sábado, 16 de julho de 2016

Das Alegrias que o Facebook Traz






Uma simples solicitação de amizade pode melhorar seu dia significativamente. Na última quinta-feira dormi com algumas chateações na cabeça mas, ao acordar e conferir as horas no celular, que é a primeira coisa que faço ao abrir os olhos, havia uma notificação no Facebook: solicitação de amizade. Cansado de receber convites de desconhecidos e pessoas desinteressantes, uma leve irritação despontou no meu peito, para se desfazer imediatamente e dar lugar a uma alegria eufórica ao ver as fotos com mais atenção, e descobrir que a solicitante era uma das mais queridas amigas de adolescência, de quem havia perdido o contato há muito tempo.

Vívian foi uma das figuras mais emblemáticas que passaram pela minha vida ao longo desses meus quase 35 anos. Tínhamos entre 16 e 17 anos, éramos tão cheios de frescor. Estudávamos juntos e aqueles tempos escolares foram os melhores. Vívian era uma loba solitária, mulata de boca carnuda e bunda descomunal, andava rebolando de peito empinado e cabeça sempre erguida pelos corredores do colégio, assediada pelos rapazes e alvo de inveja das recalcadas. Vívian não tinha amigas, se dava bem com todo mundo, da tiazinha da cantina até a diretora da escola, mas não fazia parte de grupinhos.

Era rotulada de galinha pelas outras garotas por seu jeito despachado com os meninos. Vívian não se fazia de virginal como a maioria delas, gostava e preferia a companhia dos garotos. Ficava com quem lhe desse vontade e não escondia isso de ninguém. Todo mundo se pegava com todo mundo e aprontava horrores, mas a única que assumia o que fazia era Vívian.

Aos 17 anos, Vívian já trabalhava como cabeleireira, vivia com a mãe em um pequeno apartamento no centro da cidade e já tinha uma certa independência, algo que já a diferenciava bastante das outras colegas de escola, em sua grande maioria, de família com estruturas ditas tradicionais: pai, mãe, irmãos, mesada, horário pra chegar em casa, essas coisas que não faziam parte da rotina de Vívian. Ela era filha única, não tinha contato com o pai e já batalhava pelo próprio dinheiro. Tendo uma convivência de amiga com a mãe e fazendo sempre o que tinha vontade.

Não tinha papas na língua, discutia, brigava e armava barraco sempre que achasse necessário, o que não raro acontecia, com tantas garotas atacando-a pelas costas. Enfim, uma personalidade destoante e fascinante pra mim, acostumado com pessoas sempre certinhas e polidas aos 16 anos. Mas minha identificação e admiração por Vívian não foi imediata.

Quando entramos para a mesma classe fui tomado de amores por K, a garota popular da turma, que concentrava em si todas as atenções. De início, K parecia um anjo de candura, mas não demorei a descobrir que era uma boa bisca. K tinha certa implicância com Vívian, era do tipo que bancava a santinha, mas não passava de uma ordinária. Adorava estar rodeada e ser paparicada por todos, e adorava que eu fosse seu melhor amigo gay, ainda que meio enrustido. Com seu jeitinho "meigo" fazia de todos gato e sapato, ela tinha um poder de persuasão incrível, era sedutora, e eu bobo, babava por ela. Vívian nada dizia, só observava.

No segundo ano em que estudamos juntos, pouca coisa mudou, a turma permaneceu quase a mesma, e aos poucos comecei a enxergar K de maneira mais clara. Me aproximei mais da tímida Nadege, que surpreendentemente se tornou grande amiga e hoje é minha amiga da vida, estamos separados por um oceano, mas continuamos amigos apaixonados. E foi quando comecei a sair do cercadinho construído por K em torno dela, e descobri que Nadege era mais do que a menina tímida e calada que ficava quietinha no fundo da sala, quase invisível, que também prestei mais atenção em Vívian, que começou a fazer parte de nosso grupo de trabalhos e já não era mais a garota sozinha de antes, agora ela fazia parte de um grupo formado por mim, Nadege, K e mais alguns. K já não era mais o centro das atenções, os "súditos" que ela adorava acreditar que tinha, já não estavam mais tão envolvidos por ela, e assim não existia mais "panelinha" liderada por K, éramos agora um grupo heterogêneo, que se respeitava em suas diferenças e se admirava mutuamente. Exceto K, que a certa altura se tornou a vilã da história. Mas esse texto não é sobre K. A protagonista aqui é a apaixonante Vívian.

