sábado, 6 de agosto de 2016

Para Quando Agosto Chegar...





Ouço e leio comentários negativos sobre você. As pessoas se queixam que é longo demais, que é aquele do "cachorro louco", o do desgosto, e que esse ano em especial, você será pior que os anteriores, pois estamos numa "guerra política" por aqui e, diante desse cenário desolador, ainda estamos tendo Olimpíadas, que começou ontem, aliás, num País precário e atolado em corrupção. Por tudo isso, dizem, e mais pelo fato de ser simplesmente você, com sua malfadada fama, esse ano será terrível atravessá-lo.

Mas na contramão de tantos que o detestam, você tem todo o meu carinho. E como não amá-lo, se foi durante uma de suas passagens que eu nasci? Em meio a outros onze de você, foi em você que vim ao mundo. Por isso, digam o que disserem, inevitavelmente você é especial pra mim. É em você que renasço a cada ano. Que renovo a fé e a esperança em mim mesmo. Que entendo com maior exatidão a dádiva de estar vivo. É quando você chega que refaço planos, promessas e reafirmo sonhos, acreditando profundamente que tudo será realizado, ainda que tudo fique apenas no campo das hipóteses e dos desejos quando você se vai, eu acredito piamente em tudo enquanto estou em você.

Ano passado você iniciou uma fase difícil em minha vida, foi duro suportá-lo, mesmo assim não deixei de celebrá-lo, e foi maravilhoso. Acho na verdade que você é um injustiçado, as pessoas te pegaram pra Cristo e adoram rotulá-lo como fazem com tudo na vida. É verdade que tragédias históricas aconteceram enquanto você transcorria. Tivemos a morte precoce da Princesa Diana em um acidente de automóvel, da mesma maneira que o Brasil perdeu seu presidente, Juscelino Kubitschek, e o suicídio de outro grande presidente, Getúlio Vargas. Fatos tristes e muito marcantes, coincidentemente ocorridos em você, para os supersticiosos, um prato cheio para demonizá-lo. Mas talvez, essas mesmas pessoas se esquecem ou não saibam da quantidade de gente incrível, que assim como eu, chegou ao mundo junto com você.

Só para citar alguns: Caetano Veloso, Elvis Presley, Martha Medeiros, Antonio Banderas (meu crush eterno), Madonna e Michael Jackson. O que dizer de um mês que nos deu de uma só vez Michael e Madonna (sem falar de Elvis)? O que dizer de você, Agosto, que comparado com seus irmãos é diferente até no nome? Janeiro e fevereiro rimam. Março, abril e maio são pequenininhos, no máximo 5 letras. Junho e julho são quase gêmeos. Setembro, outubro, novembro e dezembro também rimam, são imponentes e tem a agradável fama de serem os meses finais. Mas você é agosto, fica ali naquela zona, muitas vezes incômoda, entre algo que já durou muito mas ainda demora pra terminar. Você destoa e se destaca, seja pelo bem ou pelo mal, como gosta de insistir a maioria. Mas tudo não passa de superstição e má vontade. Você é lindo, e esse texto é em sua homenagem. Mas para aqueles que continuam com o pé atrás com você e não conseguem desfazer a má impressão, podemos dar algumas dicas de como atravessá-lo sem sentir-se tão angustiados. Dicas retiradas de um texto de Caio Fernando Abreu, um supersticioso de carteirinha, porém hábil e fascinante escritor, que usava as palavras como poucos:
"Para atravessar agosto, ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu — sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques — tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não deem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas — coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos explícitos." 
Mas, independente de qualquer coisa, aos que amam ou odeiam e ainda parafraseando Caio: Que seja doce!

Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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