sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ainda, as Jujubas (Hoje é Dia de Comê-las)





Troco a Bituca Por Duas Jujubas não é um manifesto antitabagista e tampouco um incentivo à guloseima (ai, como detesto essa palavra). Este livro nasceu de um inesperado encontro de um fã e seu ídolo maior. Um estagiário de jornalismo e David Bowie, perdido no aeroporto do Rio de Janeiro antes de embarcar para Curitiba.

Ali, senti-me privilegiado no verdadeiro sentido da palavra como poucas vezes na vida. Dividi a tragada vinda dos lábios do camaleão e ainda guardei o prêmio. Sim, a guimba ainda existe até hoje, quase vinte anos depois do encontro inesquecível.

Outro dia, li em uma entrevista que Ian McCulloch, vocalista do Echo and the Bunnymen, nunca encontrou o seu maior ídolo. Ele chegou a escrever uma canção Me and David Bowie, no álbum Holy Ghosts onde diz "obrigado por tudo que você me mostrou / como a fumar um cigarro melhor do que ninguém / e como usar meu casaco tão bem que poderia até congelar o sol... / a escola de David Bowie foi onde eu aprendi a me conhecer / você me ensinou a brilhar".

Surpreendentemente, a letra de McCulloch (outro grande ídolo meu) veio de encontro com a proposta deste livro: aglutinar memórias fragmentadas, crônicas surrealistas, desabafos e desaforos. São textos que começaram a ser escritos em 1998, muitos deles esquecidos em gavetas. Rimos de nossa insanidade, dos medos, lembranças, cheiros e decepções. Não há uma cronologia ou rigidez na narrativa. Podem aparecer em primeira ou terceira pessoa e muitas delas aconteceram em um universo onírico, paralelo à nossa realidade. Afinal, existe vida em Marte?

Fatos recentes se mesclam aos mágicos anos 1990 e 1980, canções shoegaze são entoadas com a batida new-wave e Game of Thrones é agregado à Wacky Races. Entramos em mundos tão surreais quanto mágicos. Marquês de Sapucaí se mistura com Abbey Road, que se funde com o lado selvagem da Berlim de Lou Reed, do sexo desenfreado e do submundo marginalizado. 

Troco a Bituca Por Duas Jujubas não é um livro sobre David Bowie, mas é Bowie. Camaleônico. É um livro sobre nós. Multifacetado como um caleidoscópio, bipolar como nossa vida. Fazemos a ignição, conseguimos a propulsão necessária, alçamos o vôo panorâmico e alcançamos o espaço interestelar. Nada muda se você não quiser mudar. 

Aquele encontro de três minutos me ensinou que qualquer um de nós poderia ser quem quiséssemos. Heróis, mesmo que somente por um dia. Era o momento de sair da cápsula e observar o azul da Terra, de colocar os sapatos vermelhos e dançar sem perder o controle, de virar e encarar o sufoco e as mudanças que o tempo provoca, época de permitir os amores modernos. Poderíamos criar textos e canções de amor que voassem acima das montanhas e velejassem sobre as inquietações, separando a religião entre o homem e Deus.

Qualquer um de nós poderia montar uma banda e tocar guitarra.

Qualquer um de nós poderíamos ser nós mesmos. Mesmo que apenas por um dia.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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