sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Subúrbios





Sou um típico suburbano. Nasci no Hospital Geral de Bonsucesso, vivi meus primeiros anos no bairro com mais falta de recursos da Ilha do Governador, brincava com carrinho de rolimã na Vila Cruzeiro dentro da comunidade (que chamávamos de favela), estudei em escolas públicas, frequentava os Parques Shangai para andar nos brinquedos enferrujados e o Ary Barroso, onde ia caçar girinos nos laguinhos verdes e cheios de lodo. Me mudei da Penha para Nilópolis, onde fiquei pouco tempo e depois para Brás de Pina, bairro onde cresci pulando o muro da linha do trem, jogando bola dentro de valão, devorando sacolés e raspadinhas de groselha, roubando mangas do quintal da vizinha umbandista (que chamávamos de macumbeira), caçando rolinhas com atiradeira, conversando com os amigos no portão de casa até de madrugada e bebendo guaraná Tobi em garrafa de cerveja.

Matei várias aulas no Visconde de Cairu pra fazer piquenique no Jardim do Méier e na Quinta da Boa Vista, frequentei o muquifo do Garage, na Rua Ceará, de onde saía surdo ao amanhecer por causa dos decibéis. Era uma época bem antes da Vila Mimosa se mudar para lá com as profissionais do sexo (que chamávamos de piranhas). 

Prefiro os botecos da Vila Isabel do que os do Leblon, e detesto os guetos da praia de Ipanema. Me amarro em festa na laje com piscina de plástico; de levar brigadeiro de festa de criança pra casa dentro de saco de supermercados; de assistir os desfiles na Sapucaí do setor 1; do pastel com caldo de cana das feiras livres; da manga com leite do Chuá preparado pelo Elias; da coxinha do Kuka´s, em Bonsucesso; do cachorro quente prensado de Campo Grande; do antigo Angu do Gomes, sem glamour no prato de alumínio; e do picolé Moleka.

Transito por todos os lados. Odeio guetos. Detesto pensar que pessoas mais carentes só podem andar de trem, ouvir funk e comprar em 24 parcelas numa loja de eletrodomésticos. Curto Mozart e a dança do passinho. Ouço Young The Giant e depois troco para Clara Nunes. 

Acho engraçadíssimo as sacadas de marketing dos ambulantes mas, às vezes, preciso do silêncio; amo o contato e o calor dos ensaios do Salgueiro, mas também amo observar o teto do Theatro Municipal. Adoro o pão na chapa da cantina do Hospital Souza Aguiar e também do café Capital com a xícara de porcelana mergulhada na água quente, de um barzinho do Edifício Central.

Adoro ver as crianças que driblam a vigilância cerrada dos guardas municipais do parque de Madureira e que se divertem à valer nos lagos com chafarizes. Já ajudei um grupo de garotos que tiveram que sair correndo quando foram descobertos pelos guardas, largando meias, chinelos e bonés pelo meio do caminho. Fui atrás deles, após ter recolhido os pequenos objetos e entreguei às crianças quando o grupo estava sendo repreendido pelos "agentes da “lei”. Brinquei com os guardas: “deixa os moleques... eles só estavam se divertindo um pouco...”. Obviamente, os caras se lembraram que faziam a mesma coisa quando tinham a mesma idade deles e logo depois os liberaram.

Tenho saudades do subúrbio... Das tardes amareladas do inverno, da turma da vila, de jogar queimado, de ficar com sede e beber água do Aquaplay, de apertar campainhas e sair correndo, de ouvir o disco do Dicró no último volume só pra perturbar o vizinho, de contar piadas do Costinha só pra sacanear os amigos, de assustar as crianças vestidos de Clóvis (que chamávamos de bate-bola), de passar trote pra avó no dia 1º de abril, de correr atrás de doce de São Cosme e São Damião. 

Isso sim era vida.

(*) essa foto eu cliquei no momento em que uma criança (ou anjo) se refrescava no Parque de Madureira.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Guto Carneiro disse...

Que texto lindo! Que foto maravilhosa!!! Infelizmente este subúrbio carioca da sua infância eu não conheci. Cheguei ao Rio quando a Vila Cruzeiro já não era tão pacífica a Vila Mimosa já havia ocupado a Rua Ceará, mas, ainda assim, apaixonei-me pelo subúrbio carioca contemporâneo da mesma forma! Sobre minha predileção por subúrbio...

http://gutocarneiro.blogspot.com.br/2016/02/vai-ter-suburbano-sim.html