domingo, 14 de agosto de 2016

Louco Amor





E de tudo ao meu amor eu serei eterno. E com tal zelo eu serei vil e ardiloso para mantê-lo sob meu domínio e desprezo. E com um contentamento de fazê-lo descontente, serei fiel ao meu intento. E a cada alegria sua cuidarei para que se sinta mal, subjugado, sempre sub, sempre julgado, nunca você, sempre eu. 

E de tudo ao seu amor eu serei omisso. E de tão omisso, meu amor sentir-se-á fadigado. E a fadiga causará ainda mais dúvida e a dúvida mais paixão. E paixão arderá como Camões não previu. E não serão ninfas que a esperarão no caminho de volta à casa. Sim, terá uma casa, a qual eu saberei onde é, a qual manterei sob vigilância, à qual estará confinada - e não será metaforicamente. E da omissão construirá a teia que a prenderá sob meus domínios. E a omissão alimentará seus temores de perder-me sem ao menos ter-me. 

E de tudo ao meu amor eu serei amargo. E o fel que preencherá suas lágrimas será meu alimento para manter o meu amor alheio ao mundo, no meu mundo e preso ao seu não-mundo. 

E eu comerei todas. E eu comerei a todos. E serei mestre dos meus domínios. E você será de minha propriedade, mesmo sem sabê-lo. E o meu contentamento será a sua antítese disso. E nunca terá nada do que eu não quero e nada do que quiser. Tudo será por mim e para mim. E o nada será sua única certeza vazia. E o vazio a preencherá por completo até eu parar de querer, o que será nunca. 

E você não comerá ninguém. E você não será comida por ninguém. E o desejo a corroerá gerando a ânsia da luxúria incontrolável. E o consolo que não terá será sua meta almejada e inatingível. E a luxúria se transformará em gula, porque a ira lhe será impossível - garantirei eu. E a gula será implacável - fomentarei eu. 

E, assim, o fim estará próximo. 

E de tão vil, me sentirei bem. E de tão omisso, me sentirei carinhoso. E de tão amargo, me sentirei doce. E de tão presente, me sentirei onipresente. E de tão eterno, você parecerá fugaz. E de tão dependente, de você sentirei asco. E de tão doente, serei onipotente. E de tão avaro de sentimentos, me sentirei onisciente. E de tão eu, você deixará de ser. E quando isso finalmente acontecer, não eu chorarei em seu túmulo. Rirei sobre seu corpo inerte e imóvel a dor que sua traição há tanto tempo me fez. 

E, então, talvez não seja tarde para que eu volte a ser eu. E será adeus. E serei deus. 

*Texto Originalmente Escrito em 18 de setembro de 2012
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