quarta-feira, 20 de julho de 2016

Revoada





Lauro olhou o relógio de pulso. Rangeu os dentes como que ruminando aquela hora decifrada nos ponteiros. Agradavam-lhe os ponteiros em vez das versões digitais.

- O que lhe falta, meu caro? - perguntou firme e soturno o outro homem.

Respondeu, com a voz vacilante da garganta seca, sentado à escura cadeira em estilo rococó:

- Tempo.
- Como assim, tempo? - tragou o cigarro o outro.
- Está tudo certo, parece que tudo está no lugar. Mas sinto como se estivesse perdido. Como se eu não conseguisse ser mais eu. Como se não tivesse mais tempo para ser eu mesmo.

O outro homem deu-lhe as costas e projetou-se para fora da grande varanda, que saía no belo gramado verde. A careca reluzia aos raios oblíquos do dia ensolarado. Puxou profundamente a fumaça do cigarro, iluminando igneamente a ponta:

- Você é dono do seu tempo. Como ele lhe falta? - indagou, projetando a voz com ainda mais firmeza.

Parcas gotas de suor escorriam pelas entradas do cabelo ruivo de Lauro. A nervosa sudorese lhe ameaçava o engomado penteado. Olhou para seus sapatos e viu que a fivela do esquerdo havia caído, enquanto o direito ainda a ostentava.

- Hein?! - tentou novamente o interlocutor.

Lauro fez um muxoxo. A mandíbula pulsava involuntariamente por baixo da barba e das sardas.

- O tempo não me pertence. Isso é uma mentira.
- E pertence a quem? Ao relógio que está no seu pulso? - voltou-se para ele novamente.

Permanecia meio que baqueado, mal reparando no estardalhaço de algumas aves circulando de uma árvore para a outra, inebriadas pela brisa.

- Ou pertence a Deus? - prosseguiu o outro - Afinal, o ditado diz que o Futuro a Deus pertence.
- Eu não acredito em Deus.

O calvo homem rumou para ele em passos bem calmos, sorvendo mais um pouco da fumaça. Deu um riso cínico antes de ficar de cócoras diante de Lauro:

- E eu não acredito que você não acredita em Deus.
- Às vezes eu penso em acabar com tudo isso... - disse, como que remoesse cada palavra.
- Acabar com tudo como? Se matar?
- Não! - assustou-se - Falo de largar tudo, virar as costas e sumir! Me enfiar no meio do nada, sei lá...

O homem desferiu mais um sorriso cáustico. Buscou algo na cintura, sob o paletó surrado. Voltou com a mão segurando um revólver:

- Você tem certeza?
- Ahn? - estranhou Lauro.
- Tem certeza de que é isso o que você diz sobre "acabar com tudo"?

Mirou fixamente a arma. Sentiu-se atraído por ela de uma forma ímpar. Desviou o olhar como quem resiste a um doce em meio a uma dieta:

- Absoluta.

Guardou o revólver de volta no coldre. Com a outra mão levou o interminável fumígero à boca. Virou-se de costas mais uma vez.

- Então pegue as rédeas da sua vida, meu caro. Ou não vai precisar de bala alguma atravessar a sua cabeça para abreviá-la.

Lauro levantou-se pela primeira vez da cadeira. Respirou fundo, desconfortável, e colocou a mão sobre o ombro direito do outro:

- E o que você sugere que eu faça, pai?

Abrindo a boca cheia de fumaça, o outro respondeu:

- Pai? Eu não sou seu pai. Eu sou a sua consciência. E sua consciência anda tão torta que fuma e atira contra a própria cabeça.

Sacou a arma e a colocou na pelada têmpora. Apertou o gatilho, estourando sangue e miolos para todo o lado.

Pego de inteira surpresa, Lauro deu um salto para trás. Não o suficiente para não sujar o sobretudo. Percebeu os pássaros revoarem novamente, dessa vez com o estampido.

Olhou para frente e o homem havia sumido. Assim como sumiu toda a sanguinolenta sujeira. 

Encontrou apenas o cigarro aceso caído no assoalho. O mesmo que emprestava o cheiro aos seus dedos da mão direita.

Ao longe, os pássaros se debandaram mais uma vez, sombreando momentaneamente o verdejante gramado.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

cleber eldridge disse...

É o sempre querer mais tempo, mas amplitude para fazer mais e mais coisas ... quando na verdade, se formos analisar, o que nos sobre é TEMPO!

http://almostamericans.blogspot.com.br/