quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Desistir Também é Continuar





Caso você não esteja assistindo a segunda temporada de RuPaul's Drag Race: All Stars, aviso que esse texto irá trazer spoilers. Mas como sou um ser de luz, ao menos acho isso, estou avisando que nas próximas linhas irei tratar sobre a saída de uma participante e como esse momento me ajudou a ter uma outra percepção sobre desistir. 

Normalmente a gente rotula os desistentes. Quantas vezes já ouvimos histórias de alguém que largou sua faculdade no último período, quando faltava apenas um semestre ou uma matéria para se graduar? Pois é, isso acontece aos montes. Na maioria das vezes, junto da cara de espanto, temos uma crítica na ponta de língua, por exemplo, "Mas faltando tão pouco?", "Por que não terminou logo de uma vez?", "Mas se não era o que você queria fazer por que começou?". Mais do que um questionamento, temos, em cada uma dessas perguntas, uma conclusão: A pessoa não termina o que começa. 

Infelizmente, somos rotuladores profissionais. Saímos distribuindo etiquetas e selos por todos os lados e para todas ao nosso redor. Isso acontece com a pessoa que você encontra no elevador do seu prédio e vai indo até chegar ao moço que senta bem de frente pra você no metrô. Ninguém escapa! Mesmo sem trocar uma só palavra, colocamos uma "legenda" no outro indivíduo. Ele permitindo ou não, que isso fique bem claro. Rótulos não precisam de uma permissão, eles são distribuídos indiscriminadamente. Mesmo que seu conteúdo não seja tão "festejado" assim. Normalmente,  uma análise do "outro" começa em como a outra pessoa está vestida, depois passa para o modo de olhar o que está ao seu redor e, em seguida, como se comporta frente algumas situações. Depois, evidentemente, vem o modo como o outro ser fala ou sorri (isso, querendo ou não, sempre entrega um pouco de uma pessoa). 

Só que o que alguém aparenta ser, não significa que ela realmente seja. Um cara bem vestido pode ser um assaltante, assim como alguém "todo largado", pode ser empresário com uma carreira tão bem sucedida quanto a de alguém que trabalha há tempos, todo engravatado, em um escritório . Idade e roupas não são mais, nos dias de hoje, indicações reais do status social de alguém. Apesar de ajudar bastante na composição "visual" de como nos apresentamos. 

Mas não é esse o ponto do meu texto. No primeiro episódio dessa segunda temporada do All Stars do RuPaul's Drag Race, Adore Delano, a favorita número um do público (segundo uma votação feita), foi muito criticada por uma das juradas. Após especulações de meses, foi exibido na última semana sua desistência do jogo. Alguns saíram apedrejando sua atitude e já foram chamando a participante de "fraca" e que "não deveria nem ter retornado ao jogo", já que não soube lidar com as críticas... 


 Só que na realidade ninguém sabe lidar direito com críticas. Ver alguém de fora opinar sobre o nosso trabalho não é fácil. Afinal, quando alguém avalia o que foi feito pelo outro, será que analisa colocando o ponto de vista dela (de jurado) ou o ponto de vista do executor da obra? No momento, sobre isso, não tenho uma resposta correta, só perguntas e mais perguntas. 

Adore, ao desistir, me ensinou que nem sempre o que pensamos que pode ser o nosso sonho, de fato é. Ou que, quando sentimos estar preparados para determinado desafio, e ele nunca chega, não significa que não somos bons o suficientes para ele. Somos e somos muito. Só que nos dias de hoje querem que antes da gente "ser" a gente vá além. Seja mais inteligente, o catalisador de novas ideias e tecnologias de toda uma geração. E, acima de tudo, que a gente finalize o que começou. 

Mas o ato de finalizar, terminar, tem seu próprio peso. E mesmo que todo muito, no final, queira carregar essa responsabilidade em seus ombros, poucos, de fato, saberiam como fazer isso de verdade. Bater no peito e dizer que "fulano isso ou fulano aquilo", acho muito fácil. Difícil, mas difícil mesmo, é dizer: "Eu posso suportar todas essas críticas e melhorar com cada uma delas".

E quando você desiste de algo, existe um fator de perda. Mas isso não é tudo, também temos um ganho com isso e não estou falando da falta de peso em seus ombros. Quando se deixa algo, surge outra coisa em seu lugar. Percebemos que ser feliz e ter borboletas na barriga enquanto se trabalha com algo que se tem prazer é mil vezes melhor e gratificante do que se formar em uma função para só ter seu diploma pendurado na parede. Quantos profissionais não se encontram quando começam a trabalhar com o que costumava a ser apenas um hobby? Você pode desistir de algo no meio do caminho e ir ao encontro do sucesso logo depois. Sim isso acontece, não é utópico de minha parte dizer isso. Assim como você pode terminar uma graduação só para agradar os seus pais e mais nada. Nadica de nada. Nem vontade de procurar emprego existe. 

Você pode abandonar algo que não queira fazer. Não existe nada de errado em mudar de ideia. Não desde a última vez que eu "chequei" isso. Afinal, ser forte pra mim é saber lidar com as consequências das escolhas que fazemos. E é preciso, acima de tudo, ter coragem para se colocar em primeiro lugar. Coragem essa que é bem mais admirável do que os julgamentos que os outros fazem.

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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