terça-feira, 5 de julho de 2016

Carta Inacabada





Eu precisava sair de Barra Mansa. Precisava do meu tempo. Todos tinham tido seu tempo pra sofrer, pra chorar, pra viver o luto. Eu não. Eu ouvi de todos: "Agora é só você e seu pai, cuida bem dele.", ou "Cuida bem do seu pai, agora você é o cozinheiro da casa.", ou então "Seu pai vai precisar muito de você agora, viu? Você precisa ser forte por ele.", mas eu não consegui. 

Passei quase duas semanas plantado na cama, praticamente sem dormir direito, e quando levantava pra fazer comida, não comia direito, mas meu pai estava bem alimentado, bem cuidado, protegido, enquanto eu estava uma bagunça só. Não tô falando isso pra ganhar elogios, apenas narrando os fatos. Não era apenas pela morte da minha mãe que eu estava mal. Tinha um peso no meu peito (que não era infarto), sabem? Não, a maioria de vocês não deve saber. 

A minha mente não parou desde aquele domingo, quando minha irmã ligou dizendo: "Glauco, a mãe acabou de falecer.". As lembranças dos gritos de dor, da expressão de ódio e frustração nos olhos dela, do que essa doença maldita fez com ela, da versão odiosa dela que me odiava, da versão carinhosa dela que beijou a minha bochecha, me parabenizando pelo meu primeiro macarrão feito sem a ajuda dela (ok, eu sempre soube cozinhar, mas cadê que ela deixava alguém mexer na cozinha dela?), tudo isso girava na minha mente sem parar. 

De longe eu assisti ao enterro. Passei o domingo todo sem chorar, a manhã de segunda sem chorar, tudo porque eu precisava ser forte e havia prometido pra mim mesmo que não iria chorar, mas não aguentei, então fui chorar longe, enquanto assistia e pensava: "Será que ela me perdoou? Será que ela entendeu? Será que ela morreu com raiva de mim? Ah, mãe..."

Todo santo dia, eu ligava o Spotify no máximo (coitado do meu pai e dos vizinhos) pra tentar abafar a voz dela na minha mente durante o preparo do almoço, e pra abafar os gritos de dor, os gritos de ódio, a expressão frustrada no olhar dela, e pra evitar de responder sempre que a voz dela me sugeria algo a fazer com a carne, ou com a cebola, e também pra eu não gritar da cozinha: "MÃE, COMO VOCÊ QUER O MOLHO?!", e pra tentar não pensar na pergunta: "Será que ela me perdoou? Será que ela entendeu? Será que ela morreu com raiva de mim?".

Passou-se um mês. Olhei pro meu pai e pensei: "Ele está forte o suficiente.". Não fazia ideia de pra onde eu ia, eu só precisava sair, e foi quando Rafael me disse: "Vem, você precisa descansar.". Então eu fui pra Florianópolis. Descansei, me distraí, conheci gente bacana, mas os flashes não pararam... O som dos gritos não parou, o odor que se instalou na casa não saía das minhas narinas. E a pergunta não saía da minha cabeça.

Cheguei meia-noite e meia em casa, na terça-feira, e durante a conversa com meu pai (ele adora quando eu viajo porque sempre tem fotos e vídeos e muita novidade), ele me mostrou uma carta. Enquanto mexia nos livros de receita, encontrou uma carta deixada pela minha mãe, escrita em fevereiro desse ano. 

Ela começa assim: "Quando tomarem conhecimento desta carta, eu já não estarei mais aqui.". Não tive reação. Na posição que eu estava eu fiquei e li a carta toda assim, e ali eu obtive a minha resposta. "Meus dois filhos me ensinaram o que é amor.". Ela havia me perdoado. Ela havia entendido. Minha mãe não morreu com raiva de mim. Ela morreu me amando. Minha mãe morreu sentindo um amor que eu, sem saber, sem nem imaginar, acabei ensinando a ela. Que ideia da minha mãe... Até parece que eu poderia ser capaz de ensinar algo a ela... Mas parece que eu fui, e por isso ela entendeu, e me perdoou, e não morreu com raiva de mim.

Li o resto da carta, onde ela agradecia a muitos que a ajudaram ao longo do caminho, e pedia perdão a todos nós, chegando ao final, onde ficava claro que ela pretendia escrever mais, mas não conseguiu, não teve tempo. Ou talvez tivesse que ser assim. Pra mim não interessa o que ela teria dito, mas sim o que ela disse. Ela carregou com ela o amor que eu, inexplicavelmente, mostrei a ela. 

E agora eu consigo dormir, consigo comer, consigo seguir. Minha mãe morreu me amando. E eu vou seguir amando-a.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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15 comentários:

Mell disse...

Sua mãe era MAE de verdade, apesar de todas as diferenças entre vcs ela se expressou como conseguiu para te aliviar, pois como uma verdadeira MAE sabia que iria ficar com essa angustia quando ela partisse e com todo amor te devolveu a paz, tranquilidade, carinho. Vc me emocionou. Lindo, lindo demais...

Glauco Damasceno disse...

<3 <3 <3

Camila Gabriela Guilherme de Oliveira disse...

Vc me fez chorar. O amor,o que seria de nós sem amor.
Amo vc.

Jujubas e Mirabel disse...

lindo, Glauco... seu texto também me fez lembrar de minha mamãe... <3

Glauco Damasceno disse...

Nada, não seríamos nada!

Glauco Damasceno disse...

<3 Jujubas

Maria Tereza disse...

Querido primo Glauco... me responde... como alguém não poderia amá-lo???Ainda mais sua mãe, que fez TUDOOO, pra que você viesse ao mundo. Você foi muito desejado por seus pais, meu amor. Entendo muito bem, essas cobranças das pessoas, e de você próprio, com relação ao sofrimento e falecimento dela. Você precisava desse tempo. Viu como Deus providencia tudo??? Havia ainda o seu consolo final, te esperando... a CARTA... Típico da Zulma... Como o molho, que você perguntava, ela deixou essa carta inacabada, pra que VOCÊ, continuasse a escrevê-la, como uma resposta, um agradecimento, que você não teve tempo de fazer... É isso !!!!

Maria Tereza disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Glauco Damasceno disse...

<3 <3 <3 <3 <3 <3

Leandro Faria disse...

Amigo, belíssimo texto. Me emocionou, como eu te disse quando tinha acabado de editar.

A vida é assim, né? A gente sofre, a gente cresce. Mas, ainda bem, a gente tem as lembranças e os momentos felizes ao lado de sua mãe estarão sempre em sua memória.

Bjão

Glauco Damasceno disse...

Belezas misteriosas da vida <3

Ítalo de Paula Pinto disse...

Belo relato, meu caro. Muito tocante!

Glauco Damasceno disse...

<3

glaucie disse...

Que lindo! Sua mãe foi uma mulher incrível, que prazer eu tive de conhece-lá. Que lindo homem você se transformou pelo amor dela. O amor mais uma vez quebrando as barreiras e transformando tudo a sua volta.

Glauco Damasceno disse...

<3 <3 <3