sábado, 23 de julho de 2016

Como Uma Série Reafirmou Meus Conceitos Sobre Traição/Infidelidade





Após "maratonar" os oito episódios de Stranger Things, a mais recente série lançada pela Netflix, em um dia e meio, deu aquela conhecida sensação de quem é sériemaníaco, de orfandade, mas isso logo passou quando vi a dica de um youtuber sobre Doctor Foster, minissérie em cinco episódios, também disponível pela Netflix.

Bem distante do suspense fantasioso de Stranger ThingsDoctor Foster é uma produção britânica, de 2015, que narra o drama da bem sucedida médica Gemma Foster, ao descobrir que seu marido a está traindo. Sem super-heróis e efeitos especiais, a série é um grande drama psicológico, que pode fazer os fãs de histórias mais aceleradas torcerem o nariz, mas pra quem tiver um pouco de paciência, a trama da Doutora Foster se revelará ótima.

Partindo do tema traição/infidelidade, uma premissa simples, inúmeras vezes utilizada em novelas, filmes e até outras séries, Doctor Foster tem o tema como seu estofo principal, e por ter apenas 5 episódios termina muito bem e de forma redonda, e por seu grande sucesso ganhou a encomenda para uma segunda temporada. O que não dá pra imaginar é como será sua continuação, já que todos os dilemas foram resolvidos a contento nesta única temporada.

Mas além de dar uma dica esperta aos apaixonados por séries, o assunto que me traz aqui hoje é a forma como a infidelidade do marido é tratada na história por todos os outros personagens, enquanto a esposa sofre feito uma condenada. Gemma parece ter a vida perfeita, vive com o marido gato e de um sorriso sedutor irresistível, em uma casa maravilhosa, junto ao filho esperto e fofo que parece ter saído diretamente de Hogwarts, e é a médica-chefe do único hospital em uma cidadezinha de sonhos no interior da Inglaterra.

A descoberta da traição do marido afeta de forma tão profunda seu psicológico, que põe em risco até sua carreira. Ainda assim, conforme Gemma vai revelando sua descoberta aos amigos, todos parecem mais preocupados em poupar o pobre marido do possível estresse de um divórcio, tentando convencê-la a manter seu casamento, do que demonstrar empatia. Gemma fica mais destruída pelas mentiras do marido desleal, do que pelo fato de ele fazer sexo com outra mulher. Em diversos momentos ela deixa claro que se ele for honesto com ela, será capaz de entender e relevar sua "pulada de cerca", mas ele não confessa.

Mesmo sem a confissão do marido, Gemma decide perdoá-lo ao constatar, que ainda o ama e que não quer perder a "vida perfeita" que construiu ao lado dele. O filho também tem grande peso na decisão da médica, que imagina o forte baque que seria pra ele, apaixonado pelo pai, caso houvesse uma separação. Isso foi algo que me deixou bastante angustiado e irritado, tentar poupar o filho da verdade, um menino bastante esperto, enquanto o mundo desmoronava ao seu redor e dentro dela.

Em minha opinião, numa situação como essa, filho em qualquer idade, serve apenas de muleta, uma desculpa bem da sem vergonha (salvo raras exceções) para não por um ponto final em um relacionamento falido, quando o principal envolvido não tem real vontade ou coragem para tal. A criança não precisa ser poupada da verdade, quando a verdade é o algoz de quem lhe deu a vida. E a mãe não precisa achar que sofrer em silêncio é prova de amor incondicional ao filho. O que deve ser ensinado desde o momento em que a criança conseguir discernir as coisas é que amor próprio é o mais importante e nobreza de caráter vem acima de qualquer outra coisa.

Aqui me refiro especificamente a mulheres e mães, porque são elas as maiores vítimas de traições, e a sociedade machista minimiza sua dor e sofrimento desde que o mundo é mundo, fazendo as próprias acreditarem nesse padrão e mesmo dilaceradas encararem tal comportamento como natural. Se é natural pra eles também deve ser natural pra elas, mas não é assim que a banda toca.

