sábado, 2 de julho de 2016

Histórias de Disque Amizade





Muito antes das redes sociais e de todos esses aplicativos de relacionamentos a que temos acesso hoje, existia o MSN e o bate-papo UOL. Era o início da comunicação virtual como a conhecemos. O bate-papo da UOL funcionava como os aplicativos de hoje: entrávamos para “caçar”, podia ser apenas um encontro sexual sem compromisso ou estávamos interessados em conhecer alguém para namoro e/ou amizade. Se a coisa evoluísse, assim como fazemos atualmente ao trocar WhatsApp e adicionar no Facebook, partíamos para o MSN. 

Mas, antes do MSN e do bate-papo UOL, quando mergulhamos de cabeça na Era Tecnológica, existia uma outra forma de conhecer pessoas antes de vê-las pessoalmente. Era o Disque Amizade 145. Bastava ter um aparelho telefônico em casa, discar os três números, 145, e pronto, você entrava em uma sala de bate-papo com várias pessoas e, se gostasse de alguma em especial, era só discar asterisco (*) ao mesmo tempo que a outra pessoa e ambos iam para o reservado. Na sala privada, dependendo do desenvolvimento da conversa, poderia ou não haver uma troca de telefones. 

Era meados dos anos 90, 1997 pra ser mais preciso. Uma linha telefônica acabara de ser instalada em casa. Eu tinha 15 anos, era um adolescente tímido e retraído, que havia deixado recentemente grandes amigos em outro Estado, e estava começando uma vida nova em um lugar desconhecido. Nova escola, novos colegas, novos hábitos. A fase de adaptação foi bem difícil, e eu estava ávido pra conhecer gente nova, viver novas experiências e fazer parte do ciclo social da nova cidade. Sem falar na vontade crescente de paquerar, “ficar”, beijar na boca, viver aquelas paixonites de adolescente que todo mundo na escola já estava curtindo. Só que com o agravante de ser gay, enrustido e ir à igreja de terno e gravata duas vezes por semana, religiosamente, botar pra fora toda a explosão de sensações em ebulição dentro de mim era praticamente impossível. Até que o 145 salvou minha adolescência triste e solitária.

Foi durante um comercial na TV que descobri a existência do Disque Amizade, uma linha que me fez feliz durante um bom tempo. Entre os 15 e 18 anos conversei com muita gente e me diverti bastante, mas alguns casos foram marcantes. Antes de começar os causos, é bom que saibam que o Disque Amizade era mesclado, não existia salas específicas para gays e HTs. Como eu tinha uma voz bem feminina (ainda tenho, mas aos 15 devia ser pior), podia me passar por uma mocinha ou uma travesti. Na maioria das vezes me identificava como um rapazinho, mas de vez em quando gostava de me passar por garota.

Foi no 145 que levei meu primeiro “bolo”. Conversava com um cara que dizia estar perto de onde eu morava e queria me ver. Falamos por dois dias e combinamos de nos encontrar na esquina da minha casa. Fui e ele não apareceu. Chorei feito criança, ou melhor, feito o adolescente bobo que eu era. Tentei ligar pra ele várias vezes depois, mas nunca fui atendido.

Numa outra ocasião, falei com Marcelo. Ele era bem mais velho, mais de 30, e queria me conhecer. Era dono de um restaurante. Eu estava excitadíssimo com a ideia de conhecer um homem mais velho, interessado por mim, e fui ao encontro dele com o coração na boca. O restaurante, que era ao lado da casa dele, eu já conhecia. Entrei e, ao vê-lo pessoalmente, não curti muito. Fomos pro quarto dele, sentamos na cama, ele se aproximou, fedia a cigarro. Antes que encostasse os lábios nos meus, levantei e fui embora.

