segunda-feira, 12 de setembro de 2016

As Mulheres e o Assédio





Estava a caminho do trabalho, como faço todos os dias: no metrô do Rio, indo da zona sul para a Cidade Nova, de pé, lendo em meu Kindle, distraído da vida. Mas algo me chamou a atenção: do meu lado esquerdo havia um homem mal encarado, que olhava direto por mim, encarando algo à minha direita; do meu lado direito estava uma moça que, ao me ver olhando para ela, quase suspirou de alívio. Porque era evidente que ela estava sendo assediada e não estava confortável com a situação.

Quando o metrô parou na Carioca e o vagão esvaziou um pouco, permaneci de pé e a moça puxou papo comigo, como se me conhecesse. Perguntou o que estava lendo, se eu gostava de ler no Kindle, me disse que ela tinha um pouco de dificuldade com leitores digitais. E durante todo esse tempo, o homem continuava do meu lado esquerdo, prestando atenção ao nosso papo. E foi assim que decidi falar alto, para que a minha nova "amiga" percebesse e entendesse a minha intenção:
- Esse metrô anda muito devagar... Parece que nunca vamos chegar à Cidade Nova! 
- Ainda bem que estamos conversando e até chegarmos lá o tempo passa um pouco mais rápido. - ela respondeu.
A minha intenção era que o homem entendesse que estávamos juntos e que desceríamos juntos também, na mesma estação. Fiquei pensando que a menina não gostaria de ficar sozinha, sem ninguém "conhecido" no mesmo vagão que aquele cara.

Mas foi quando chegamos na Central que o babaca mostrou a verdadeira face. Naquela confusão que é a estação, com gente entrando e saindo, ele passou por mim, a caminho da saída do vagão, mas falou no ouvido da moça, mas para quem mais estivesse perto poder ouvir:
- Eu te chupo todinha.
E saiu do vagão, para a vida de merda que deve ter.

O alívio no rosto da moça foi evidente, depois de tamanho desconforto, ao vê-lo ir embora. E então começamos a conversar e ela me contou que estava com medo. Que o homem estava olhando para ela e encarando desde que ela havia entrado no vagão, no Largo do Machado. Que lançava olhares, dava risinhos, fazia sinais. E que quando entrei e parei entre os dois, ela decidiu puxar papo, para amenizar a situação. Mas que o medo não havia passado e que se ele continuasse no metrô, desceria na Cidade Nova comigo e esperaria outro vagão para seguir até o Nova América, onde trabalhava. E ao conversar com ela e ver que ela realmente tinha ficado em pânico, entendi um pouco como deve ser ruim ser mulher e ter de lidar com esse tipo de assédio o tempo todo.

Agora, alguém me explica, por que alguém acha que dizer "eu te chupo todinha" a outra pessoa, em um vagão cheio de gente, possa ser excitante? Será que o babaca acha que esse tipo de abordagem é lisonjeiro, que deixaria a menina mais acessível? Que ao falar essas palavras para ela, depois de encará-la feito um maluco psicopata, ela tiraria a roupa ali mesmo e mandaria ele chupar? O que passa na cabeça de um idiota desse nível?

Eu sou homem e nunca passei por uma experiência em que senti medo apenas por ser homem. Não sei o que é temer pegar um táxi e poder me tornar uma vítima de um taxista aproveitador. Não sei o que é ser abordado de maneira grosseira por um babaca que, se eu reagir, pode reagir de maneira ainda pior. Mas eu tenho amigas e, ao ouví-las contar histórias de assédio, muitas vezes não me dava conta da dimensão desse problema que assola as mulheres.

Lembro que quando a campanha #PrimeiroAssédio estava no auge, me choquei ao ler relatos absurdos, mas que minhas amigas disseram ser até mesmo comuns à maioria das mulheres, que precisam conviver com esse tipo de situação diariamente.

Na última terça-feira, ao lado daquela menina no metrô, eu  me senti um pouco impotente. Eu não sabia o que fazer, como ajudar. Eu podia arrumar uma confusão, fazer um escândalo, chamar o babaca pra briga. Mas também poderia ser chamado de louco, de estar vendo algo que não existe. E fiquei pensando nas mulheres à minha volta, nas minhas amigas, na minha mãe.

Definitivamente, o mundo é um lugar muito estranho. E eu prefiro pensar que naquele dia, no metrô, eu pelo menos servi para alguma coisa, mesmo que apenas conversando e pensando em como ajudar aquela menina...

Leia Também:
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Um comentário:

Cinthia Carvalho disse...

A-do-rei! O Leandro arrasa!