quarta-feira, 27 de julho de 2016

No Princípio, Era a Página em Branco...





Essa semana começou com uma data quase despercebida, porém importantíssima para mim e tantos outros que almejam a simples e árdua tarefa de fazer as pessoas viajarem nas suas palavras: o Dia do Escritor. Poucas coisas me realizam tanto quanto ver um texto ou livro meu entretendo alguém. Ser escritor, mesmo que por um hobby (já que é uma realidade tão distante viver disso no nosso país) é uma imensa parte de mim. E por isso estou aqui no Barba Feita.

Refletindo sobre isso encontrei minha coluna de estreia como colunista das quartas-feiras nesse singelo site, no já longínquo mês de novembro de 2014. E peço licença aqui para reeditar trechos daquele texto que explica muito da minha relação com as letras, com leves atualizações e adaptações: 

Escrever na minha vida se confunde com a minha própria história e existência. Se me alfabetizei dos cinco para os seis anos, lembro que com sete já tinha poesias escritas. Aos oito entrei num concurso interno do meu colégio e fiquei entre os primeiros dez colocados – tudo bem que era um plágio e a minha turma toda reparou, o que me rendeu uma sonora vaia quando li o poema em voz alta. Dois anos depois, participei novamente, dessa vez com uma obra realmente original, e fiquei entre os oito.

Na pré-adolescência, escrevi diversos volumes de uma saga chamada O Rei Escravo, na qual o filho de uma escrava com um rei adúltero nascia no mesmo dia que o seu filho sangue-azul legítimo, natimorto. Com isso, o bastardo era colocado no lugar do defunto recém-nascido e isso mudava a História do mundo (o porquê exatamente dessa mudança toda eu não lembro hoje em dia, mas que mudava, mudava...). Se tivesse guardado todas essas páginas, hoje seriam dignos de serem comparadas a um mal escrito O Senhor dos Anéis dos trópicos.

Aos 14 anos, concebi um livro a quatro mãos, com meu primo Rodrigo, chamado Até Onde Se Pode Sofrer, que foi o maior melodrama que eu já conheci em todos os tempos, superando qualquer novela mexicana. Em suma: uma adolescente engravida virgem e os suspeitos poderiam ser seu namorado, seu próprio irmão e seu próprio pai. Descobria-se que a coitada havia emprenhado do seu progenitor através de uma toalha mal lavada (???) e, a partir daí, o coroa virava um psicopata. Tentou fazê-la perder o bebê, matou o vizinho que fez chantagem, mandou a filha embuchada para um manicômio, quase enforcou o filho adolescente, sabotou o carro onde a mesma filha viajava com o segundo namorado (o primeiro, suspeito da gravidez, havia morrido de overdose páginas antes), o tal namorado sumia e todo mundo achava que havia morrido (depois o encontravam, “apenas” cego)... Enfim, quando o vilão dava uma trégua e a criança nascia e todos achavam que seriam felizes, o bebê era sequestrado pela pseudo-enfermeira, que na verdade tinha um caso com o pai, e eles fugiam com o recém-nascido para a Suíça. Tudo isso em 45 páginas manuscritas. A busca por justiça da protagonista seria a continuação, que já tinha nome, mas nunca saiu do papel: Até Quando Se Pode Sofrer...

Logo após essa viagem quase lisérgica vieram os contos.

Lembro que, nesse período, houve um exercício no colégio que foi um dos grandes divisores de água para mim na relação com a escrita: a professora havia omitido o final do conto Venha Ver o Pôr-do-Sol, de Lygia Fagundes Telles e pediu para que nós escrevêssemos uma sugestão. Lembro que escrevi um fim bem sombrio, que chocou um pouco a mestra e algumas pessoas da turma... E me fez despertar de vez para o gosto pelas letras.

Foi nessa época que resolvi escrever o meu primeiro romance: Caminho de Retalhos. Outra obra de qualidade duvidosa. Um thriller meio paranormal, que se passava na França e cujo protagonista, Marc, era um ex-jogador de vôlei famoso e comentarista de esportes, que uma noite chegava a sua casa e descobria que a esposa havia sido esquartejada e seus pedaços cuidadosamente colocados em saquinhos de lixo. O crime ia se elucidando com uma boa dose de acontecimentos do além. Escrevi esse livro dos 16 aos 18 anos, de pouquinho em pouquinho. Quando o reli, anos atrás, achei pessimamente mal escrito... Até hoje há apenas seus manuscritos, que nem comigo estão.

E quando você já deve estar se perguntando por que um louco de péssimo gosto e imaginação de deixar Glória Perez no chinelo foi então convidado para contribuir para este site, vou acalmá-los: aos 18 anos, comecei a escrever os contos que deram origem, enfim, a uma obra bem-sucedida! Foi quando surgiu o Dominação, que foi selecionado na Bienal do Livro de 2009 (sim, apenas sete anos depois) para fazer parte da coletânea Contos de Todos Nós, com outros 19 autores, da Hama Editora. E vieram as demais histórias que reuni sob o título Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades (resenha, do editor desse blog, clicando aqui) e publiquei, afinal, em 2012, pela Editora Faces. Eu tinha 28 anos, 10 a mais do que tinha quando escrevi o primeiro conto do livro.

No último dia 17 de junho, lancei meu mais novo livro de contos, como amplamente difundido aqui no Barba Feita: Perversão. Diferentemente do primeiro, que reunia diversas temáticas divididas em três fases (as Desilusões, os Devaneios e as Outras Sentimentalidades do título), dessa vez todos os 12 contos têm o sexo como linha mestra. Minha produção caiu muito desde então. Já comecei diversas histórias – o que inclui um novo livro de contos generalistas, três romances (um deles, cujo prólogo foi lançado aqui no Barba Feita, com o nome provisório de Marchinha Fúnebre), e uma fábula.

Escrever é um exercício, um remédio, uma religião. É um reencontro comigo mesmo. Foi o principal motivo pelo qual escolhi a minha tão castigada profissão de jornalista. E também porque estou aqui às quartas-feiras. Parabéns a todos os abnegados escritores que, como eu, enfrentam a página em branco com frequência!

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Querido Paulo Henrique, você está no lugar certo. Este blog não tem nada de singelo, pois o talento do pessoal que escreve aqui é brilhante. E pude constatar que você tem todo o perfil para se encaixar no Barba Feita, para a alegria de todos nós, leitores e admiradores deste espaço de instrução e prazer literário.