sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A Política-Lego e a População Desmemoriada





No dia 16 de março de 2016, eu estava em Brasília.  A cidade estava um caos.  Já passava das duas da manhã e um buzinaço ainda ressoava por toda a cidade.  Neste dia, a capital protestava contra a indicação de Lula para ser ministro da Casa Civil do governo de Dilma Rousseff.  O povo achou que era uma manobra.  E era mesmo.

Era um artifício para evitar o impeachment, garantir foro privilegiado contra as investigações de Sergio Moro, tirar Aloizio Mercadante do Ministério da Educação, recomeçar uma articulação política para manter o projeto de poder do Partido dos Trabalhadores e, principalmente, ter uma queda de braço direta com Eduardo Cunha.

Sempre achei que política era como montar um castelo de Lego.  De peça em peça, construímos um império.  Temos que ter as peças corretas, senão, o troço fica torto.  Infelizmente, a população não tem muita paciência para brincar de Lego; então, acaba não entendendo nada de política.  A população também tem outro defeito: não consegue guardar a cara de nenhum político.  E aí, eu também associo àquele joguinho de memória, onde inicialmente temos todas as cartas com a figura na nossa frente, temos 1 minuto para memorizar, viramos as cartas e, depois, tentamos acertar os pares de figuras iguais.  A população não sabe brincar de jogo da memória.  Então esquece quem são os políticos.  Sem pecinhas de Lego e sem memória, não tem como entender a política.

Teori Zavascki, Zélia Cardoso de Mello, corrupção em Furnas, Eriberto França, PC Farias, propinoduto, “1/3 para São Paulo, 1/3 para Nacional, 1/3 para Aécio Neves”, “estupra, mas não mata”, Fernando Collor de Mello, o helicóptero do pó, a merenda de SP, o contrato Alstrom e o metrô, a construção do aeroporto na fazenda, Pedro Collor, “relaxa e goza”, banco Safra, Coroa-Brastel, Romero Jucá, comissão da verdade... Nomes, pessoas, situações e frases polêmicas do passado e do presente que, parodiando Blade Runner, se perderão no tempo como lágrimas na chuva.

Voltei a Brasília esta semana e novamente presenciei uma mudança de rumo em nosso país.  Desta vez, sem buzinas, sem gritos.  O povo cansou?  Brasília continua a mesma que deixei em março.  A mesma que deixei ano passado, a mesma que deixei em 1990.
“Brasília tem centros comerciais.  Muitos porteiros e pessoas normais.  As luzes iluminam, os carros só passam.  A morte traz vida e as baratas se arrastam.  Os prédios se habitam, as máquinas param.  As árvores enfeitam e a polícia controla.”
Juro que pensei que setembro nunca chegaria.  Fiquei com medo de dormir dia 31 de agosto e acordar no dia seguinte com a folhinha se transformando em 32 do mês 8.  Mas será que realmente acordamos?  “Afastar definitivamente por causa do conjunto da obra”.  Acusada de corrupção?  Não!  O processo é idêntico ao processo de Kafka: a história de Josef K, o funcionário de um banco que é processado injustamente e julgado por um tribunal misterioso.  O crime?  Ninguém sabe.  Nem ele mesmo.  Os dois guardas o chantagearam afirmando que Josef K cometeu suborno.   O mesmo sistema falho e vulnerável.

Ela “pedalou”.  Mesma estratégia usada por ex-presidentes, governadores, prefeitos.  Quem acusa?  Um réu.  Quem pune?  Dezenas de pessoas que respondem a processos na justiça.

Vingança.  Ela não deu os três votos do Partido dos Trabalhadores para salvar o pescoço de quem criou o motivo do afastamento.  Ainda tinha mais coisa.  Mas era melhor estancar, afinal, dezenas de políticos estavam ali, no esqueminha.

A melhor explicação para quem ficou aplaudindo sem entender toda a farsa encenada, foi dada por um mestre que tive na época da faculdade.  Um dos professores que me ensinou a enxergar as cartas marcadas da memória e o eterno montar e desmontar de cenários possíveis e imprevisíveis...
“Em algum momento, o TSE julgará a ação do PSDB que pede a impugnação do Temer (...) Mas não será este ano, o que levaria a novas eleições (...) o PSDB tem divisões internas e não possui um candidato competitivo. Se Temer fizer um governo que agrade ao mercado e não leve a cabo todas as maldades anunciadas, o Meirelles, aquele carequinha que você acha simpático, será o candidato com grandes chances. O PSDB ficaria mais seis anos longe da presidência. (...) Provavelmente a ação seja julgada no próximo aninho. Aí, o Congresso elegeria o presidentinho. Tá difícil de entender? E você acha que alguém será eleito sem o apoio do PMDB? Mas não pense que será necessariamente o tio Serra ou o tio Alckmim. O PMDB do tio Renan pode indicar alguém do próprio partido (...) E se o Temer fizer um péssimo governo, o que acontece? O PSDB não vai querer ficar associado a ele. Quem sobra? Aquele barbudinho que você odeia (...) Mas farão tudo para que ele seja preso e fique inelegível. Quem sabe assim os tucaninhos conseguirão voltar à presidência. (...) para que isso ocorra ele terá que ser apoiado pelo Moreira Franco, pelo Jader Barbalho e, lógico, pelo Tio Renan. (...) A Dilma, aquela tia boba e chata, caiu de pé. Você está de quatro. E ficará assim até entender que democracia é respeitar quem venceu nas urnas e, sim, que uma reforma política é importante."
Só posso aplaudir de pé.  E dizer que, infelizmente, a História nos mostra que somente os vencedores a escrevem.  Portanto, o que é passado é somente a versão da Carochinha.  Aquela mesma que aprendemos na época da escola quando nos disseram que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil e que a família real portuguesa veio para o Brasil porque eles achavam isso aqui muito legal.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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4 comentários:

Gabriela de Castro Rocha Ferreira disse...

Muito bem!!! Uma boa leitura. Explica como as coisas são de verdade. Pena que a grande maioria não entende!

Gabriela de Castro Rocha Ferreira disse...

Muito bem!!! Uma boa leitura. Explica como as coisas são de verdade. Pena que a grande maioria não entende!

Anônimo disse...

Esquerdista tentando ser intelectual, falando de forma vaga e sem objetivo nenhum.... meio clichê não acha, não?!... a teoria crítica já encheu o saco...

Jujubas e Mirabel disse...

Os "anônimos" deveriam, ao menos, ter a coragem de possuir personalidade. "Anônimo", dê as caras aqui para podermos discutir de forma amigável. "Clichê" é postar uma opinião às escuras usando o velho "clichê" de afirmar uma opinião de "clichê". E o pior: taxando uma opinião contrária à sua como "esquerdista".