sábado, 13 de agosto de 2016

Uma Vida em 35 Atos







1) Senti o frio da vida pela primeira vez às 15h30 de uma rigorosa tarde de inverno, em 11 de agosto de 1981, no extremo Sul do Brasil. 

2) Segundo minha mãe, a primeira palavra que pronunciei, antes mesmo de “papai” ou “mamãe” foi “André”. Um nome de homem. Quem era ele não vem ao caso, mas seu nome ser a primeira coisa pronunciada pela minha boca, quer dizer algo, né? Ou não? 

3) O primeiro “ato disciplinar” recebido de meu pai aos quatro anos de idade: molho de pimenta malagueta na boca. O motivo: chamá-lo de “besta”. 

4) Uma queda que me fez levar 5 pontos na mão esquerda, também aos quatro anos, e carregar uma sutil cicatriz até hoje. 

5) Às margens do rio São Francisco, no Norte de Minas, lembro-me de minhas primeiras amigas de infância: Mirtes e Cida. 

6) Aos seis anos tive uma forte pneumonia, e quebrei um braço ao tentar pular de uma árvore. 

7) Retornei às minhas origens. Do Norte de Minas, onde vivi desde os três anos, voltei para o Rio Grande do Sul. Estava com sete anos. 

8) Em Porto Alegre, a primeira escola, os primeiros colegas, a primeira professora... Da primeira série, não esqueço da professora Clotilde, que na mesma época também era o nome da personagem de Maitê Proença, na novela O Salvador da Pátria (1989), que também era professora. A primeira amiguinha do colégio, também lembro com carinho, uma menina loirinha, muito bonitinha, chamada Joyce. 

9) A professora Clotilde, a Joyce e a escola em Porto Alegre, passaram muito rápido em minha vida, fiz apenas o primeiro semestre. No seguinte, mudei de cidade. Um lugarejo chamado Imbé, litoral norte do RS. Nova professora, Antônia. Novos colegas, uma em especial, Keila. Lembranças ainda mais doces. Foi quando aprendi a ler e escrever de fato, ironicamente, por uma ameaça da professora. Diante de minha dificuldade em juntar as letras, formar e entender as palavras, mas sabendo do meu potencial, Antônia foi categórica: “Se amanhã você não chegar aqui com o alfabeto na ponta da língua, eu arranco a sua orelha.” Nunca uma ameaça surtiu tanto efeito. No dia seguinte eu sabia o beabá de trás pra frente. 

10) No ano seguinte, nova escola, nova cidade, Tramandaí, vizinha à Imbé, bastava atravessar uma ponte, a Ponte da Barra. Segunda série, o início do meu tormento. Muito bullying, muita perseguição, e o começo de um novo mundo dentro de mim, um mundo à parte, onde vivia todas as minhas fantasias. 

11) Era época do boom da lambada, e eu dançava com as meninas, me requebrando todo, em meio ao pátio do colégio, no recreio, sem vergonha, sem medo de ser feliz, aos nove anos de idade. Uma de minhas partners mais constantes era Priscila. 

12) Começava a descobrir uma nova paixão: novelas. Como filho único e um tanto quanto solitário, “escrever novelas” e “interpretá-las” passou a ser minha brincadeira mais constante e preferida. Piscina de Fogo era o título da primeira novela concebida por mim. 

13) Na quarta série, o primeiro amor, por um menino hétero, claro, e a amarga descoberta do quanto é ruim gostar sem ser correspondido. Eu tinha 11 anos, ele 10. Mariel, por onde anda você? 

14) Das amargas lembranças, Andrews, meu primeiro algoz. Melhor amigo de Mariel, e odioso. Gostaria de apagá-lo da memória, mas certas marcas ficam pra sempre. 

15) Aos 12, tantos acontecimentos! Algumas sessões de cinema inesquecíveis: O Rei Leão, A Época da Inocência e Filadélfia. Alguns passeios pra serra: Gramado e Canela. Uma paixão controversa: Renato, amor de primo. 

16) Um defloramento, a “perda da inocência”, uma história que daria um livro, aos 13 (como no filme de 2003). 

