quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Expectativa do Namoro e a Realidade da Relação





Já parou para pensar que nossos relacionamentos acabam sendo resultado de projeções que vamos absorvendo por toda nossa infância e adolescência? Basicamente é um círculo vicioso de inocentes expectativas que vão sendo frustradas com a simples realidade. 

O grande problema é que despejamos no outro todo um universo de desejos intermináveis de felicidade e realização. Você pode pensar que não, mas no fundo no fundo (bem lá no fundo mesmo) quer uma casa do tipo fazenda com cerca branca, cachorros e crianças correndo por todos os lados. Às vezes, no lugar de cachorro são gatos e no lugar de filhos são livros, planos de viagens e mais alguns outros projetos. Mas muito provavelmente, ao iniciar uma relação, você estará alimentando fantasmas internos adormecidos, que de tão bem guardados você nem sabe que existiram em algum momento. Mas é esta mesma assombração que retorna ou desperta, quando menos se espera, para atormentar sua relação.

Normalmente, todo esse excesso que cometemos quando estou gostando de alguém, culpo em particular os filmes da Disney e todas as comédias românticas assistidas na Sessão da Tarde ao longo da minha infância e pré-adolescência. Foi ali, naquele emaranhado de situações absurdas, vividas por inúmeros personagens irreais – mas construídos para gerar uma identificação em você (neste caso em mim) –, que fomos ensinados sobre o que era amar e como se age quando se está em uma relação com alguém. A grande verdade é que ao longo do tempo fomos todos iludidos, em tantos níveis diferentes, que hoje somos mais realistas do que sentimentais. Ou a gente acredita ser.

Sou do grupo, por exemplo, que sabe que o flerte pré-pegação é muito mais divertido do que toda essa burocracia que se segue depois, quando se estabelece algo (tenha isso um nome certo ou não). Na sedução, na expectativa de pegar alguém, beijar esse alguém e até ir pra cama com esse mesmo “serumaninho”, sentimos uma espécie de desafio pessoal alinhada a uma excitação de conquista. Estamos sendo desafiados, assim como estamos sendo um desafio para outro alguém...

Mas, inevitavelmente, o que vem depois é só tragédia. A alegria de receber uma mensagem no WhatsApp e ter longos momentos de conversa despretensiosa, misturada com confidências, com o passar de semanas é transformada em uma “DR” sem fim, sobre desejos opostos de um simples programa no final de semana. O que antes trazia alegria, agora se transforma em uma bufada que se solta junto ao revirar de olhos, quando qualquer mensagem vinda daquela determinada pessoa ilumina a tela do seu celular.

O que acontece é que filmes, séries e livros nos vendem o lado bonito do amor, mas esquecem de nos preparar para todo o resto. Toda chatice. Toda mesmice. Todo o cotidiano que um envolvimento exige. É completamente deixado de lado que estar gostando de alguém não impede de gostar de si mesmo. Não é egoísmo querer passar sua noite de sábado jogado no sofá lendo aquele livro envolvente ou assistindo uma série sozinho. Às vezes, tudo o que a gente precisa é só passar um tempo com a gente.

Só que fomos educados através daquele festival de filmes de comédia romântica, que devemos ser, na maior parte do tempo, um mocinho ou mocinha em potencial. E que devemos esperar do outro “ser” todas as virtudes do mundo. Paciência, carinho, devotada atenção e um amor incondicional. Mas a grande questão que quero levantar é: vocês já pensaram que no lugar de mocinho ou mocinha que espera pelo “ser” amado chegar em seu cavalo branco, nós somos o tão esperado “resgaste”? Que da mesma maneira que nós esperamos uma enxurrada de qualidades e zero defeitos, o mesmo é esperado de cada um de nós?! 

Antes que você decida ficar esperando pelo cara ou a garota dos seus sonhos, acho melhor parar e olhar bem para o espelho. Talvez, só talvez, você seja o seu próprio porto seguro e o que você espera que apareça para você, não vai acontecer. Reconstrua seu par ideal. Reorganize o que você acredita que sabe o que é se relacionar com alguém. Talvez aí descubra muito mais o que deseja de uma relação do que está se permitindo receber. 

Outras vezes, entretanto, nada acontece. Afinal, life is a bitch e ela não te prometeu nada! Foi só você quem criou as próprias expectativas.

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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Um comentário:

Vanessa Reis disse...

Ai, Sil, é isso! É isso em todas as letras! Obrigada por tanto!