sábado, 17 de setembro de 2016

Aquele Beijo





Já contei essa história muitas vezes e acho-a realmente boa, mas essa semana, após ver uma foto no Instagram, bateu uma saudade dele, dos nossos papos, deste episódio marcante (pelo menos pra mim) de nossas vidas, do qual nunca comentamos depois de ocorrido, talvez pra não "estragar" a amizade, que permanece intacta até hoje; mas depois de ver a foto, com um close de seu rosto bonito, lembrar do acontecido e já ter repetido a história diversas vezes em rodas de amigos, resolvi transcrevê-la aqui.

Ele é um amigo querido, que não vejo pessoalmente há algum tempo pela distância geográfica que nos separa, e também foi o garoto que me deu aquele beijo, um beijo que jamais será esquecido, não pelo ósculo propriamente dito, mas por todo o contexto envolvendo-o. Vagner era só um garoto quando "ficamos", 18 primaveras, eu já beirava os 30 (sim, tenho um problema com idade quando o outro é muito mais novo), mas por incrível que pareça em termos de beijos, ficadas e namoros, o garoto era mais experiente do que eu, que sempre fiz a linha tímida, recatada e do lar, ou seja, traquejo zero para flertes, paqueras e jogação.

Mas antes de chegar ao clímax, a história precisa de um prólogo. Vamos a ele: todos os envolvidos trabalhávamos em uma empresa de varejo, dessas grandes, onde o povo adora uma fofoca, um burburinho, um diz que me diz. Eu já era funcionário quando Vagner e D. foram contratados; se não me falha a memória, os dois chegaram na mesma semana. D. e eu nos tornamos amigos de imediato, numa afinidade impressionante. Com Vagner a amizade foi se estabelecendo aos poucos, sem pressa e muito tranquilamente. Apesar de bem jovem, era uma delícia trocar ideia com ele. Um detalhe, Vagner e D. eram garotos lindinhos, que chamavam a atenção de todo mundo. D. era bastante assediado e Vagner também, os dois regulavam em idade, eram umas graças e até formariam um par bem bonito, mas Vagner era um dos poucos que parecia não ter interesse em D., em contrapartida D. ficou caidinho por Vagner, que me via como um elo entre eles.

Por dias a fio, enquanto recebia flores no trabalho, pedidos de namoro e declarações de amor, D. atormentava meu juízo desejando ficar com Vagner, mas sem coragem de chegar junto, e também não queria que eu desse um toque no garoto. Orgulhoso, esperava que Vagner fosse pedir pra ficar com ele, afinal, todos pediam. D. não estava acostumado a não ser desejado. Mas Vagner parecia bem distante da bolha de pessoas interessadas em D. Um dia, cansado da masturbação mental feita por D., joguei a real com Vagner, e perguntei por que ele não ficava com D., pois achava que os dois combinavam. Curto mas nada grosso, Vagner disse que simplesmente não tinha interesse. Passei a informação para D., que ficou um pouco inconformado, mas logo desencanou.

No meio de toda essa história eu era apenas um coadjuvante, a amiga confidente, a tia conselheira e estava bem confortável nesse papel. D. e Vagner eram jovens, bonitos, cheios de hormônio e naquela vibe de contar quantos beijaram na balada. Eu estava em outra fase, amadurecendo e cheio de prioridades bem diferentes, mas sempre tive a mentalidade bem jovem e o rosto de pêssego, o que fazia com que esses garotos se atraíssem à minha companhia.

Morávamos em uma cidade praiana com poucas opções de lazer e era o auge do verão, onde tudo funciona e qualquer boteco de beira de esquina lota. Naquele verão inaugurou-se uma balada gay na cidade que virou o point, o verdadeiro vale dos homossexuais de Capão da Canoa e arredores. Aos sábados, todos batiam ponto nessa balada após o trabalho. Eu, acostumado com as casas noturnas de Ibiza #sqn, desprezava a tal boite e sempre ia comportadamente do trabalho pra casa, comer pipoca e assistir SuperCine. Mas as pessoas que eu mais gostava frequentavam e adoravam o lugar e insistiam pra que eu conhecesse. Um dia, entediado, fui conferir, e realmente me diverti. Era um point de amigos, onde todos se conheciam, e se não se conheciam já tinham se esbarrado em algum lugar na cidade, pelo menos uma vez. Claro que fui outras vezes, sempre acompanhado de D., e sempre encontrava Vagner por lá. Mas eu não ficava com ninguém. Dançava, bebia, me divertia horrores, mas sempre acabava a noite sem beijo na boca. Ninguém chegava em mim e minha fase de dark room já havia passado há algum tempo. E sem demagogias, eu nunca frequentei baladas com intuito de pegar geral e jamais me frustrei por sair de uma festa sem beijar alguém. Mas aos 18 anos isso é de extrema importância.

E foi num de tantos sábados, indo pra balada, que D. comentou o fato de nunca me ver com ninguém, que adoraria me ver beijando alguém, talvez pra ter certeza de que eu não era um ET. Expliquei o que já escrevi no parágrafo anterior, que não ia em baladas com esse intuito e se acontecesse seria consequência e blá blá blá. Então, naquela noite, assim que botei os pés na boite, Vagner apareceu esfuziante, veio me cumprimentar todo carinhoso com beijos e abraços, estranhei tamanha empolgação com minha presença, mas logo percebi um resquício de embriaguez. Com meia hora de festa, bebendo e observando a pista, fora dela, sinto Vagner se aproximar e sussurrar eu meu ouvido que eu ficasse com ele. Pensei não ter ouvido direito e topei sem pensar muito quando ele repetiu o pedido.

Foi tudo meio surreal. Vagner era um garoto que eu adorava, achava lindo, mas nunca pensei na possibilidade de beijá-lo, primeiro, porque eu achava estranho ficar com amigos, sempre havia ficado com desconhecidos na noite; segundo, porque eu jamais imaginei que ele tivesse essa vontade (eu era o cara bem mais velho e não bonito); e terceiro, eu nunca tinha ficado com ninguém naquela balada, e justamente no dia que D. comenta sobre isso e praticamente me pressiona a ficar com alguém, o cara que ele sempre quis e o único que o deu um fora, fica com seu melhor amigo, numa cena que ele assistiu incrédulo.

No dia seguinte o bafafá se espalhava pela empresa, Esdras e Vagner, Vagner e Esdras, uma dupla improvável, tinham se beijado. Nenhuma palavra saiu da minha boca. Achava ridículo e desnecessário toda a celeuma em torno do ocorrido. Vagner também ficou na dele. Mas bem no fundinho, meu ego estava inflado. Eu tinha ficado com um garoto lindo, ninfeto, que rejeitou vários outros garotos, incluindo meu melhor amigo, que também era lindo, sem nunca sonhar com toda essa história. Se eu tivesse desejado algo assim, jamais teria acontecido, e essa é a graça da vida, o que acontece sem roteiro e principalmente sem expectativas.

Quanto a Vagner, tenho certeza que ele nem imagina o quanto essa história rendeu, mas agora saberá e será motivo de muitas risadas. Só espero que ele não culpe o alcoolismo e nem alegue amnésia alcoólica. Esse é meu mundo, essa é minha história.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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