17) Próxima parada: Sergipe. Do Rio Grande do Sul diretamente para o Nordeste, onde vivi dois anos. Desses dois, um deles foi dos melhores da minha vida. Ganhei tanta gente maravilhosa de presente: minha prima-irmã Roberta, Alexandre, Diana, Suzana, Daniela, Pablo e, como não poderia deixar de ser, mais um amor não correspondido, Samuel, apaixonado por Roberta, que era adepta daquela canção dos Tribalistas: “Eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”, e olha que a música ainda nem existia. Pense num triângulo amoroso digno de novela das nove, imagine o drama. Eu sofria, mas adorava me sentir um personagem de Explode Coração (1996), a trama das nove da época. 

18) As trilhas sonoras invadiam minha vida, de novela e de cinema, mas principalmente as de novela. Colecionava K-7 (não tinha toca-discos), e me sentia um lobo solitário cultivando aquele hábito que me fazia tão bem, mas que não podia dividir com ninguém, até conhecer Alexandre, o louco das trilhas. Muito mais viciado do que eu, Alexandre chegava a comprar CD, LP e K-7 da mesma trilha, tinha caixas e caixas. Quando visitei sua casa pela primeira vez senti uma pontada de emoção no peito e os olhos quase marejarem. Passávamos tardes inteiras ouvindo nossas trilhas, comendo pipoca e sendo felizes no nosso mundo.

19) Próxima parada: Londrina/PR. Peguei a estrada aos prantos e com o coração sangrando, mas era preciso deixar Aracaju. A tristeza logo deu lugar ao encantamento assim que vi a cidade escura e bela, com suas árvores frondosas, às 5 da manhã. Foi uma visão inesquecível, mas logo a adaptação à nova cidade se mostraria difícil.

20) A sexualidade aflorando cada vez mais forte, junto com o medo e os conflitos internos: religião X desejo. Mulheres marcantes em minha vida: Nadege, Vívian, Kássima, Luzia, Cláudia, Érica, Eliane, Amanda e Fernanda. O primeiro aniversário surpresa e o primeiro comemorado na vida, aos 20 anos. 

21) Uma viagem muito especial a Porto Alegre, anos depois de deixar a cidade, e o reencontro com amigos de infância com quem havia perdido o contato. Um dos momentos mais lindos que tive. 

22) 2001. Último ano escolar. Baladas, flertes e muitas descobertas, tudo o que não fiz na adolescência começava a dar os primeiros passos. Tristeza por terminar um ano maravilhoso, concluir uma etapa importante da vida, deixar pessoas muito queridas e finalmente crescer. Foi quando decidi viver a minha vida e não a dos meus pais. E a minha vida recomeçaria em Porto Alegre, perto dos amigos de infância que recuperei e reaprendi a amar intensamente. 

23) Antes de viver só em Porto Alegre, fui obrigado a fazer um pit stop na famigerada Imbé, novamente. Aquele 2002 foi o pior ano da minha vida. Mas é aquela velha história, para seguir em frente, às vezes, é necessário dar dois passos pra trás. Ainda bem que no meio do caminho encontrei Fernando, um consolo em meio ao caos. 

24) Um curso técnico em Nutrição. Um quarto. A grande metrópole. Inúmeras possibilidades. A liberdade e a independência, afinal. Apesar de todos os perrengues, estava feliz, em luta pelos meus sonhos. 

25) Numa noite inesperada, fui seduzido por um homem rústico. Peão de obra, bonito, sensual e selvagem. Luciano. Ah, as loucuras deliciosas e surpreendentes que a vida trás. Uma única noite e uma lembrança indelével. 

26) As temporadas em hospitais, como estagiário. A companhia divertida de Natália com suas irresistíveis loucuras. A amizade de Maristela e suas histórias sexuais hilárias. O assédio em um ponto de ônibus, numa noite fria, escura e deserta, por um rapaz lindo e meio embriagado, me convidando pra tomar champanhe em seu apartamento. Fiquei tentado a aceitar, Fabiano era mesmo lindo, mas ele estava bêbado e tinha um marido que estava viajando. 

27) A primeira Parada do Orgulho Gay. A humilhação de ter minha coleção de G Magazine descoberta por membros da igreja, que ainda frequentava. A formatura do curso técnico. O amargo retorno à casa dos pais por conta de um emprego na cidadezinha onde eles moravam, atuar na minha área naquele momento era o mais importante, não importava onde. 

