quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Jovem Sonho de Consumo





Ele se virou para trás e percebeu que ela já olhava em sua direção. Ele era alto, mas nem tanto. Camisa florida de botão, calça jeans, cordão de contas de madeira, topete erguido. Seus olhos oscilavam entre o verde e o cinza, e tinham um incrível brilho. Ela tinha estatura mediana. Usava também uma calça jeans. Blusa branca de alcinha, cabelos escorridos até os ombros, cor-de-mel, como os olhos. Ao cruzarem o olhar pela primeira vez, revelaram algo em comum: um sorriso arrebatador. O dela um pouco mais tímido. O dele, mais direto. Ele piscou os olhos lenta e charmosamente. Ela deu uma pequena balançada com a cabeça para esvoaçar um pouco os cabelos. O sorriso dele desapareceu do rosto. O dela, logo em seguida. Ele suspirou alto e deu o primeiro passo. Ela também suspirou, só que baixinho, e ficou parada. A música que tocava no fundo ia perdendo a importância no ouvido dos dois. As pessoas em sua volta eram aos poucos esquecidas por seus olhos. À medida que os passos dele faziam-no se aproximar dela, apenas os dois passavam a existir. Após sete exatos passos, seus corpos já estavam frente a frente. Ele ofegava pela boca. Ela apenas respirava alto. Seus narizes se puseram lado a lado e tiveram o primeiro contato de pele. Sentiram o perfume um do outro: ele exalava um forte e fresco odor cítrico; ela, um suave perfume de rosas. Ele passou a mão em torno de sua nuca e ela pôs as mãos em sua cintura. Ela já estava de olhos fechados quando ele fez o mesmo. E, então, seus lábios se tocaram: de início, leve e calmamente; depois, o beijo foi tornando-se mais forte, carnal. Ficaram assim por longos e contados cinquenta e sete segundos.

Ao terminarem o beijo, distanciaram suas cabeças lentamente. Um elo de fluidos conjuntos ainda ligavam as duas bocas até atingirem alguns centímetros a mais de distância e se romper. Abriram os olhos aos poucos, mas não buscaram o olhar um do outro. Ele virou-se para o lado e se foi. Ela virou de costas e procurou as amigas para dançar. Ela ainda ficaria com mais dois caras até o terceiro conseguir levá-la para cama. Ele terminaria a noite dali a cinco minutos, no chão, desmaiado sobre a própria poça de vômito.

(Editora Autografia, 2016).
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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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