domingo, 24 de julho de 2016

Eu Tenho Depressão





Essa não é a primeira vez que eu preciso me afastar do trabalho por causa da minha depressão. Certamente não será a última. Circunstâncias como as de agora já há tanto me acompanham, que existe delas para comigo uma certa familiaridade que costuma gerar, também de forma rotineira, um estranhamento entre aqueles que ao meu redor convivem. O raciocínio das pessoas, em geral, segue um script bem definido: "eu estranho aquilo de que sou alheio; porque é do outro, então é diferente de mim; como é diverso, então me falta repertório para absorver e compreender; o que não compreendo, eu embalo e etiqueto em uma simplificação inteligível a mim; e a simplificação carrega o meu julgamento extrínseco".

A depressão é a doença mais estereotipada, repleta de lendas, mitos e mistificações — características da ignorância. "Depressão é uma tristeza intensa", "depressão é doença de rico", "depressão é uma escolha", "depressão é frescura de quem não tem o que fazer", "depressão é uma doença de países frios, onde não há muito sol", "depressão é consequência de um evento traumático na vida de alguém", "depressão é doença de gente velha", e por aí vai, a lista de estereótipos encheria páginas. E quem são as pessoas que costumam afirmá-los verbalmente, por escrito, e em atitudes abertas ou sutis? Praticamente todo mundo, inclusive pessoas que vivem com a doença.

Por Toda a Vida

Eu tinha 16 anos quando ouvi pela primeira vez que eu sofria de depressão. A psicóloga do colégio, alertada por meus professores que me viam dormindo em sala de aula, tinha conversas esporádicas comigo a respeito dos meus problemas. "André, você já ouviu falar de depressão? Eu acredito que você desenvolveu essa doença e você deveria procurar auxílio médico". Dos 16 até os 22 anos, tudo o que me foi dito sobre depressão soava como ultrajante. Na minha cabeça, aquela tristeza profunda, aquela melancolia sem fim, aquele desejo de me encolher, tudo isso iria embora se eu conseguisse me libertar do que eu pensava ser o motivo que as causavam. Ignorante, não encarava a depressão como doença grave a ser tratada. Não admitia o problema, e com preconceito não poderia resolvê-lo.

Aos 22, então, tive a minha primeira grande crise. Fiquei afastado do trabalho por semanas, levantar da cama era uma tarefa que me exigia enorme força de vontade, energia e intenso choro. Pela primeira vez comecei a pensar na morte como algo fascinante, escrevia apaixonadas redondilhas:

Entardece em minha vida
Minhas cores são mais brandas
E um cansaço de subida
Em minh'alma agora manda
Tudo passa e nada fica
Novo além se agiganta
E o suspiro pacifica
A voz muda na garganta
E essa morte me fascina
Como alguém a quem se ama
Em mim tudo silencia
Vida pena ponto fama

Dos 22 aos 38 anos, onde hoje me encontro, vivi 4 grandes crises de depressão. Elas foram responsáveis, juntas, por meses de inatividade, fim de relacionamentos, abandono de projetos profissionais, milhares de noites insones e uma tentativa de suicídio. E porque eu sei que de fato eu nunca quis pagar o que tudo isso me custou é que percebo de forma empírica que a depressão, em toda a simplicidade dessa afirmação, é uma doença:


Pandemia

E não se trata de uma doença qualquer, uma doencinha. Ela atinge hoje, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 350 milhões de pessoas no mundo, relativamente mais mulheres, ainda que distribuída equitativamente entre classes econômico sociais e faixas etárias. Também segundo a OMS, o Sudão é um dos países com maior população de deprimidos. Nos Estados Unidos, a depressão já é a causa número um entre afastamentos de trabalho, de acordo com estatística do Center for Disease Control and Prevention. E no Brasil, de 1996 a 2012, apontam conclusões do DataSuS, mortes relacionadas à depressão cresceram 705%. De fato, esta não é uma doencinha. Esses e outros tantos dados disponíveis na web têm características de pandemia… de uma pandemia global.




