segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A Internet, os Blogs e a Minha Vida no Mundo Virtual





Dia desses, entediado e circulando por esse mundão chamado internet, perdido nos caminhos infindáveis do ciberespaço, acabei voltando ao passado. Não, não mandei nenhuma carta para um programa de auditório de gosto duvidoso; apenas caí, com um link, em um blog pessoal que mantive durante anos, onde comecei a escrever em 2002. Sim, você leu certo. Dois.Mil.E.Dois. E é engraçado como lendo hoje, com a perspectiva dos anos e da experiência, eu ache que era um idiota naquela época.

Em 2002 eu era bobinho. Tinha começado a trabalhar e a ver a cor de um dinheiro só meu; estava na faculdade. Mas era bem "inocente", bem, mas bem mesmo. Eu começava a vislumbrar o mundo com o olhar que tenho hoje, mas precisava aguçar a experiência, experimentar o mundo como fiz nos anos subsequentes. Ou seja, não havia nada de errado com o Leandro daquela época, já que ele era apenas o projeto do que eu viria a ser. E ali, na internet e com a febre dos blogs, eu achei um espaço para escrever, ser lido e fazer amigos. Aquilo foi maravilhoso.

E sei que foi ali que eu comecei a exercitar a minha escrita. Preciso ser sincero: eu gosto de escrever e, sem falsa modéstia, eu acho que escrevo bem. Sempre me elogiaram na época do colégio, dizendo que minhas redações eram boas (ganhei até prêmios). No ENEM que fiz, no já distante ano de 1999, eu tirei uma uma nota bem boa, mas tipo, excelente mesmo. E no vestibular para a faculdade, logo depois, a minha nota foi uma das melhores da UFRRJ naquele ano. Mas eu escrevia aleatoriamente, sem obrigatoriedade, sem disciplina. 

Disciplina, essa é a palavra. Eu nunca me disciplinei a escrever além do obrigatório. Nunca fiz da escrita um prazer. Eu lia (e leio) muito, mas escrever mesmo, era uma coisa não tão habitual. O que mudou quando criei, lá naquele ano de 2002, o Depois dos Vinte, um blog bobinho, de um jovem bobinho. 

Sabe aquele blog tipo diário, em que você escreve sobre a sua vida, seus planos, o que fez e o que deixou de fazer? O Depois dos Vinte era bem assim. Eu tinha um diário virtual, aberto para quem quisesse ler. E com o hábito de ler mil blogs, que se proliferavam na época, e comentar neles, sempre dando minha opinião importantíssima sobre a vida dos outros, pelo menos a partilhada em posts diversos, acabei atraindo leitores e fazendo amigos. Sim, amigos. Fiz muitos amigos virtuais através desse blog que durou uns bons anos e que, apesar de bobinho e superficial, me fez conhecer muita gente legal.

Mas havia um problema. No Depois dos Vinte eu não era eu. Ali eu era o cara moldado pela religião, pelos meus pais, pela minha criação. O Leco que escrevia ali pensava antes de postar algo, analisando que alguém poderia ler e que isso poderia me render algum tipo de "problema". Eu não podia falar de mim, do meu verdadeiro eu, das histórias que eu começava a viver, queria compartilhar, mas que, por medo e vergonha (ainda bem que a gente "cresce") eu não podia escrever ou falar publicamente. E por isso eu larguei esse canal pra lá, de lado, nessa internet que, mesmo esquecida por nós, nunca apaga nada.

Entretanto, eu sou verborrágico. E eu havia encontrado uma nova forma de me comunicar e de conhecer pessoas que me agradava muito. E eu estava vivendo coisas que até pouco tempo antes seriam impensáveis para mim. Foi nesse contexto que comecei a ler blogs de outros meninos gays, de conhecer histórias que eram tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão parecidas com as minhas. Eu passava horas lendo e entrando na vida dessas pessoas, querendo saber mais, conhecê-las. E eu queria participar disso, dividir o que se passava comigo. Foi assim que nasceu o Confissões a Esmo.

Vejam bem: era 2008 e eu já não morava com meus pais, era independente, a faculdade terminara, havia mudado de cidade e, finalmente, tinha um lar só meu. Eu já não vivia em hipocrisia, não sufocava meus desejos. Mas eu ainda tinha medo de mostrar a cara. Então criei uma persona, o Autor. Meus textos (que, de verdade, já eram bem melhores nessa época) passaram a ser assinados pelo Autor, que era muito mais o Leco que eu me tornava que qualquer outra coisa que eu assinasse com meu nome. E foi maravilhoso tudo que vive durante o tempo que mantive o Confissões a Esmo e, posteriormente, o Fragmentos do Autor.

Nesses blogs eu passei a exercitar outro tipo de escrita. Criei contos e crônicas além de falar da minha vida. Passei pelos três relacionamentos com homens que tive até hoje, me desnudando em cada texto e mostrando como eu me sentia, dividindo impressões e sentimentos e, claro, fazendo amigos. Eu era lido, gente, muito lido. E se você escreve na internet e diz que não se importa com isso, você é um tremendo hipócrita. Porque se realmente não ligasse para views, você teria um diário com cadeado ou um arquivo de Word criptografado em seu computador ao invés de estar escrevendo no mundo online.

Todos esses blogs ainda estão por aí, já que eu nunca tive coragem de ir até eles e deletá-los (sendo bem sincero, de alguns eu nem me lembro a senha mais). E lendo seus históricos, vou me divertindo e comparando minha vida atual com a que eu tinha até então. Percebi que, quando estava solteiro, pegando o mundo e sem envolvimento afetivo com ninguém, meus textos eram divertidos, engraçadinhos, com dezenas de comentários. Quando estava apaixonado, a inspiração rareava, eu passava meses sem postar e, quando o fazia, era para colocar textos chatos em que eu apenas informava que estava bem, curtindo a vida e aquela paixão. Até que, depois que conheci o namorido, eu simplesmente deixei o Fragmentos do Autor pra lá. Fui e nunca mais voltei, nunca mais falei da minha vida como fizera até então.

Tudo bem, eu criei o Pop de Botequim e depois o Barba Feita, mas as propostas eram diferentes. Até mesmo aqui, onde acabo falando tanto de mim, poucas vezes fiz o espaço de diário, como eu blogava antes. Pois é, como eu disse, a gente cresce.

O que fica disso tudo, dessas experiências, é que ser nostálgico é bom e, a melhor parte, é que eu pude registrar, com maior ou menor intensidade, tudo que vivi até aqui. Posso reler impressões passadas, ver que mudei de opinião, rir das minhas crises e, feliz, constatar que a minha essência, mais apurada e menos hipócrita, continua aqui. O Leco que começou a escrever na internet lá no Depois dos Vinte, foi parte fundamental para que hoje eu seja o Leandro Faria, colunista das segundas-feiras aqui no Barba Feita.

Eu tenho a minha própria história na internet. E, de verdade, eu tenho orgulho dela.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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