sábado, 9 de julho de 2016

Presença de Erick





Era uma amizade bonita a que existia entre Erick e Fabinho. Conheceram-se aos seis anos, ambos tinham a mesma idade. E juntamente com a amizade dos filhos, os pais também estreitavam seus laços. Orlando e Elaine, Felipe e Gilda tornaram-se grandes amigos por conta da aproximação dos filhos.

Gilda fazia o tipo dondoca, sempre cercada de luxos. Detestava cozinhar, mal sabia fritar um ovo e nunca estava satisfeita com as cozinheiras que empregava. Elaine, por sua vez, era cozinheira de mão cheia. De origem mais simples, ajudava no orçamento da casa, cozinhando pra fora. Fazia comida congelada, “quentinhas”, bolos, salgados e tinha uma clientela fiel. 

Ao provar os quitutes de Elaine, Gilda tornou-se quase que cliente exclusiva. Fazia grandes encomendas e, de vez em quando, contratava Elaine como cozinheira particular. Dessa relação comercial floresceu a amizade quando o melancólico e rebelde filho de Gilda, Fabinho, um menino que nasceu com uma tetraplegia, conheceu Erick, o tímido e sagaz filho de Elaine.

Gilda tinha lá suas futilidades, mas morria por aquele filho. Muitas vezes, superprotegendo-o além da conta, quase colocava-o numa redoma de vidro. Sentia que o filho era triste e irritadiço por não ter amigos. Poucas crianças sabiam como lidar com um amiguinho paralítico. E, para não ver o filho magoado por alguém que não soubesse lidar com ele, enchia-o de brinquedos e mimos, a ponto de sufocá-lo. No fundo, Gilda também não tinha maturidade para tratar o filho com a naturalidade que ele precisava ser tratado. Felipe, o pai, era mais bem sucedido ao lidar com as limitações físicas do filho. Mas Fabinho precisava de amigos, viver cercado exclusivamente pela superproteção dos pais não era nada bom para o seu desenvolvimento. Então surgiu Erick. 

Doce e tranquilo, disfarçou bem o estranhamento inicial em conhecer Fabinho. Erick era sagaz, observador, tinha pensamentos talvez um pouco maduros para sua idade e, justamente por isso, também era uma criança solitária. Apesar de diferente, não seria difícil ser amigo de Fabinho e passar longas tardes em sua companhia, afinal, ele tinha uma casa de novela, linda e enorme, com piscina e todos os brinquedos do mundo. A mãe, Gilda, era meio chata, mas o pai, Felipe, parecia ator de televisão, magro, alto, bonito e querido. Muito diferente de seu pai, Orlando, baixinho, gordo, feio e, às vezes, rude. Felipe nem parecia pai.

Com a amizade de Erick, Fabinho se tornou uma criança melhor, menos reclamona e chorona, e mais independente e alegre. Com isso, Elaine acabou tornando-se confidente de Gilda, e Orlando o companheiro fiel de Felipe em partidas de futebol na TV regada a muita cerveja. Foi um ano de intensa convivência, até uma proposta de trabalho fazer Orlando mudar-se com a família de BH pra Curitiba.

Todos ficaram consternados com o afastamento, mas não perderam contato. Cartas e telefonemas eram constantes. Até por telefone Gilda confidenciava-se com Elaine. Seu casamento com Felipe andava de mal a pior. Uma vez, Erick ouviu a mãe consolar a amiga do outro lado da linha, não tinha entendido bem do que se tratava e mais tarde naquele mesmo dia, prestando disfarçadamente a atenção numa conversa entre seus pais, entendeu que Gilda tinha sido traída por Felipe, que arranjara uma amante. Sentiu raiva de Felipe, tinha apenas nove anos agora, mas odiava homens que traíam suas esposas, mesmo que elas fossem umas chatas como Gilda. Pensou em Fabinho e se revoltou mais ainda. Como estaria seu amigo em meio a toda essa crise entre seus pais?

Aparentemente, Felipe e Gilda superaram a crise e um ano depois da traição, Gilda ficou grávida. Tudo parecia ficar bem de novo. Elaine e Orlando, com saudade dos amigos, começaram a planejar uma visita a eles em BH. A viagem só foi possível três anos depois. Aproveitaram às vésperas do aniversário de 13 anos de Fabinho e voaram de Curitiba pra BH.