"To Look Life in The Face"

Ao longo desses anos todos fui ajudado por psicólogos, psiquiatras, por tratamentos holísticos e medicamentosos, pelo afeto da presença e perseverança de alguns amigos queridos, e em muito pela leitura do clássico livro de Andrew Solomon—The Noonday Demon: An Atlas of Depression. Este livro não me deu fórmulas para a cura (não acredito que elas existam), nem sequer me deu a esperança de cura, mas ele me deu uma cara para a depressão, a possibilidade de olhar a depressão pela primeira vez, e de cara limpa poder encará-la de frente e começar a fazer as pazes com ela:
Antonin Artaud escreveu em um de seus desenhos, "nunca real e sempre verdadeiro", e é dessa forma que a depressão se parece. Você sabe que ela não é real, e que você é mais do que ela, e ainda assim você sabe que ela é absolutamente verdadeira. ― Andrew Solomon, The Noonday Demon: An Atlas of Depression (minha livre tradução)
Em Uma Mente Brilhante, Ron Howard retrata a vida do vencedor do Prêmio Nobel de Matemática, John Nash — ele próprio, esquizofrênico, lutou contra a sua doença ao longo da maior parte de sua vida, inclusive nos anos em que formulava algumas de suas teses premiadas como a Teoria dos Jogos. Na última cena do filme (spoiler alert), já velho depois de todas as atribulações pelas quais passou, ele vê do outro lado do saguão os três personagens que lhe apareciam em suas alucinações esquizofrênicas. Ele então toma a mulher pelo braço e tranquilamente caminha na direção oposta a seus fantasmas.


A cena é para mim a perfeita descrição sobre a relação que muitos dos pacientes mentais têm com suas doenças: na impossibilidade de curá-las, eles aprendem a conviver com elas, com seus fantasmas, com seus demônios que não à noite, mas em plena luz do meio-dia, aparecem. E de certa forma é assim que eu lido com a minha depressão. Ela é uma inimiga que trago para perto, porque quanto mais perto estou dela, mais a reconheço, mais a conheço, mais a compreendo, e mais consigo mantê-la para além das minhas trincheiras.
As pessoas que bem sucedem, a despeito da depressão, fazem três coisas: 1) elas buscam entendimento sobre o que lhes acontece. 2) elas aceitam que essa é uma condição permanente. 3) e assim elas transcendem sua experiência com a doença e crescem a partir disso, colocando a si mesmas em relação com um mundo de pessoas reais. ― Andrew Solomon, The Noonday Demon: An Atlas of Depression (minha livre tradução)
"There's So Much Beauty in the World"

A despeito da minha depressão, ao longo desses anos pude realizar muitas coisas das quais me orgulho porque conheço quão difícil foi para mim, doente, realizá-las. Desenvolvi uma carreira profissional pela qual sou respeitado por meus pares, fui produtor executivo de um filme de cinema, e hoje dirijo uma equipe multidisciplinar de 44 pessoas, de ampla diversidade e cheia de energia no marketing da maior startup da América Latina. A despeito da minha depressão, conquistei a confiança e o amor de muitas pessoas ao longo da vida. Pessoas para as quais sou um perspicaz e sensato conselheiro, pessoas que em face dos meus tantos precipícios me deram suas mãos e suas vidas inteiras. A despeito da depressão, criei um cachorro que depois de 10 anos de vida, tornou-se paraplégico, e exigiu em seus dois últimos anos de paralisia que eu transpusesse minha condição e silenciasse meus demônios para exercitar um amor incondicional.

Sim, a depressão é uma doença e tratá-la como algo diferente disso só perpetua a doença em si e amplifica o sofrimento daqueles que lutam contra ela. Deprimidos não são alienígenas, depressão não se transmite no ar ou no sexo e, na verdade, há coisas boas e inúmeros lados positivos na doença, assim como tudo em uma vida na qual não se acredita em desgraça pura.
Do lugar mais escuro dos meus sentimentos mais obscuros no âmago do invólucro ventral da minha depressão, eu vejo luz e desejo de ir adiante para continuar vendo beleza no mundo. Eu posso ver a completa beleza das coisas de vidro no exato momento em que elas escorregam de minhas mãos. ― Andrew Solomon, The Noonday Demon: An Atlas of Depression (minha livre tradução)
Por favor, curta e compartilhe se você acha que esse texto pode ajudar outras pessoas, doentes ou não, a entenderem e enfrentarem a depressão.
*Texto originalmente publicado em 12/07/2016, no blog pessoal do autor.

Leandro Faria  
André Kano é jornalista e editor do blog Antes e Depois de Tudo Acontecer. Paranaense radicado no Rio, já morou em um bocado de lugar Brasil afora.
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