segunda-feira, 25 de julho de 2016

Maldito Murphy





Acordou sobressaltado.

Nem mesmo o barulho insistente do despertador fora suficiente para acordá-lo. Mas as batidas incessantes de um martelo na obra de um apartamento vizinho finalmente o trouxeram de volta dos braços de Morfeu.

Levantou-se, vestiu-se às pressas. No espelho do banheiro, enquanto escovava os dentes, contemplou seu rosto: nem novo, nem velho, mas com uma expressão de cansaço presente, nítida; fora as olheiras que insistiam em não lhe abandonar. Não lembrava mais aquele jovem cheio de vida de tempos atrás.

Engoliu rapidamente o café, queimou a língua, quase caiu da cadeira ao se levantar.

Pegou suas chaves e foi para o carro. Virou a chave. Nada. Motor afogado. Xingou alto. Já estava atrasado. Pediu um Uber, o motorista cancelou. Tentou pedir outro e o aplicativo apenas procurava carros disponíveis nas redondezas, mas sem nenhum resultado. "Ok, farei a Angélica e vou de taxi", pensou ele, achando graça da piadinha infame, mas não contava que teria de ouvir, durante todo o trajeto, uma rádio FM que tocava apenas músicas sertanejas em looping infinito intercalados por comerciais sem fim.

No caminho até o trabalho pensou em tudo o que tinha de fazer e ficou ainda mais desanimado. Chegou atrasado e ouviu a piadinha característica do chefe: "Boa tarde, rapaz!". Sorriu amarelo, enquanto o xingava mentalmente.

Abriu sua caixa de e-mails. Entre correntes e propagandas, havia pelo menos uma mensagem da namorada, que abriu correndo, feliz por pensar que finalmente iriam se entender:
“Cansei do nosso namoro. Você é uma pessoa muito difícil. Acho melhor que não me procure mais. É sério, suma da minha vida!”
Quatro frases e um término de namoro de brinde. Uhu, que maravilha de presentão!

Realmente, algo não estava bem. Pensou em ler seu horóscopo no jornal, mas desistiu. Lembrou-se de Murphy. Era melhor não arriscar.

O dia transcorreu da pior forma possível. Tudo, exatamente tudo que poderia dar errado (e o que não poderia também), deu. O computador foi infectado por vírus, teve que atender um cliente insuportável que ficou reclamando por 2 horas sobre prazos não cumpridos, o ar-condicionado quebrou num dia de calor infernal.

No caminho de volta para casa, quase foi atropelado por uma bicicleta e foi assaltado por um pivete, que levou os R$ 10 que ainda tinha no bolso.

Finalmente em casa, achou que enfim encontraria alguma paz. Abriu a porta, acendeu a luz e soltou um palavrão, já que a luz não acendia e, lembrou-se imediatamente, ainda faltava pagar as contas de luz que, por esquecimento total, deixara vencer sem quitar o débito. Era isso, sua luz havia sido cortada.

Definitivamente, era melhor esquecer aquele dia. Tomou um banho frio (que odiava mas, dadas as circunstâncias, o que fazer?) e foi se deitar. No escuro do quarto, pensou apenas que aquele dia horrível havia acabado. Nada mais podia dar errado.

Track!

Estava no chão. A cama havia quebrado.

Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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