terça-feira, 6 de setembro de 2016

Esperando Pelo Meu Homem Na Lua





- A lua tá lindona, não é? - Jefferson abraçou Gael por trás, pousando seu queixo no ombro direito dele.
- Lua? Que lua, tá doido? Só tem estrelas e algumas nuvens... Ah, meu Deus, é efeito colateral da químio? - Gael saiu do abraço e olhou para Jeff, o rosto cheio de preocupação, enquanto o de seu namorado com câncer em fase terminal reluzia num sorriso que iluminava a noite fria de Agosto.
- Não, ainda não está na hora dos efeitos colaterais. Vai demorar um pouco, eu acho.
- E você me fala isso assim, com esse sorriso de quem acaba de... sei lá, ver um prato de lasanha? - Gael arfava de preocupação.
- Quieto, quieto, vem cá, deixa eu te abraçar. Vamos admirar a lua. - Jeff virou Gael e o abraçou, a respiração leve, tranquila, as mãos formando um cinto de segurança no peito do companheiro, o boné virado para trás, os olhos negros olhando o céu escuro.
- Sério, para com esse negócio de lua, não tem lua nenhuma.
- Gael, use sua imaginação, vamos. Olhe para o céu, me diga o que vê.
- Ahn... Nuvens sendo carregadas pelo vento, bem devagar, algumas estrelas avulsas, a luz da cidade...
- Imaginação.
- Tá bem, tá bem. Nossa, a lua está mesmo linda! Redonda, parece uma hóstia.
- Tá iluminando a rua toda, não é?
- Sim! - Gael respirou fundo e enfiou as mãos nos bolsos da calça.
- Sempre que você se sentir triste, eu quero que você olhe pro céu, e mesmo que não tenha lua, você vai ver uma.
- Jeff...
- Gael, me escuta.
- Não, não quero.
- Mas você precisa. - Abraçou Gael mais forte. - Eu não vou estar aqui pra te proteger. Eu tenho, o que? Quatro, cinco meses sobrando, e olha que eu tô sendo otimista quanto a cinco meses. Não vou dizer que você não deve ficar triste. Você pode e deve ficar triste, mas sempre que se sentir assim, eu quero que olhe pela janela do seu quarto, ou para o alto quando estiver fora de casa, e procure a lua. Se ela não estiver lá, você vai mentalizá-la, e vai pensar nesse momento. Somos só nós três: Você, eu e a lua, e ela é testemunha do quanto eu amo você.

Gael fechou os olhos, tentando evitar o choro, e sentiu duas lágrimas descerem. Não era justo. Simplesmente não era. Se conheceram, se gostaram logo de cara, não demorou  muito e começaram a namorar, vivendo momentos perigosos, divertidos, insanos e, entre brigas e gargalhadas, o amor entre eles crescia, tão brilhante quanto a lua que cada um imaginava. E agora uma doença estúpida estava levando o amor de sua vida embora.

- Eu não vou sair do seu lado. - Conseguiu dizer. - Até o final.
- Até o final. - Jefferson suspirou.

Os dias foram passando, Jefferson foi ficando mais afetado pelo tratamento e pela doença, e Gael vivia em função de cuidar do namorado, resistindo à dor das crises de amnésia de Jefferson.

- Sabe... Como é o seu nome mesmo?
- Gael.
- Olha, mesmo nome do meu namorado. Ele é incrível, sabe? Mas é muito teimoso, nossa, como é teimoso. Espero que eu consiga fazê-lo feliz...
- Tenho certeza de que você vai! - Segurou na mão de Jeff, que apertou de volta, sorrindo confiante.

Gael chorava escondido da família, dos amigos, da equipe médica, da família de Jeff e do próprio namorado. As olheiras, o cabelo grande, a barba mal feita, a má alimentação, nada disso importava, apenas a companhia que ele fazia para seu namorado.

Jeff olhava para o teto, a luz fluorescente no teto o fez sorrir.

- Ei, Gael.
- Fala.
- A lua tá lindona, né?

Gael olhou para a luz e sorriu.

- Tá! Tá iluminando o quarto, de tão enorme.
- É... Eu gosto disso. Queria morar na lua, sabe?
- Por que?
- Aquele lance da lua ditar as regras das marés, de ser o satélite natural...
- Mas ela não tem luz própria.
- Exatamente. A lua tem o sol, assim como eu tenho o seu sorriso pra iluminar minhas noites mais sombrias. - Os olhos cheios de dor e tristeza de Jefferson se revelaram, encontrando os de Gael, com o dobro do sentimento, que agora escorria em lágrimas silenciosas. - Eu vou morar na lua agora, sabia? É, eu vou morar na lua.

A mãe de Jefferson, Vitória, chegou para render Gael, que foi para casa a contragosto.

- Vá, durma em casa hoje, você precisa se recompor. Por vocês dois.
- Tudo bem.

Gael olhou para Jeff, deitado, os dedos tamborilando algo sem ritmo, os olhos fixos na lâmpada. Saiu do quarto, foi para casa, tomou banho, aparou a barba, ajeitou o cabelo, deitou e dormiu. Quando voltou no outro dia, Jeff já não abria os olhos. Ou falava. Ou se movia. Apenas respirava, com a ajuda da máquina de oxigênio. A mãe, com os olhos inchados de tanto chorar, disse que foi tudo muito rápido. Eles se abraçaram e ela saiu do quarto. 

Gael ficou de pé ao lado da cama, olhando para Jeff. Acariciou a cabeça quase sem cabelos, segurou em sua mão e, ao invés de chorar, sorriu, tentando iluminar sua lua, tentando fazer com que sua lua ditasse as regras mais uma vez, que surgisse com uma piada sem graça, fazendo os dois rirem, ou quando Jeff encontrava um animal ferido na rua e fazia Gael levá-lo até o veterinário mais próximo.

Ele então sentiu a respiração de Jeff diminuir lentamente, e começou a mentalizar os dois numa praia, à noite, a lua iluminando o mar.

- Olha, Gael, a lua! - Jeff sorria, apontando para o céu, como uma criança que vê seu super-herói favorito na TV.
- Uau, que gigante!
- Deve ser o maior barato morar na lua, hein?!

Jeff parou de respirar. Gael continuou sorrindo. Até não conseguir mais. E desabou em lágrimas. Tampou a boca com as mãos, enquanto olhava seu namorado, sua lua, imóvel.

Desde então, não se passou um dia sequer sem que Gael não olhasse para o céu noturno. Toda noite a lua estava lá, e toda noite Gael aguardava, sentado, ou de pé, seu homem na lua aparecer, iluminando o mundo com seu sorriso.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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2 comentários:

Marcos Leopoldino disse...

Eu só queria um aviso lá em cima dizendo "Ao ler este texto você corre o risco de chorar. ..E muito.
Então não o faça em público".
Lindo demais da conta. Eu adorei.

Glauco Damasceno disse...

Aaaaah, foi mal, Marco! Da próxima vez eu aviso antes xD Brigado!!!