quarta-feira, 13 de julho de 2016

Futebol, Estereótipos e Preconceitos





Há exatos dois anos, eu realizava um dos maiores sonhos da minha vida: assistir a uma final de Copa do Mundo ao vivo. Tive a oportunidade de estar no Maracanã e presenciar o gol na prorrogação de Götze que deu o título à Alemanha sobre a Argentina. Lembro como se fosse ontem o povo comemorando junto aos alemães (os mesmos que haviam nos humilhado dias antes) contra os hermanos.

Sim, era um grande sonho meu. Do tipo de colocar junto com o lance de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho (a propósito, só não tenho o filho ainda). Sonhei com essa Copa no Brasil, embora o momento para o país possa não ter sido o mais oportuno. Futebolisticamente falando, a Copa foi fantástica, os jogos foram excelentes e cheios de surpresa. Acompanhei coletivas com grandes jogadores, como Ronaldo e Matthäus, e grandes artistas, como Shakira e Ivete Sangalo. Assisti da arquibancada o gol de James Rodriguez, eleito o mais bonito do torneio (tão surpreendente que muita gente soltou um grito de assombro quando viu o replay no telão). Vi uma equipe erguendo a taça que um dia fora nossa.

Desde o campeonato de 1994, nos EUA, me descobri um admirador de Copas do Mundo. Logo no início, me liguei em todos os jogos possíveis, em especial os da seleção brasileira. Com 10 anos de idade, nem reparava que jogávamos um futebol contestado. Recordo-me dos grupos daquele torneio e de boa parte dos resultados das partidas. Foi tudo bastante intenso. Ficou na memória cada gol da nossa campanha.

Em 1998, minha mãe comprou um Almanaque das Copas. Estudei tudo e decorei, até hoje, todas as finais de Copa do Mundo e seus resultados desde o começo, em 1930. Tinha a convicção de que ganharíamos aquela final contra a França, o que não aconteceu. Foi, para mim, um dos momentos mais decepcionantes da minha vida. Fiquei anos sem poder ouvir falar no nome de Zidane sem sentir raiva.

Em 2002, uma Copa do outro lado do mundo e eu estava de férias. Acordava no meio da madrugada para assistir a praticamente todos os jogos, incluindo Suécia e Nigéria ou Coreia do Sul e Itália. Ganhei o bolão de apostas dos amigos, com direito a cravar a final: 2 x 0 sobre a Alemanha. A mesma que nos golearia de 7, anos depois.

Muito além das Copas do Mundo, que são verdadeiras paixões para mim, sou torcedor assíduo do meu time, o Flamengo. Estou presente no Maracanã sempre que possível (pasmem: comigo no estádio, o Flamengo até hoje só ganhou! Nunca perdemos ou empatamos).  Sou sócio-torcedor e colaboro financeiramente com o clube. Acompanho as escalações e movimentações de atletas.

Curioso é que muitas vezes sou questionado sobre isso. Há os amigos gays que me olham como um alienígena pelo fato de eu gostar de futebol. Gosto de futebol tanto quanto um hetero gosta de novelas. Cada um deveria gostar do que bem entende, sem julgamentos. Até porque a coisa mais estranha que existe são os próprios gays perpetuarem estereótipos e preconceitos. E, definitivamente, eu não gosto de futebol por uma questão heteronormativa. Gosto porque gosto.

Conto os minutos para o Maracanã voltar a ser liberado para os jogos do Flamengo. Colocar minha camisa da sorte e cantar com a nossa nação, como nos chamamos, na arquibancada. E pra próxima Copa do Mundo chegar, mesmo que seja para acompanhar pela TV, à distância.

Futebol é coisa de hetero, de gay, de homem, de mulher. Futebol é pra quem gosta e ponto.
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: