segunda-feira, 11 de julho de 2016

Reflexões de Travesseiro





"Pillow talk, my enemy, my ally
Prisoners, then we're free, it's a thriller..."

Deitado naquela cama, relaxado no pós-sexo e inspirado pela companhia do outro, ele pensava na vida. Aqueles momentos de tesão o fizeram viajar e esquecer os problemas e as preocupações por alguns momentos. E ali, ouvindo o outro falar sobre aleatoriedades, ele pensava na própria vida.

Aos 27 anos, ele se lembrou de sua primeira história com alguém do mesmo sexo. Ainda adolescente, aquele envolvimento com um homem doze anos mais velho havia sido sua primeira paixão; a primeira e a mais complicada. Aos 17 anos, o relacionamento com um homem mais velho e casado aconteceu aos poucos e da forma mais complicada possível. Ele conhecia a esposa, ele frequentava a casa, ele era o amigo mais novo daquele homem que se dizia seu mentor. E todas aquelas mentiras acabaram moldando quem ele se tornou.

Anos depois ele a conheceu. Apesar do tesão maior em homens, ele funcionava bem com as mulheres. Era bonito, elas ficavam facilmente atraídas por ele; ele também tinha tesão nelas e, pronto, não precisava pensar no "problema". Ela era de fora da cidade, recém chegada à casa de familiares. O que eles não contavam, entretanto, foi com aquela gravidez não programada e todo o drama familiar e pessoal que se seguiu.

Foram morar juntos e assim nasceu a sua família. Seu filho, hoje um menino de 4 anos, era sua maior paixão, mas o relacionamento com a mulher era uma grande farsa. Ela era ciumenta, controladora, insegura. E ele procurava outras camas, outros homens, para se sentir realizado. 

Isso quando não acabava se envolvendo em histórias de autoafirmação de sua heterossexualidade, que nem mesmo entendia o porque. O caso com a funcionária que o diga. O casamento passava por mais uma fase ruim, ela era bonita, apesar de comprometida e, quando se deram conta, o relacionamento não era mais apenas profissional. E pra essa nova situação foi mais um drama em sua vida.

Ainda devaneava quando sentiu os carinhos do outro em seus cabelos, a língua áspera em seu ouvido e teve uma nova ereção. Olhou nos olhos dele e sorriu mais uma vez, porque naquele momento, estar ali fazia todo o sentido e ele queria aproveitar cada segundo ao lado do outro, o seu corpo precisava do dele novamente, da força, do cheiro, do gosto. Ele estava entregue e se sentia completo. E gozou mais uma vez de forma intensa e libertária.

Ao pegar o celular, viu a hora e se deu conta de que teria novos problemas. O aparelho mostrava no visor 27 chamadas não atendidas da mulher, além de inúmeras mensagens perguntando onde ele estava, o que fazia, se ele era irresponsável a ponto de esquecer o cinema com a família. 

Começou a se vestir apressado, quando foi despertado dos próprios pensamentos pela voz do outro, que lhe fazia uma pergunta:

- Você é feliz?

Ele não sabia responder. Ele tinha motivos para ser feliz, mas não se sentia completo, realizado. Era uma versão desfocada de si mesmo.

- Talvez. Um pouco.
- Mas você sabe que merece ser mais, né? E sabe o que deve fazer para melhorar essa sua situação.

Ele sabia. Tudo dependia de decidir-se entre a comodidade e uma vida "segura" ou de se permitir. 

Mas o que ele escolheria para si mesmo? Ele ainda não sabia.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Texto saboroso. Essa é a situação muitos homens casados por aí.