quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Exorcizando o Fantasma do HIV





Na semana que se passou, um amigo querido pediu para ir até a minha casa para conversar. Precisava desabafar uma série de coisas que vinham lhe ocorrendo, principalmente em relação ao seu casamento. E, em um dado momento da conversa, ele respirou fundo e disse que tinha algo importante para contar para mim. Diante da minha indagação ele prosseguiu:

- Há alguns anos eu descobri que contraí HIV. Isso explica muitas coisas da minha vida.

Realmente, ele elencou uma série de pequenas ocorrências que faziam sentido após a revelação. Mas o que mais me chamou a atenção foi o tom de confissão dele e, embora não admitisse, certa agonia em dizer aquilo. Agonia que se tornou alívio quando eu lhe disse que era para ele ficar tranquilo e se sentir acolhido por mim e pelo Cristiano, meu companheiro.

Infelizmente, talvez ele estivesse preparado para uma reação negativa. Um afastamento, um sorriso amarelo seguido de alguma desculpa de outro compromisso ou mesmo uma cara atônita como a que se tinha para os leprosos de outrora. 

Não sou soropositivo, até o meu último teste ao menos, mas tenho alguns amigos que são. Alguns deles sequer sabem que eu sei que são. E respeito a decisão deles de não me contarem, embora a informação já tenha chegado em forma de fofoca. Recentemente vi um livro lançado pela minha editora chamado O Segundo Armário, que fala justamente sobre isso: os gays que convivem com o HIV e decidem tratar do assunto acabam tendo que passar por um novo processo de sair do armário. Imagino que não seja nem um pouco fácil assumir isso publicamente, pois há todo um julgamento de uma sociedade de achar que a pessoa foi uma inconsequente, uma incauta e, principalmente, acabou sendo vítima da mitológica “promiscuidade gay”.

HIV é um tema recorrente aqui no Barba Feita. Temos a coluna do meu amigo João Geraldo Netto, Conversa + (que, aliás, anda meio sumido daqui do blog – ó o puxão de orelha aí) e o nosso idealizador e autor das segundas-feiras, Leandro Faria, já tratou do assunto pela sua ótica, admitindo, inclusive, pré-conceitos que ele buscou identificar.

Através, principalmente, do João Geraldo, busquei muitas informações sobre o tema. Coincidentemente ou não, na mesma época em que soube da condição sorológica positiva de alguns dos meus amigos e conhecidos.

Como falei para esse meu amigo que conversou na última semana, o HIV não é mais cercado do obscurantismo de décadas atrás. Agora há informação. O tratamento que ele já faz é eficaz e hoje em dia só morre de Aids ou mesmo desenvolve a doença quem não se cuida ou prefere viver na escuridão da desinformação. É muito mais um risco ter sexo com quem não sabe que tem o vírus do que com quem tem o vírus e se trata. As pesquisas mais recentes apontam para índices de transmissão de praticamente zero para quem utiliza medicamentos antirretrovirais.

Aos amigos que ainda vivem no medo de saírem também desse armário: ninguém irá arrancá-los de lá de dentro. Mas saibam que muitas das vezes há pessoas informadas e que querem o seu bem, que poderão ajudá-los a viver com essa condição de forma mais serena e com mais qualidade de vida.

Obrigado aos meus amigos que me ensinaram que, embora o HIV não tenha cara e não tenha cura, como bem lembra a propaganda, o preconceito tem: informação e amor.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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2 comentários:

Homem, Homossexual e Pai disse...

Belo texto ! o HIV, como tantas outras doenças, é cercado de tabus, mas eu acho que o fato de ser "incuravel" e "sexualmente transmissivel" pesam ainda mais na aceitação e acabam acarretando que tantas pessoas fiquem no armario! eu, como vc, tenho muitos amigos soropositivos que não falam sobre isso... mas eu entendo perfeitamente!

Nilton Reis disse...

Muito bom Paulo! Eu, graças a Deus, me livrei desse preconceito depois de conhecer pessoas maravilhosas que convivem com o HIV. E assim, percebi que um vírus não poderia apagar o brilho de um ser humano! Parabéns pelo texto!