quinta-feira, 14 de julho de 2016

O Dia Em Que Conheci Adore Delano





Já falei algumas vezes por aqui do meu carinho pelo mundo Drag. De como meu olhar, antes de pré-conceito, se transformou quando conheci RuPaul's Drag Race. Uma das coisas mais bacanas do programa é que vamos desenvolvendo, ao longo dos episódios, um carinho por algumas Queens. Poderia listar vários nomes de cada temporada exibida até o momento, mas esse texto é sobre uma em especial: Adore Delano.

Na sexta temporada, exibida em 2014 e disponível na Netflix do Brasil, Adore chegou de um jeito meio despojado demais. Falando gírias, palavrões e com um carisma bem singular. Acho que foi assistindo ao primeiro episódio que nasceu todo o carinho que passei a sentir por ela durante toda a competição. Delano era uma drag que não sabia costurar e que no primeiro desafio grudou o seu vestido, feito com cola quente, no manequim. Ao mesmo tempo que isso GRITA "amadorismo", com a personalidade dela, acaba meio que combinando e sendo até um charme. Sério!

Mas não podemos esquecer que realities shows são, acima de tudo, programas de tevê e alguns participantes "são feitos" para estabelecer uma ligação com o público que está assistindo. Por muito tempo tive medo que Adore Delano fosse mais uma personagem criada pelo programa do que alguém real. Que tivesse mesmo aquele tipo de comportamento em seu cotidiano e fosse toda cool e descolada.

Pois bem, Drag Race estourou no Brasil e muitas participantes começaram a vir pra cá. E me prometi que a primeira que iria encontrar seria senhorita Adore. Mas o medo de me decepcionar acabou me fazendo "deixar escapar" essa primeira oportunidade. Não fui ao show. Não fui ao seu encontro. Não nos conhecemos. Acreditem, Isso ficou por muito tempo martelando em minha cabeça. Afinal, Season 06 é uma das temporadas que mais assisto, quando não tenho nada para fazer (ou seja, todo dia), pela Netflix. Então, como pude deixar de conhecer alguém que queria tanto? Como "fugi" disso? Sinceramente? Nem mesmo sei essas respostas.

Só que esse ano ela voltou. Melhor, voltaria. Quando foi anunciado, mais ou menos em maio, que em julho de 2016 Adore Delano voltaria ao Rio de Janeiro, e com sua nova turnê, apresentando as músicas de seu novo álbum, After Party, percebi que era minha nova chance. Conheceria, finalmente, uma das minhas drags favoritas de RuPaul's Drag Race. Ou, como costumo dizer: meu "animal" espiritual. Temos uma ligação fortíssima, somos de libra!

O início para o meet and greet estava programado para às 23h. Ou seja, 22h45 eu já estava na fila. E assumo que esperava algo menor. Algumas poucas pessoas e pronto. Mas estava completamente enganado. Existia uma fila gigantesca para o breve encontro, que teria duração de cerca de 30 segundos. Na noite anterior fiquei vendo alguns vídeos desse rápido momento e imaginando como iria reagir, o que falaria para ela e o que ela poderia me responder de volta. De repente, não tinha mais 30 anos, mas voltava aos 15 e estava indo conhecer meu grande ídolo. O que, dada suas proporções de idade e vida, não era muito bem o caso. Mas o sentimento era totalmente esse.

Antes, deixe falar uma coisa para vocês: mais do que ir ao encontro de Adore ou de um drag "estrangeira", foi muito bacana ver o quanto está nascendo de novas drags ou o quanto essa quebra de tabus com relação ao gênero está ajudando diversas pessoas. Fazia tempo que não saia e via tanta gente assumindo quem é. Seja com maquiagem, roupa, salto alto, peruca. Não importa o que cada ser tinha colocado para agregar em seu visual. Todxs ali estavam completxs.

Só que existia uma fila que era enorme no início e que ia diminuindo... indo... indo. Quando vi, estava ali, prestes a ter meus míseros 30 segundos ao lado de Adore e não sabia direito o que dizer ou fazer. Mas tudo ficou mais "claro" quando caminhei porta adentro. Sim, ela realmente é alta e com o salto que usava ficava mais ainda. Quando fui ao seu encontro ela me olhou nos olhos e perguntou se as orelhas de gatinha que estava usando estavam boas ou bagunçada em sua cabeça. Prontamente disse que estava bacana e que ela estava linda. Ela sorriu e aproveitei para dizer que ela é "freaking hot", o que prontamente ouvi como resposta um "I know, right?!". Em seguida não poderia deixar de dizer que também era de libra. Ela me olhou, sorriu mais ainda e disse "We are fucking cool". Ela me abraçou, agradeceu por ter ido até ali, aproveitei para dar um beijo em seu rosto e assim percebi que algumas pessoas acabam sendo realmente verdadeiras e não podem ser fabricadas, nem mesmo por um programa de tevê.

O show que se seguiu foi ótimo. Adore dominou o palco, perguntou se sua plateia estava se divertindo (isso mais de uma vez), cantou basicamente o repertório de seu novo álbum e ainda soltou algumas pérolas em português, que incluíram a palavra miga. O que basicamente fez todo mundo ir ao delírio. 

Enquanto cantava ou até fazia uma de suas graças, meu pensamento voltou lá no primeiro episódio do programa. Adam Lambert foi um dos jurados convidados e ele, após analisar o look trágico de Adore, aquele mesmo que estava colado no manequim, disse algo que foi possível entender muito melhor ao vivo: "I think she's got that IT thing that not all these other girls have."

E, definitivamente, Adore Delano tem algo único e que nem todas têm.

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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Um comentário:

Jéssica Albuquerque disse...

Esse é um dos textos mais lindinhos que já li! Devo dizer que compartilho do seu sentimento, no sábado também tive a oportunidade de conhecê-la e fiquei completamente encantada com seu jeitinho e com certeza passei a admira-lá mais ainda, pensei que não fosso possível mas aconteceu. É ótimo saber que alguém que a gente aprendeu a amar por meio de um programa é uma pessoa real!