Tiago era um rapaz que parecia muito bacana, tanto que trocamos telefones e conversamos por alguns dias. Ele morava em um bairro meio distante do meu, mas um dia à tarde estava próximo da minha casa e me ligou pra saber se eu não gostaria de encontrá-lo. Fui correndo, super empolgado, marcamos em uma praça perto de casa. Quando fui me aproximando, Tiago parecia esquisito. Usava uma camisa colorida estampada com flores, bem cafona. Sentei ao lado dele, tentei puxar assunto, mas ele mal falava, parecia um bicho acuado. Fiquei com um pouco de medo. Dei uma desculpa qualquer dizendo que precisava ir pra casa bem rápido, mas pra ele esperar que eu logo voltaria. Nunca mais tive notícias de Tiago, mas a cara de psicopata dele permanece até hoje na minha memória. 

Naqueles tempos eu amava ouvir rádio, tinha minhas estações favoritas e até ligava às vezes pra pedir música. A madrugada era o horário que eu mais gostava de ouvir rádio e ligar pro Disque Amizade. Numa dessas madrugadas, enquanto ouvia minha rádio preferida e ligava pro 145, me fazendo passar por Camila, comecei a conversar com Leandro, que era ninguém menos que o locutor da rádio naquela madrugada. Custei a acreditar que era verdade, até que eu pedi uma música e ele tocou. A sensação de falar com um locutor da minha rádio preferida era a mesma que falar com um galã de novela. Leandro substituía o locutor oficial naquela madrugada e conversava comigo enquanto as músicas rolavam, acreditando que eu era uma garota, e totalmente interessado em mim, o que era muito surreal. Ele tinha 20 anos e queria me conhecer. Eu marquei um encontro e bolei um plano para conhecê-lo sem que ele soubesse quem eu era de verdade. Nos encontraríamos numa lanchonete que era o point da galera descolada da cidade, e eu usaria uma amiga para se passar por Camila, acompanhando-a até a lanchonete para ver a cara do boy. Estando lá, depois de matar minha curiosidade, ela desenrolaria a situação e eu sairia de cena. Mas infelizmente meu plano não vingou. No dia seguinte, após falar com Leandro, um domingo, me arrumava para ir à igreja, quando o telefone tocou. Corri do quarto até a sala pra tentar atender, mas meu amado pai foi mais rápido e, quando do outro lado da linha Leandro perguntou por Camila, papi respondeu: - Não, não tem nenhuma Camila nesse número! E meu encontro com o locutor da rádio foi por água abaixo.

Mas nem só de encontros cagados frustrados foi minha história com o Disque Amizade. Tantos bate-papos me fizeram conhecer um amigo bacana. Mike morava em Londres e estava visitando a família no Brasil. Marcamos de nos encontrar na Biblioteca Pública, de lá fomos caminhando até o principal parque da cidade. Fomos conversando, Mike me contando sua história de vida, os problemas com a família, a vida na Inglaterra. Na lanchonete do parque tomamos um suco, o meu era de pêssego, jamais esquecerei. Depois caminhamos mais um pouco, Mike me levou em uma parte do parque que eu não conhecia, onde rolava nossa famosa “pegação”. Pra mim era tudo novidade, Mike me apresentava quase sem querer, um mundo novo, do qual eu ainda demoraria alguns anos pra desfrutar, mas era tudo tão excitante. Pensando em Mike hoje, posso dizer que ele foi o primeiro gay de verdade que conheci, assumido e bem-resolvido. Tivemos esse único encontro e depois falamos mais algumas vezes por telefone, e então ele voltou pra Inglaterra. Passei anos sem vê-lo. Até que numa dessas surpresas da vida, no réveillon de 2001, meu primeiro réveillon fora de casa, numa balada, reencontrei Mike na pista de dança, pulando, alegre, nos abraçamos felizes pelo reencontro inesperado e desejamo-nos todos os votos de Ano Novo. Depois desse dia, Mike virou uma querida lembrança.

É isso, meninos e meninas, depois de quatro semanas afastado, voltei no meu melhor estilo ‘recordar é viver’. Espero que tenham curtido e se divertido tanto quanto eu, do contrário, voltem sábado que vem, prometo que a coisa vai melhorar.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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2 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Historias mt boas kkk