28) As noites de verão em Tramandaí. Apesar do péssimo histórico dessa cidade, as noites de verão eram calientes e divertidas. Desejo, malícia e sedução exalavam pelo calçadão, dunas, areias e quiosques à beira-mar. Vivi ali incontáveis momentos de prazer. 

29) A demissão. A volta para Porto Alegre. A entrevista de emprego onde conheci Ricardo, uma paixão fulminante. O trabalho num restaurante uruguaio, que me trouxe pessoas incríveis, além de Ricardo: Milena, Cristina, Alex e Jonathan. 

30) Compartilhar o segredo de Ricardo. Ficar amigo de seu namorado. Sofrer por amor. Ser alvo do ciúme de Rafael, o namorado que era amigo, e se voltou contra mim ao descobrir que eu amava seu companheiro. Ter que me afastar de Ricardo por causa desse ciúme, e trabalhar em frente ao seu prédio. Já não trabalhávamos mais juntos, mas continuávamos muito próximos. Frente a frente.

31) Uma curta temporada em Curitiba, seis meses. A volta pro RS, louco de saudades. 

32) O feliz encontro com Murilo, num ano que prometia ser maravilhoso. Os cafés. As noites de sexta no Ocidente, as de sábado, no Venezianos. As elucubrações sobre a vida. Filmes incríveis: O Signo da Cidade, Um Beijo Roubado, Sex And The City, Do Outro Lado. O som de Norah Jones, Paula Toller, Ana Carolina. As crônicas de Martha Medeiros. Os passeios noturnos pelo parque da Redenção. A cafeteria Media Luna. As colegas Rita e Karen. O divórcio de meus pais. O reencontro com Ricardo dois anos depois. 

33) A amizade de Bianca e Lauren e suas histórias de viagens, que despertou em mim o desejo real de conhecer o mundo, tudo parecendo tão palpável. Nossas noites no Beco. Os causos de amor mal resolvido. O curso de Jornalismo que quase iniciei. A desilusão e o cansaço de tentar a vida em Porto Alegre sem resultados positivos, e a decisão de mudar pra São Paulo, juntamente com a mudança de Bianca e Lauren pra Itália. Sem uma vida satisfatória e sem minhas amigas queridas, nada mais me prendia a Capital gaúcha. 

34) A chegada a São Paulo. O fascínio pela megalópole. O reconhecimento do lugar. Um ótimo emprego. A perda de tudo isso em menos de um ano. O retorno forçado ao litoral Norte do RS, dessa vez Capão da Canoa. Parecia que seria horrível, mas foi muito bom. Novos encontros felizes: Vagner, Luísa, Jennifer, Bruno. A forte amizade com Daniel, que parecia indestrutível. A volta pra São Paulo 15 meses depois. A obstinação e determinação. Os encontros e desencontros. O desejo do Ensino Superior realizado. O medo de fracassar todas as vezes. O fantasma de ter que voltar pra casa mais uma vez. As idas e vindas com Daniel, até o rompimento definitivo da amizade. As novas pessoas que conheci pessoal e virtualmente: Paulo Henrique, Serginho, Glauco, Silvestre, Bárbara, Marcos, Vinícius, Eduardo, Ariadny, Maurício e Leandro, que me trouxe para o Barba Feita. Os amigos que vieram e se foram. E os que permanecem: Karina, Sérgio, Carol e Renato. Renato, minha inspiração de vida. A perda de minha última avó viva. Os laços mais fortalecidos com meu tio Jeovani, talvez por causa dessa perda tão sentida. Mais filmes, músicas, livros, peças e momentos memoráveis. Beijos, sexo, devaneios românticos. E a continuidade da luta por um sonho. 

35) Foram muitas andanças, inúmeras histórias e trinta e cinco anos de vida é coisa pra caramba. A mente está cansada, mas o corpo ainda resiste e o coração grita: CONTINUA! Ainda não estou lá e quando chegar talvez não esteja mais aqui. Mas quando estiver lá, prometo que volto pra contar.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Anônimo disse...

A cronologia de uma vida sintetizada de forma muito bela. É intrigante o fato de a primeira palavra dita pelo autor ser "André". Dá muita vontade de saber os motivos e a origem dessa inusitada forma de iniciar o dom da fala. Era o nome de algum parente, amigo ou - mistério - ninguém faz a menor ideia?