segunda-feira, 4 de julho de 2016

Os Elevadores - Um Crônica do Cotidiano





Eis uma triste verdade da vida: você precisa de elevadores. A menos que você viva em uma cidade minúscula e de prédios baixos (um beijo para a minha Smallville natal), os elevadores estão aí, prontos para fazerem você subir e descer, te levando de baixo a alto, e vice versa, pelos prédios da cidade.

Eu, por exemplo, uso elevadores regularmente, seja para cruzar os oito andares que separam o meu apartamento do térreo do meu prédio, ou os vinte e cinco entre o hall de entrada e a gerência em que estou lotado no trabalho. E nesse sobe e desce cotidiano, eu fico ali, observando a fauna humana, algumas vezes entretido, outras, irritado em como as pessoas podem ser tão estúpidas. E elas quase sempre são.

No meu prédio, por exemplo. São oito andares, mais as coberturas. E dois elevadores que vivem com a plaquinha de "Em Manutenção". É um prédio antigo, com elevadores velhos que, apesar das tentativas da síndica, nunca foram efetivamente modernizados. Normal, entendo as dificuldades de se lidar com recursos e, principalmente, de se modernizar algo que foi construído décadas atrás, em uma época em que os elevadores eram bem mais limitados do que são hoje. E, exatamente por serem antigos, os elevadores deveriam ser tratados como tal, com as pessoas obedecendo coisas simples, como os limites de capacidade informados nos avisos dentro de cada um deles, correto? Quatro pessoas em um,  seis em outro. Mas o que os meus vizinhos acéfalos adoráveis fazem? Ignoram o aviso. E o que eu faço quando alguém ignora o aviso? Bato boca, é claro.

É um saco ver os elevadores constantemente em estado de manutenção porque os imbecis dos seus vizinhos não obedecem a uma orientação básica de segurança como o limite de peso de cada um deles. E é irritante você estar dentro de um elevador (que foi feito para suportar o peso de quatro pessoas) junto com outros três cidadãos, vê-lo parar no quinto andar e outras duas pessoas tentarem entrar naquele espaço desconfortável, ignorando a placa que informa o máximo permitido. E assim você precisa ser o chato:

- Cabem apenas 4 pessoas nesse elevador por vez.
- Quem disse?
- Esse aviso, em tamanho considerável, que está dentro dele há, pelo menos, cinco anos, que é o tempo que eu moro aqui.
- Ah, mas se a gente der um jeitinho, cabe todo mundo, né?
- Cabe, assim como também pode morrer todo mundo se essa porra cair, porque alguém finge não saber ler pra ignorar um aviso óbvio.

Pronto, está instaurado o climão dentro do espaço apertado, com as outras três pessoas concordando contigo, mas em silêncio, incapazes de se pronunciar. E o que fazem as outras duas pessoas sem noção? Entram no elevador que já contava com quatro pessoas, apesar da minha gentileza matinal e da vontade de mandá-los se fuder ferrar e do desejo inconfessável de torturá-los até a morte lenta e dolorosa.

Isso sem contar aquelas pessoas que acham que, por estarem no mesmo ambiente que você, que não está ali por gostar de subir e descer 25 andares no prédio do trabalho, podem se intrometer em sua conversa com um amigo, por exemplo, o que acontece com uma frequência irritante em meu cotidiano. Porque, desculpem, eu não interrompo um assunto unicamente porque precisei entrar no elevador. Mas, normalmente, estou imerso em um PA-PO entre duas pessoas, não em uma CON-VER-SA aberta para a opinião de um terceiro não convocado. E o que acontece quando alguém não convidado se intromete em seus assuntos no elevador do seu local de trabalho? Você sorri amarelo, enquanto pensa: 

- Caralho, quem te convidou a dar sua opinião, criatura?

Com vergonha alheia de gente inconveniente, trabalhamos. 

E assim vamos subindo e descendo, usando os elevadores. Porque se a Ana Carolina cantou que vai de escadas para elevar a dor (adoro esse trocadilho), infelizmente não posso usar desse recurso para subir 9 ou 25 lances de escada, porque já sou um tiozinho de quase 35 anos. 

Mas, como nem sempre é aconselhável usar de minha ironia e sarcasmo com os desconhecidos, vamos fingindo civilidade com os insuportáveis bárbaros do nosso cotidiano, que fingem educação, mas que apenas contribuem para esse país estar do jeito que está: no fundo do fosso. Do elevador.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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