O reencontro foi uma alegria só. Conheceram a pequena Carol, que já estava com quase três anos, e admiraram-se como Fabinho havia crescido e tornado-se um bonito rapaz. Erick reparou em como o tempo havia feito bem a Felipe, algumas rugas e fios grisalhos lhe conferiam um charme extra. Ainda não havia esquecido que ele era um adúltero. Tudo parecia estar bem agora, mas não conseguia mais enxergar o pai do amigo com a nobre pureza de seus seis anos.

Aquela família, que antes lhe parecia tão perfeita, agora não passava de uma farsa diante de seus olhos. Felipe, o marido adúltero. Gilda, a esposa fútil e histérica. Até a pequena Carolina parecia encomendada para segurar aquele casamento falido. O único inocente na história era Fabinho, alheio a toda sujeira daquela família. Felipe e Gilda foram os melhores anfitriões, mas um incômodo permanente deixava Erick desconfortável.

No dia do aniversário de Fabinho, a festa estava linda e animada, mas todos partiram pro clube antes de Erick, que ficou no banho, e seria pego por Felipe assim que ele deixasse todos no local da festa. Erick amarrava os tênis quando Felipe chegou. Em seguida o telefone tocou e Felipe foi atender no quarto. Estranhando tal atitude, Erick não resistiu e pegou a extensão da sala. Ouviu claramente um diálogo entre dois amantes, Felipe e uma tal Milena. Ficou trêmulo e branco como papel de seda, o incômodo que sentia fazia sentido absoluto. Esperou o término da conversa, colocou o telefone no gancho e foi até o quarto. Felipe assustou-se, mas disfarçou.

- Está pronto? Podemos ir?
- Quem era no telefone? 

Havia um ar de ironia, raiva, dissimulação e desejo no timbre, no jeito e no olhar de Erick.

- Como? – Indagou Felipe entre surpreso e incrédulo.
- No telefone, quem era? – Erick mantinha o tom suave, mas ainda dissimulado. Olhava Felipe de um jeito que o aterrava.
- Era a Gilda, dizendo pra gente não demorar. – Felipe mal disfarçava o desconforto da pergunta.
- Você mente, Felipe. O nome dela é Milena. Você conversava com a sua amante. Eu ouvi na extensão.

O rosto de Felipe estava em chamas. Ele fez um esforço imenso pra não gaguejar, pois sua voz parecia falhar.

- O que você ouviu?
- Tudo!
- Isso é assunto de adulto, Erick. Você não deve se meter. E ouvir na extensão é muito feio. Eu não vou contar pros seus pais que você fez isso, e a conversa que você ouviu é melhor esquecer. Você é muito novo pra entender. Tudo bem?
- Eu entendo de muito mais coisas que você imagina, Felipe. Senta aí! – Erick fez Felipe sentar na cama e começou a massagear seus ombros.
- O que você tá fazendo? – murmurou Felipe.
- Relaxa, vamos conversar.
- Conversar o que, Erick? Tá todo mundo nos esperando, temos que ir pra festa. Eu já disse que não vou contar pros seus pais que você fez uma coisa errada como escutar a conversa alheia na extensão. E você não vai comentar com ninguém o que ouviu, não é?
- Errado é trair a esposa. O que você acha que aconteceria se eu contasse pro Fabinho, por exemplo? Ele ia ter a maior decepção da vida dele, você não acha? Imagina se eu chegasse na festa agora e falasse pra todo mundo. Ia ser um escândalo de novela. Eu adoro novela, você sabia?

Erick passou o dedo em uma gota de suor que escorria da têmpora direita de Felipe.

- Não fica nervoso. Se você me der o que eu quero, eu prometo que não conto nada pra ninguém.
- O que você quer? – perguntou Felipe, ainda trêmulo.
- Eu sempre te achei tão lindo, charmoso, cheiroso...

Enquanto falava, Erick deslizava suas mãos até o zíper da calça jeans de Felipe.

- O que é isso? O que você tá fazendo, Erick? Para com isso! – Felipe suplicava, mas não conseguia mover um músculo. Era como se Erick estivesse com um punhal apontado pra sua jugular.

Meteu a mão dentro da cueca de Felipe e pegou seu membro mole. Acariciou-o com toda a paciência. Cheirou os pelos pubianos. Lambeu. Aos poucos o pênis esboçava reação. O membro endurecia nas mãos de Erick até latejar. Quando pulsava, abocanhou-o com vontade. Erick sugava o pênis rijo como pedra do pai de seu amigo, em lentos e suaves movimentos de cima para baixo, como a explorar com cuidado e imensa curiosidade algo totalmente novo e delicioso há muito tempo desejado. Mas o membro duro, grosso e de tom róseo preenchia a boca pequena de Erick só até a metade. 

