sexta-feira, 29 de julho de 2016

Os Seres Invisíveis (Que Estão ao Nosso Redor)





Na semana passada eu estava caminhando pelo centro do Rio e fui surpreendido pelo som de pessoas cantando, ao longe.  A  música, acompanhada de uma animada batucada, era o inesquecível samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis de 1989, Ratos e urubus, larguem minha fantasia.  Pra quem não sabe ou não se recorda, foi aquele desfile que tinha a emblemática alegoria do Cristo em farrapos cuja execução pública fora vetado pela Arquidiocese do Rio e o carnavalesco Joaosinho Trinta teve a iluminada sacada de cobrir com um plástico preto e colocar a frase "mesmo proibido, olhai por nós", que gerou um estrondoso impacto e se tornou um ícone da folia. 

Naquele ano, incrivelmente, a escola da Baixada Fluminense não ganhou o campeonato, perdendo para a Imperatriz Leopoldinense (que veio com o clássico - e maravilhoso - Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós) no critério de desempate.  Como curiosidade, a perda dos preciosos décimos se deu por causa do samba, que o jurado João Máximo não entendeu e ainda achou ofensivo o refrão com os termos afros "legbara ô, ô ô, ô, ô ebo legbará" (que era uma exaltação aos Exus, entidades espirituais das ruas). 

E qual foi minha surpresa ao me deparar, nas escadarias do imponente Theatro Municipal, um coral formado por 60 moradores das ruas do Rio, que naquele momento eram as estrelas, entoando esse clássico!  (...) "Reluziu... é ouro ou lata / Formou a grande confusão / Qual areia na farofa / É o luxo e a pobreza / No meu mundo de ilusão."

Fui procurar saber do que se tratava e descobri que eram integrantes de um projeto, chamado "Uma só voz", um programa de intercâmbio e capacitação internacional de arte para a população de rua, surgido com os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, pela ONG britânica Streetwise Opera, como forma de valorizar os talentos das camadas mais pobres da cidade. Naquele momento, fiquei imaginando como essas pessoas se tornam invisíveis aos nossos olhos e como necessitam muito mais do que as necessidades básicas: elas precisam de dignidade.


Aquele desfile da Beija-Flor voltou à minha cabeça.  "Xepa de lá pra cá xepei / Sou na vida um mendigo / da folia eu sou rei".  A escola, que tradicionalmente invadia a Sapucaí com o seu luxo impecável, trouxe uma comissão de frente formada por pessoas maltrapilhas e sujas, e alas e mais alas de mendigos, numa ousadia nunca antes vista na avenida.  No fim, tinha a figura do carnavalesco Joaosinho e a diretoria da escola, com roupas de garis, tomando um banho redentor de água de mangueira e os sem-teto mergulhando nos chafarizes da cidade.

Me deu um nó na garganta presenciar, mesmo que do lado de fora do Municipal, aquelas pessoas acostumadas a catar migalhas, viver sob o fino papelão, com seus cobertores acinzentados, aguardando a piedade dos transeuntes, sacudindo seus copinhos com moedas, numa antítese entre o limítrofe espaço e a total liberdade do nebuloso horizonte.  Naquele momento, sufocado pela angústia, chorei. 
Após o silêncio dos batuques e vozes, aplausos e mais aplausos.  "Bravo, bravíssimo!", diria Joaosinho sendo referenciado pelos Exus.  Ao fim, lentamente, enquanto as lágrimas ainda cismavam em correr, o cenário formado pelos moradores de rua começou a desbotar e eles retornaram à sua amarga realidade.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Márcia Marino disse...

Bravo, brevíssimo!!!!