Displicentemente, Nadege, Vívian e eu, nos tornamos muito próximos. Quando nos tornamos amigos, eu e Nadege ficamos inseparáveis, e estarmos sempre com K bloqueava nossa percepção para outras pessoas, principalmente Vívian. Então, quando nos afastamos um pouco da rainha do egocentrismo, tivemos a alegria de conhecer Vívian de verdade, e nos encantamos. Ela era nosso contraponto perfeito, a parte picante, sensual, atrevida de um trio improvável.

Vívian era despudorada, sem vergonha, livre de preconceito. Guardei dela as melhores lembranças da adolescência, as mais ousadas. Foi com ela que comecei a sair à noite. Ela me levou ao meu primeiro ambiente gay, um inferninho chamado Valentino, que era maravilhoso. Sinto palpitações até hoje ao lembrar. Ela tinha bordões inesquecíveis. Impossível apagar da memória sua voz aguda gritando pra mim, meio assustado e sem jeito pelo novo, no bar barulhento cheio de figuras exóticas e fascinantes:
Se joga e acredita, meu bem!
Esse bordão viria a se popularizar anos depois, mas foi na boca de Vívian que o ouvi pela primeira vez.

Em 2001 nos formamos. Mudei de cidade e nunca mais soube de Vívian. Na época do finado Orkut tentei encontrá-la, mas não consegui. Numa conversa com Nadege nessa mesma época, ela me disse que havia encontrado Vívian por acaso em São Paulo (eu morava em Porto Alegre), quando estava lá de passagem por ocasião de um curso. Segundo Nadege, ela estava muito diferente, usando vestido longo, e havia virado evangélica. Desacreditei, não era possível que a mesma Vívian que aprendi a amar por ser tão autêntica e libertária, havia se tornado uma fanática religiosa. Isso foi em 2008. Durante oito anos fiquei com a imagem de Vívian, arrependida de seus "pecados", enterrada dentro de uma igreja, querendo converter todos à sua volta, tal e qual Mara Maravilha.

Nada como uma bela desconstrução. Eu não encontrei Vívian nas redes sociais, mas ela me achou, e fez minha última quinta-feira mais alegre. Vendo seus álbuns pude constatar que ela está mais exuberante do que nunca. De roupas curtíssimas na adolescência, seu figurino agora são vestidos longos, grudados no corpo, maravilhosos, ressaltando suas curvas que continuam as mesmas. O cabelo, num tom vermelho ressaltando sua personalidade forte. Vívian agora é mãe, me parece que cria o filho sozinha. Continua trabalhando como cabeleireira. É evangélica sim, mas continua cercada de gays, fervendo horrores e sendo maravilhosa. 

A felicidade que me invadiu por saber que ela pode ter apurado sua personalidade, mas não mudou-a em absoluto, é indescritível. Imagino-a agora com a mesma cabeça da adolescência, porém mais madura, experiente e mais fabulosa do que nunca, e isso só me faz ter vontade de reencontrá-la pessoalmente o mais breve possível.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Marisa Veiga disse...

Amei seu texto meu querido...
Me identifiquei logo de imediato com o titulo, pois também senti essa alegria de encontrar pessoas queridas que não via á muito tempo....bendita internet, santo FACEBOOK, apesar dos pesares(pq infelizmente muitos o usa de forma indevida) é uma ferramenta de busca e achados sensacional, encurta distâncias.
Parabéns...bjo