domingo, 31 de julho de 2016

O Estranho Caso Daquela Vila do Outro Lado do Rio Que Corta a Floresta





Hoje me contaram um história. Não sei se verdadeira, mas já havia ouvido alguns pedaços de outras fontes. Não sou bom de me recordar assim de coisas tão esparsas e dispersas.

Dizem que havia uma vila próxima a uma grande floresta. Curioso como sempre há uma vila próxima a uma floresta. Talvez a floresta seja grande. Dificilmente seria a mesma vila. Pouco importa; nesse caso, o mais importante é a estranha situação que acometia a vila. Ou algumas das pessoas que a habitavam.

Dizem que não havia sinais visíveis externos, mas que algumas das casas dessa vila sofriam de um grande mal. Uma leve descoloração das telhas na parte interior das casas. Mas só em alguns cômodos. Em geral, habitado por uma pessoa específica. Algumas vezes, até por mais pessoas em uma mesma casa. Alguns diziam que a causa era um fungo. Outros poucos, que as casas haviam sido construídas assim. Ainda outros, pouco ou nada diziam.

Mas, em verdade, mesmo assim, as pessoas acometidas de tal sorte escondiam tal estranha condição. 'Antinatural', diziam alguns. 'Pouca vergonha', diziam outros. 'O que vou dizer aos meus amigos?', perguntavam-se os pais receosos de si e não preocupados com o devidamente importante. 'Tentem mudar!', ouviam os filhos repetidas vezes após descobertos. Palavras chulas e falsas acusações ouviam nas ruas aqueles dos quais a verdade era descoberta. 'É mister defender nossas famílias!', reverberavam os mais exaltados. Escondiam-se, conotativa e denotativamente, os afetados. 'Pintem-lhes tal vergonhosa desonra!', clamavam aos políticos os que se intitulavam donos da verdade. 'Pintá-las-emos!', ouvia-se nos discursos. 'Destruir-lhes-emos com nossa fúria divina!', bradavam os aforristas demomanipuladores sob a máscara da pretensa religião. 'Por que tanto ódio?', não eram ouvidos os perseguidos.

Nem todos eram solitários apesar do que pode parecer. Alguns - não se sabe como - se reconheciam. Talvez por algum código subliminar. As reuniões eram em grupos pequenos, restritos, ocultos. Muitas vezes sob forte temor e medo de serem descobertos - por isso, esparsas. Não havia uma pauta, só o desejo de poderem expressar-se sem amarras, sem meias verdades ou escondimentos.

Ouviam-se histórias terríveis quase todos os dias. Muitos saíam da vila e se espalhavam, na tentativa de fingir que não seriam descobertos, ou que as marcas não continuariam ao seu redor.

Ali, na cidade grande, podia-se ver quase sempre à mesma hora, quase todos os dias, duas almas perdidas com intenções similares: sumir mesmo que estivessem à vista de todos. Tinham conseguido até ali. Talvez pelo acaso do encontro tenham falhado - ao menos um para o outro. Vejam, sumir não é uma tarefa fácil. Pode envolver amarrar as pontas de uma corda em uma pedra pesada e a outra no pescoço e dar um passo pequeno, mas grande, à frente. Ou, então, se retirar em vida dos momentos que compartilha-se com outras, indesejadas, pessoas à sua volta.

Não se reconheceram pelo nome ou aparência, apesar de virem da mesma vila - o que ainda não sabiam -, mas pelas intenções que lhes eram familiares. Do olhar discreto trocado, compartilharam o sentimento mútuo. Reconheceram a criatividade disfarçada dos sentimentos que ficavam oblíquos a maior parte do tempo.

Deram-se as mãos. Trocaram o nome. Trocaram palavras. Livraram-se de sentimentos. Os encontros se tornaram frequentes, cafés e cervejas e restaurantes. Confidências, confianças, segurança. Relembraram o tempo na vila e chegaram à conclusão óbvia, mesmo que tardia: a vila era uma vila. Olharam à volta, não porque estavam fugindo um do outro, mas porque em muito tempo era a primeira vez que percebiam o mundo ao redor de suas cabeças, que não mais giravam sem controle. Relembraram o tempo na vila e chegaram à conclusão óbvia, mesmo que tardia: ao redor, vários iguais a eles podiam ser percebidos. E se entreolharam e compartilharam com um sorriso - sem mais relembrarem do tempo na vila - que representava a conclusão óbvia, mesmo que tardia: se não estavam mais na vila, por que agir como se estivessem?

Deram-se as mãos. Tocaram um ao outro. Trocaram de vida. Trocaram sentimentos. Esqueceram da pedra, da corda e das telhas. Deram-se o direito de rir e sorrir. Tocaram a vida.

A vila era passado. Óbvio.

Estranha era a situação que acometia a vila. Na verdade, não das pessoas que faziam parte dessa minoria, mas das demais que a habitavam. Não me contaram mais detalhes, caro leitor; eu vos peço desculpas. Apesar de minha avançada idade, ainda não pude ouvir todas as partes dessa história. Talvez podeis contar-ma melhor. Talvez podeis completá-la.

Ou mudá-la.

Leandro Faria  
Seu Gui do Armazém é o alter-ego de Gleison Santos. Ou talvez seja o contrário. Quem poderá saber?
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