sexta-feira, 1 de julho de 2016

As Horas





Semana passada eu levantei um tema de que poucos gostam de falar... Se você não tivesse mais a chance de se emocionar? Se agora fosse o momento mais importante da sua vida e, por algum motivo, você deixasse escapá-lo? 

Se Ela chegasse?

Impressionante como as pessoas vão literalmente perdendo as suas referências quando, inevitavelmente, a morte chega. Nunca gostamos de pensar nisso, mas realmente vai chegando um momento em que todas as pessoas que sempre estiveram ao seu lado, como referências, vão partindo, uma a uma.

Com o passar dos dias, metamorfoseamo-nos: seja pelo amadurecimento, amarguras, ganhos ou perdas. Até que em um átimo, olhamos para os lados e nos encontramos sós, de frente ao espelho com rugas, olheiras e o olhar cansado. Nesse momento, nos tornamos “a” referência para outras pessoas. Até que chega a nossa hora de partir e, assim, fazemos com que essa outra pessoa também vá amadurecendo com a perda de sua referência, até que ela se torne a própria... E assim por diante. Em looping, um eterno F5.

Esse pequeno comentário fez passar um grande filme na minha cabeça e a imagem de minha mãe. E lembrei das tardes que ficávamos deitados ouvindo juntos a coletânea Songs to Learn & Sing, do Echo and the Bunnymen, ou os discos da Legião Urbana, que ela era fã.

Mesmo quando o estado de sua saúde piorou, ela sempre pedia para continuar ouvindo as músicas bem baixinho, que acabavam fazendo-a pegar no sono, que muitas vezes era sobressaltado. E eu sempre estava ali, olhando sua respiração, preocupado quando ela demorava um pouco mais para inspirar o ar.

E um dia, Ela veio “com seu ensurdecedor bater de asas” . E meu referencial se foi.

Logo depois de sua morte, eu tive a mesma sensação que todos tem, acredito. “Ah, ela vai entrar a qualquer hora por aquela porta, abrindo um enorme sorriso”. Fiquei com essa impressão durante muito tempo. Às vezes, me pegava discando para o número de telefone que ficava ao lado de sua cama, esperando que ela atendesse. E todas as vezes que ia até sua casa, abria a porta do quarto bem devagar, na esperança de ainda encontrá-la deitada na cama, esperando que eu ouvisse novamente os mesmos discos.

E assim, passaram-se os anos, acreditando que ela desejou morrer.

Enquanto eu estava ali, debruçado sob o túmulo, fiquei lembrando de uma cena do filme As Horas, em que Nicole Kidman deita ao lado de um pássaro morto e os olhos dela são refletidos nos olhos do pequeno animal... 
 “Quando a gente morre, fica menor do que aparentava ser.”
Por um momento, enquanto a luz entrava depois de anos eternos, eu vi seu rosto. Ou pensei ver. Foi como um flash estourando nos meus olhos. Uma fração de segundo de uma fantasia, para depois, voltar à realidade cruel dos meus olhos refletidos no pássaro morto.

Na noite anterior, estava tenso. Rolava na cama. Sentia calor. Um frio na barriga. Queria vê-la. Reencontrá-la. Continuar alisando seus longos cabelos e rir com ela, depois de tanto tempo sem ouvir sua voz. Uma esperança sem lógica.

Quando os anjos arrumavam seu crânio junto ao maxilar e organizavam a infinita sequência de ossos, como um interminável quebra-cabeças, cheguei a ouví-la murmurar, como no filme: “alguém tinha que morrer, para que outras pessoas pudessem valorizar suas vidas.”

Ali, naquela mortalha, só restava o fim. De tudo. Da esperança ilógica das chances de um novo recomeço para quem foi e para quem ficou, onde só restam os desbotados momentos, fotogramas eternos que se misturam com vozes, cheiros e trilhas sonoras. É para isso que existimos.

É para isso?

"Não se pode encontrar a paz evitando a vida.” Sim, ela também diria isso. E, por isso, creio que ela desejou estar ali. Para que lembrássemos disso um dia. Hoje ou amanhã, talvez. Para ela, a morte foi a única forma de ter paz.

Enquanto a tocava, inorgânica, a trilha sonora das mais tristes canções dos Bunnymen ou da Legião vieram a mim. Senti vontade de chorar, mas o nó na garganta me sufocou.

Enquanto isso, os anos estarão para sempre entre nós.

Sempre os anos.

Sempre as horas.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Edalmo Guitarra disse...

Mudaram as Estações...
Nada Mudou...
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu,
Está tudo assim, tão diferente.

Se lembra quando a gente,
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre, sempre acaba.

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E Ae então estamos bem.
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir nem tentar
Agora tanto faz ...
Estamos indo de volta pra casa ....