quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A Verdadeira Face do Século XXI





Lembro-me muito bem quando, naquela manhã de 2001, um dos meus professores de História invadiu a sala de aula afirmando que havia acontecido um atentado terrorista de proporções nunca antes vistas e que, finalmente, o século XXI havia começado. Ironicamente, era bem a hora da aula de inglês e aniversário da nossa teacher. Todos ainda estavam bem atordoados e não sabiam o que se passava. No meu último ano antes do vestibular, vivenciávamos algo que entraria para os livros e seria estudado pelas próximas gerações.

Como meu professor bem lembrou, toda virada de era acaba tendo o seu principal marco, que dita a sua tônica. Infelizmente, ele estava correto em sua previsão: desde aquele dia 11 de setembro, nunca mais vivemos tempos como antes. Atentados terroristas volta e meia feriam a humanidade, como um herpes que adormece e eclode em momentos de menor imunidade; mas não eram essa peste bubônica que vivemos agora. Há 15 anos vivemos tempos de medo, que recrudesceram com a erupção do Estado Islâmico. E agora, às vésperas das Olimpíadas no Rio de Janeiro, cidade na qual moro e trabalho, o fantasma nos ronda como uma preocupação, pela primeira vez,real.

Nunca achei que precisaríamos nos preocupar com um atentado terrorista no Brasil. De certa forma, pensava como a grande maioria dos brasileiros: que estávamos imunes a isso, como somos a vulcões, maremotos, terremotos e furacões (se bem que esses dois últimos andaram nos rondando, em menor magnitude, mas andaram). Meu engano é que, diferentemente de passar por uma providência divina ou uma construção geológica, atentados são frutos da mais instável das instituições já conhecidas, que algoritmo nenhum conseguiu desvendar plenamente ainda: a mente humana.

O que faz alguém comprar um ideal raivoso que não é seu, que não edifica nada e que ainda passa pela subjugação da vida de outra pessoa? Pra mim, é muito difícil compreender isso. Matar, por si só, já é condenável. Matar inocentes, então... Muitos alegam que vivemos, já, no Rio, dias de terror, com assaltos, latrocínios, execuções ou mesmo mortes em vão. Não deixa de ser uma verdade... Mas mal ou bem, nos adaptamos (infelizmente) à essa triste realidade e ajustamos o nosso “drive” àquilo que se tornou nossa cidade. Um atentado pode acontecer em qualquer momento, em qualquer lugar. O que aterroriza é não ter qualquer segurança garantida. Não existir sequer algo que o coloque em uma situação de risco, como em um assalto, por exemplo. E a sensação de que nossa falta de experiência com o assunto não nos garantiu uma inteligência mínima necessária para evitar, de fato, atos como esses. Ou alguém duvida que, em 2001, os EUA não acreditavam que poderiam ser alvos de um atentado dessa proporção? A real preparação só veio após o incidente, lamentavelmente...

Pior é que tenho os meus questionamentos se esse excesso de notícias sobre o Estado Islâmico ajuda a combatê-lo ou só alimenta a sua ideologia. Muitos dos kamikazes que atuam de forma fundamentalista em nome do Islã são conquistados apenas por ideologia. É uma guerra onde não existem QGs, pois não se precisa de um quartel para se treinar... Muitos até foram ao Oriente Médio receber seu treinamento, em especial na Síria. Mas aqueles que se identificam e acreditam nas ideias do El podem agir de forma isolada. E disso, ninguém está blindado: como diz o ditado, cada cabeça uma sentença.


Torço pelos Jogos Olímpicos do Rio. Mesmo com todas as críticas, nunca fui contrário. E torço, mais ainda, para que sejam de paz – não só por mim e pelos mais próximos, mas por todos, moradores e turistas. Como torço em todas as grandes confraternizações da humanidade. Como torço todos os dias por tempos mais pacíficos.

Se me lembro dos dias em que as torres ruíram, também me recordo que, quando pequenino, tinha medo de um míssil da Guerra do Golfo desviar e explodir na minha janela. Pedia, nas minhas preces diárias antes de dormir, pela Paz Mundial. Quando cresci, abandonei esse pedido das minhas orações, calejado pelo aprendizado de que seria uma utopia pensar que teríamos um dia sequer no planeta inteiramente pacífico.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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