Falo isso tudo, também por experiência própria, e assistindo à Doctor Foster não pude deixar de lembrar da minha história familiar. Aos 27 anos, quando meus pais estavam às vésperas de completar 33 anos de casamento, já morando sozinho e em outra cidade, recebi uma notícia que jamais imaginei, apesar de desejar muitas vezes quando criança e adolescente: meus pais estavam se separando; mais do que isso, meu pai havia saído de casa por causa de outra mulher. Não era simplesmente uma separação amigável de comum acordo, era uma bomba. Aos 50 anos, meu pai abandonava à própria sorte minha mãe, então com 59 anos, e 'abandonar à própria sorte' não é apenas força de expressão. Meu pai foi insensível, canalha, cafajeste e irresponsável.

Enquanto minha mãe caía em uma pequena depressão, eu me corroía de rancor e ódio. A raiva que sentia de meu pai era tão profunda que cegava a empatia que deveria ter por minha mãe, que a essa altura estava morando comigo. Quando a via chorando, não conseguia me compadecer, mas a agredia com palavras, por ela sofrer por quem não merecia. Na minha cabeça, ainda imatura e com pensamentos radicais em se tratando de traição/infidelidade, ela devia desprezá-lo, esquecê-lo e seguir em frente de forma instantânea, mas apesar de tudo, e esse 'tudo' inclui muita canalhice, ela ainda o amava. Eu não a entendia e ela não entendia como eu não conseguia entendê-la.

Diante dos acontecimentos, uma outra história não saía da minha cabeça. Eu tinha 13 anos, e minha mãe descobriu uma troca de correspondências entre meu pai e uma garota de 17, onde ele afirmava que se ela topasse, largaria tudo e fugia com ela pra qualquer lugar; ela não topou e as cartas chegaram até minha mãe. Tentaram me esconder na época, mas o escândalo foi tão grande que não conseguiram, havendo até uma tentativa de suicídio por parte de minha mãe. Acho que foi a partir daquele momento que minha relação com meu pai tornou-se frágil e permeada por mágoas e rancores. Eu fiquei encolerizado pela revolta, mas era apenas um garoto, não podia gritar, brigar, desabafar, apenas torcia ardentemente para que minha mãe pusesse um fim àquele casamento. Mas ela o perdoou, e quando eles de fato vieram a se separar anos mais tarde, era inevitável pensar como tudo teria sido diferente, se tivessem terminado o casamento quando eu tinha 13 anos. Minha mãe sofreria, naturalmente, mas teria muito mais chances de recomeçar com ou sem outro homem, além de evitar muitos dissabores nos 14 anos seguintes.

Mas eu ainda não sabia de tudo. Quando questionei minha mãe o porquê de não se separar na primeira traição, ela abriu o jogo e disse que jamais se separaria de meu pai, revelando inúmeras outras traições quando eu era ainda menor, inclusive uma quando ainda era um bebê de alguns meses. Aquelas revelações foram um tapa na minha cara. Eu, que sempre abominei traição, tive asco do meu pai, e me senti traído até por minha mãe. Não entendia e não entendo até hoje por que aceitar e continuar convivendo com um traidor, uma pessoa mentirosa e desleal. Minha mãe deu as explicações dela, o que daria pra escrever um outro texto, mas não me convenceu e não me convence. Aceitar esse comportamento do companheiro que você escolheu pra vida é no mínimo uma indignidade.

Adoraria que todas as mulheres traídas se empoderassem e fizessem como a Doutora Gemma Foster, pois com certeza ela é um exemplo a ser seguido. E se você ainda não viu a série, sai daqui agora e corre pra Netflix.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Aconteceu disse...

Ótimo texto vou assistir a série,mas acredito não ser tão boa quanto os TJ....