Num misto de prazer e desespero ao ser coagido e molestado por um garoto de 13 anos, com sua boca quente, macia e virginal, sentindo a intensidade do prazer aumentar, Felipe se viu forçando a entrada de seu pênis na boca de Erick até a base, ao pegar a cabeça do menino e aumentar os movimentos lentos do sexo oral para algo mais intenso e frenético. Segundos antes do gozo farto e denso, Felipe sentiu sua glande tocar as amigdalas de Erick e ouviu o garoto quase sufocar, então soltou a cabeça dele e deixou-se cair na cama aos prantos, enquanto o menino com a boca cheia da ejaculação do pai de Fabinho e os olhos lacrimejantes pelo quase sufocamento, corria para o banheiro tentando recuperar o fôlego.

Felipe sentia-se um lixo, sua cabeça girava com os pensamentos embaraçados que o atordoavam. Foi vítima de uma chantagem sexual de um menino de 13 anos, havia sido abusado, sua família, sua reputação e sua vida poderiam ser arruinadas pra sempre e ainda assim tinha sentido prazer com tudo aquilo. 

Voltou à realidade quando a voz perversa de Erick o fez sair de seu torpor.

- Você ainda tá nessa cama? Anda logo senão vamos chegar super atrasados na festa! Tô te esperando no carro. 

Felipe mal podia acreditar na frieza e no cinismo do adolescente que conheceu tão inocente e doce aos seis anos.

Erick já o esperava no carro com o cinto de segurança devidamente preso, quando Felipe ocupou o volante sem dizer uma palavra. No trecho, não muito distante até o clube, Erick começou sua sessão de tortura psicológica enquanto Felipe dirigia.

- Você quase me matou naquele quarto. Era isso que você queria, me sufocar enquanto me forçava a chupar o seu pênis enorme? Além de me obrigar a fazer sexo oral em você, também queria me matar?
- O quê? Obrigar? Do que você tá falando, moleque?

Ignorando as palavras de Felipe, Erick continuou.

- O que você fez é crime. Você sabe, né? Eu tenho 13 anos. Você, 39. Pedofilia. Isso é pedofilia. Você é pedófilo, Felipe?

As palavras saíam da boca de Erick carregadas de dissimulação, veneno e crueldade.

- Imagina se fizessem com seu filho o que você fez comigo? Ou com a Carolzinha? Já pensou, que horror, tão bebê ainda. O que você acharia pior, que alguém enfiasse o pênis na boca dela, que ainda não tem nem três anos ou no Fabinho que não move nenhum músculo do pescoço pra baixo? 

A cabeça de Felipe estava a ponto de explodir, mal podia acreditar em tamanha maldade, qualquer coisa que dissesse seria usada contra ele. Tinha ódio ao ouvir Erick usar seus filhos num exemplo tão sórdido, poderia matá-lo naquele momento, mas não tinha forças para nenhuma reação, só sentia culpa. Se não tivesse uma amante, aquilo não estaria acontecendo, e se não fosse tão covarde, a ponto de ceder à chantagem de um moleque perverso, as coisas não teriam chegado àquele ponto. Pensava tudo isso enquanto ainda ouvia Erick destilando suas palavras.

- O que eu faço agora, Felipe? Conto pros meus pais? Conto pra Gilda? Ou pro Fabinho? Você sabe que não adianta negar, né? Qualquer pessoa vai acreditar em mim, afinal eu sou só uma criança.

A última coisa que Felipe ouviu foi o grito desesperado de Erick.

- CUIDADO!

Ele perdeu o controle do carro e bateu com violência em um poste. Quando os paramédicos chegaram, constataram a morte instantânea de Felipe, mas Erick estava com o cinto de segurança e sofreu somente alguns arranhões. Ele chorava muito. Estava traumatizado pelo choque, acreditaram os profissionais do resgate. Mas ao ser levado para longe do local do acidente, sob os cuidados dos paramédicos, Erick olhou à distância o carro estraçalhado e entre lágrimas, disfarçou um sorriso de perfídia.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Aconteceu disse...

Muito bom......Parabéns....