segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Games, Vícios, Pokémons e Tecnologia





Não sei você, caro leitor, mas eu nasci no início dos anos 80, em uma cidade do interior do Rio de Janeiro, onde o tempo parecia não passar e os dias se arrastavam em uma calma sem fim. Fui uma criança típica das cidades do interior: brincava na rua, explorava matas, tomava banho de cachoeiras, comia frutas colhidas no pé. E era bem legal, digo sem nostalgia, apenas lembrando que cresci saudável e feliz, apesar de alguns quereres que fui incorporando à minha personalidade e estilo de vida com o passar do tempo.

E, numa época em que a televisão era o máximo de tecnologia que nos rodeava, o meu sonho de consumo era um aparelho de vídeo game. Eu adorava aqueles joguinhos tecnológicos e lembro o quanto implorei a meu pai por um Atari e quão sofrido foi nunca ter ganhado um. Meu vizinho de frente, entretanto, havia ganhado um de Nata-Aniversário-Whatever, e passávamos horas jogando na frente da televisão, ouvindo os barulhinhos que irritavam a mãe e a irmã dele e para o qual não dávamos bola. 

Mais velho, no meio da adolescência, me viciei nos jogos de fliperama. Juntava todas as moedinhas possíveis e ficava horas dentro do fliperama do centro da cidade jogando Street Fighter, Mortal Kombat, Final Fight e o meu preferido, Capitão Comando. Aquele mundo de escolher um personagem para comandar e ir passando de fase era divertidíssimo e, mesmo depois que ganhei de presente do meu pai um Nintendo (aquele antiiiiigo, antecessor do Super Nintendo), a graça era ir para o fliperama e jogar rodeado de outras pessoas, que torciam (contra e a favor) enquanto você lutava contra a máquina.


Mas o tempo passou e eu fui perdendo o interesse por esse mundo de jogos tecnológicos. Vi amigos que, mesmo adultos, mantiveram o hábito e continuaram (e continuam) jogando e adquirindo consoles e games diversos, entrando no mundo dos jogos virtuais pela internet ou em aparelhos de última geração, mas para mim a graça havia acabado. E, mesmo quando um ou outro game me chamava a atenção, ela durava bem pouco, não sobrando nada do vício que tanto me encantava quando menino.

Até mesmo os jogos de celular, verdadeiros passatempos para quando você não tem nada para fazer ou apenas quer postergar obrigações, dificilmente me conquistam. Sei lá, o desafio não me prende e eu perco o interesse muito rapidamente, principalmente se travo em alguma fase. Com todo mundo jogando Candy Crush, por exemplo, fui ver qual era a da obsessão de geral pelos docinhos viciantes. Joguei, joguei e empaquei em uma fase qualquer (acho que no nível 40 e poucos), onde chocolates malditos se multiplicavam de maneira absurda, não me deixando continuar com o desafio proposto pelo jogo; perdi o interesse. Namorado começou a jogar Plants Vs Zombies como se não houvesse amanhã (e joga até hoje, igual ainda joga Candy Crush) e eu larguei pra lá depois que consegui "virar" o jogo e ver o baile dançante de zumbis e plantinhas felizes depois que o objetivo final (da primeira versão) do app é alcançado. 


E então Pokémon Go foi lançado no Brasil. Eu confesso: estava curioso. Vi a febre mundial que tomou conta dos lugares onde o jogo foi lançado primeiro, a loucura dos americanos e turistas em Nova York atrás de um Vaporeon no Central Park e pensei: "Que porra é essa? Eu preciso jogar!". Assim, naquela quinta-feira em que o jogo ficou disponível no Brasil, na véspera da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, eu instalei o app no meu celular e comecei a entender o fenômeno. Porque sim, Pokémon Go é viciante. 

Quando Pokémon, o desenho animado, fez sucesso no Brasil, eu era adolescente e estava no Ensino Médio. Lembro que o desenho passava no programa Eliana & Alegria, da Record, e muitas vezes eu assistia aos episódios. Ou seja, eu conheço a história de Ash, Pikachu, Misty e Brock, mas pelo narrado no anime e não nos games. Antes de baixar Pokémon Go no meu celular eu nunca havia jogado nenhum game com os personagens. Então, pra mim, o jogo atual é tudo o que sei sobre o universo pokémon no mundo dos games. 

Nos primeiros dias foi um verdadeiro vício. Eu saí pra caçar pokémons pelo Aterro do Flamengo e pelo Boulevard Olímpico. Vibrava a cada novo monstrinho capturado e, quando aprendi as regras do jogo, que incluem evoluí-los, enviar os repetidos para o Professor e deixar os pokémons mais fortes defendendo e treinando em ginásios, já estava me sentindo o próprio Ash Ketchum. 

Mas, como não poderia deixar de ser, aos pouquinhos estou enjoando do app. Já no nível 21, eu já não ando com o celular à mão, pronto para capturar o maior número de pokémons possível. E nem quero tanto chegar às 200 pokécoins necessárias para eu adquirir um bag upgrade e conseguir carregar mais pokébolas e outros itens (mas já tenho 110 pokécoins, só por deixar meus pokémons treinando em ginásios, rá!) por aí sem gastar dinheiro real no jogo de realidade aumentada. O meu objetivo inicial, que era ter em meu Pokédex cada um dos pokémons disponíveis como coleção, já não é mais um objetivo real e, confesso, depois que capturei um pikachu, eu estou com uma leve sensação de dever cumprido no jogo. 

E apenas para deixar claro, eu não sou nenhum tipo de desocupado. Eu trabalho, eu me divirto, eu tenho vida afetiva (bem mais interessante que a de muita gente que perde tempo julgando a diversão alheia, diga-se de passagem), eu tenho mil planos e ocupações. Mas arrumo tempo para ler, para assistir séries e filmes e, nas últimas duas semanas, para jogar Pokémon Go. Amo as redes sociais, mas tenho uma certa preguiça de muitos dos caga-regras que parecem habitar por lá, como donos da verdade e baluartes das regras sociais e virtuais. Desculpaê, queridinhos que se interessam tanto com o que os outros fazem, mas por que não vão procurar algo de útil para a própria sua vida, que essa sim deve estar bastante chata, não?

O que acho fascinante, no fim das contas, é como o ser humano é capaz de inventar novas formas de se divertir e ocupar o próprio tempo. Como disse no início, sou de uma geração bem diferente da atual, em que a tecnologia não fazia parte do nosso cotidiano. Mas o trem do tempo não espera por ninguém e hoje, mergulhado em novidades e virtualidades, todos nós, de gerações tão distintas, podemos nos divertir com um aplicativo de realidade aumentada, ao mesmo tempo em que ainda é possível passar tempo fazendo nada na cidade do interior onde nasci que, apesar de também ter um ginásio pokémon (um só, segundo um amigo que ainda mora por lá), ainda é a mesma do tempo em que eu morava lá, com cachoeiras diversas, fazendas mil e muita possibilidade de ócio e de preguiça.

Jogando Pokémon Go Candy Crush, ou nostálgico com os clássicos do Atari, como Pac-Man e Pong, o que é realmente necessário é que tenhamos em mente que o que importa é quem somos na vida real e como tratamos aos outros seres humanos que nos rodeiam (e os animais e o planeta e o universo). 

E termino esse texto contando algo óbvio e que muita gente parece não se dar conta: lazer é só... lazer. Ontem, hoje e, tenho certeza, amanhã também.

Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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