sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Queremos o Canecão de Volta!





Desde a semana passada, o pessoal do #OcupaMinC passou a ocupar as dependências do Canecão, no Rio de Janeiro. Pra quem ainda não sabe, o movimento #OcupaMinC começou logo após a votação do impeachment de Dilma no Congresso Nacional. Desde então, artistas e formadores de opinião em todo o Brasil vem ocupando algumas dependências do Ministério da Cultura. Na semana passada, os ativistas foram expulsos violentamente pela Polícia Federal do Palácio Gustavo Capanema, sede do MinC, que agora está cercado por tapumes. O objetivo do movimento é chamar a atenção da volta da realidade democrática e garantir a manutenção dos projetos educacionais, que estão descendo ralo abaixo.

O Canecão é um espaço que pertence a Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi uma das mais famosas casas de espetáculos da cidade, que durante muitos anos foi explorada por diversos grupos que não repassavam os valores devidos à universidade. Em 2008, o espaço foi fechado e, desde então, está abandonado. A universidade prometeu transformar o Canecão em um centro cultural, mas, obviamente, com a crise no país, a reitoria não possui um centavo para dar continuidade ao projeto, que está muito longe de sair do papel.

Agora, com a ocupação, a ideia é transformar o local em um polo de denúncias contra o governo federal, que não pode expulsar a galera de lá, pois só o reitor da universidade possui esse poder.

Otto, Bê Negão, Zélia Duncan, Jean Wyllys, Tico Santa Cruz, Gregorio Duvivier, Jards Macalé, Autoramas, Second Come, Edgard Scandurra, Arrigo Barnabé, Walter Salles, Jorge Mautner, Zé Celso Martinez Correa, Silvio Tendler... Fiquei muito feliz em ver a imensa lista de tantos artistas envolvidos com esse projeto. Isso me fez lembrar os áureos tempos da criação dos fanzines em 1990 quando as bandas não tinham a opção de poder divulgar o seu material. Não havia internet, então a melhor forma de “dar a cara pra bater” era com o legado punk “do it yourself”, ou “faça-você-mesmo”. Tô sentindo daqui o cheiro do espírito juvenil. É isso. E chega a emocionar.

Espero que toda essa movimentação realmente consiga chamar a atenção para que o velho Canecão de guerra, palco de shows memoráveis e onde vários nomes da música brasileira se consagraram volte a funcionar.

Lá vivenciei momentos sensacionais, como o mitológico show do Echo and the Bunnymen, em 1987; o caótico, enfumaçado e ensurdecedor set de 45 minutos do Jesus and Mary Chain, em 1990; e o mais louco de todos: Ramones, em 1992. A tríade perfeita de apresentações memoráveis... O Echo nem precisa falar; todos sabem da minha paixão avassaladora pela banda de Liverpool, que só aumentou após aquele show mágico. Só quem esteve lá pode dizer exatamente o que houve. Indescritível. 

Com o Jesus and Mary Chain no auge da carreira e do barulho, quase saí com os ouvidos sangrando e acho que perdi 50% da minha capacidade de escutar depois daquela loucura. O J&MC me influenciou a fazer aquelas microfonias com os pedais da guitarra. Não precisava saber tocar. Duas ou três notas, ar blasé e muito barulho era mais que suficiente. O máximo.


Achei que nunca mais ia me recuperar do choque. Aí vieram o Ramones. Eles eram a banda que todas as tribos gostavam: punks, pós-punks, góticos, headbangers etc. E aí é que morava o problema: os skinheads (carecas) não gostavam do povo do metal (cabeludos). E quando se encontravam, a porrada comia solta. O público estava insano e eu já estava pra lá de sufocado, sendo esmagado nas rodinhas de pogo quando na oitava canção – Rock N Roll High School (que a gente só conseguia saber quando começava outra pelos gritos de one, two, three, four do baixista), um skinhead lançou uma bomba de gás no meio do público, causando a maior correria. Mesmo com aquela confusão toda, os Ramones não pararam a canção e ainda emendaram com I wanna be sedated. Literalmente, eu já estava completamente sedado e os olhos em fogo. A saída de emergência se abriu e corremos para a Venceslau Brás e juro que vi Lobão, Lulu Santos e Renato Russo num canto. O show precisou ser interrompido, mas o quarteto logo retornou com I wanna live e foram mais uns 50 minutos de sonzeira ininterrupta (e você pode conferir o show completo nesse link).

Histórias e mais histórias que aquele local mágico presenciou durante anos a fio...

Nos nomes citados que estarão na ocupação, está a galera do Second Come, uma das bandas mais importantes do cenário underground carioca e que fizeram uma apresentação inesquecível no início da década de 90 por lá. Parece que aquelas paredes, que preservam uma energia singular, vão começar a tremer novamente...

Que volte a magia do Canecão!

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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