E surrealmente, minha sobrinha tem um cheiro quase idêntico. Parece coisa de macaco isso de se reconhecer pelo olfato, talvez seja mesmo. Também pudera: dormíamos juntos durante toda a infância, tomados por um medo mútuo que nos visitava todas as noites e nos fazia pular para a cama um do outro. Aliás, mutualidade sempre foi algo comum a nós: constantemente pensávamos nas mesmas coisas e até falávamos as coisas ao mesmo tempo. Percebemos um ao outro pelo olhar, pelo tom de voz e quase por telepatia.

Passamos por muitas coisas juntos: desde a separação dos nossos pais aos meus 13 anos (pros desavisados, eles reataram, seis anos depois) até o dia em que lhe contei que gostava de meninos com 17 (como expliquei semana passada aqui no Barba Feita, tive medo de a decepcionar e só encontrei amor em retorno). Desde o meu casamento, aos 27, no qual ela foi madrinha, até a notícia maravilhosa de que eu seria tio pela primeira vez, aos 30 (e agora a tão maravilhosa quanto de que serei tio pela segunda vez). Saímos mais fortalecidos e unidos disso tudo.

Caímos muito na porrada, muito nos desentendemos. Por duas vezes, ficamos sem nos falar por meses a fio, morando na mesma casa. Mas sempre tivemos um ao outro ali do lado; sabíamos que, mesmo nessa situação da mais adversa, poderíamos encontrar aquele ombro tão necessário.

Hoje, Natalia faz aniversário. A ela, desejo toda a felicidade do mundo. Se possível, mais do que a minha. Até porque vê-la feliz é garantia da minha própria felicidade. Te amo, irmã. 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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