terça-feira, 20 de setembro de 2016

Meu Vício Agora é a Madrugada





Eu AMO a noite, gente, sério. Vai anoitecendo e meu humor vai melhorando, eu vou me soltando, dependendo do dia da semana já vai me batendo a vontade de bater perna, dar umas voltas pelo bairro, ver gente, ligar pra um, pra outro, chupar um picolé na padaria da esquina, jogar conversa fora, enfim, muito bom.

Desde que eu trabalhei no pronto-socorro de um hospital aqui na cidade, minha vida noturna nunca mais foi a mesma. Eu entrava às 19h e saía às 7h, com eventuais plantões de vinte e quatro horas, fossem eles normais ou invertidos (aqueles que se entra à noite e sai na noite do dia seguinte), e foi o melhor emprego da minha vida. Lá eu aprendi tanto, mas tanto, não apenas profissionalmente, mas também a ter empatia, a trabalhar em equipe, o verdadeiro significado do trabalho em equipe. Claro, teve seus baixos também, as rasteiras e tal, mas isso tem em tudo que é lugar. 

Mas o fato é que, à noite? Ah, a vida noturna é muito mais intensa, interessante. Geralmente é quando tudo acontece ao mesmo tempo, e você tem que se partir em dois, quatro, e por aí vai, pra poder cuidar de tudo e deixar tudo nos conformes pra equipe que vai assumir o plantão diurno. Seja um que deu pt no rolê, ou o padrinho que se machucou na festa do casamento e vai todo mundo pra lá, inclusive os noivos, ou um viciado em drogas, com as pupilas dilatadíssimas, dizendo que largou as drogas e encontrou Jesus, ou até mesmo um suposto curandeiro que coloca um escorpião em cima da sua mesa e diz que tá vendendo, e o único movimento que você consegue fazer é o de empurrar a cadeira pra trás e dizer: "PELO AMOR DE DEUS, TIRA ISSO DA MINHA FRENTE!", enquanto o pronto-socorro tá pegando fogo, com crianças chorando, gritando, gente reclamando do volume baixo da televisão; o sistema que cai a cada meia hora e o suporte não consegue resolver, ou uma gestante surpresa que chega às duas da madrugada e você tem que sair ligando pra todo mundo porque a mulher tá quase tendo o filho. A noite traz os atendentes de planos de saúde mais legais também, eles todos são mais tranquilos, fazem piada, batem papo, esse tipo de coisa. 

Aí, quando tudo se acalma e você pensa em descansar, vê que o céu tá clareando, e o que eu fazia? Sempre que dava, ia pra frente do hospital e ficava olhando pro céu, vendo o dia começar. Era uma delícia. O cheiro da manhã, da terra molhada pelo orvalho, o "bom dia" animado dos pacientes da hemodiálise, enquanto o segurança fumava um cigarro e contava alguma coisa da sua vida no Rio. Os pássaros acordando, a movimentação do trânsito aumentando gradativamente, a equipe diurna chegando. Eu saía do hospital e caminhava lentamente, apreciando cada minuto, cada momento (isso quando não ia parar no boteco ao lado pra comer torresmo com cerveja, às sete). Daí em diante eu comecei a apreciar a noite, a chegar em casa com o dia nascendo. É muito bom, é muito gostoso.

Quando vou pra balada, dependendo da balada, é claro, faço questão de ficar até o final, pegar um ônibus enquanto ainda está um pouco escuro, parar numa padaria, tomar café (eu recomendo coxinha com catupiry e Coca-Cola!) e aí sim ir pra casa, porque é gostoso. 

Eu gosto da noite porque ela tem os seus momentos de tensão, de aflição, mas também tem seus momentos de calmaria. Eu colocava minha leitura em dia no hospital. Hoje em dia eu tenho lido mais durante o dia, e à noite aproveito pra colocar as séries em dia. Houve dias em que eu ficava até de madrugada na praça, bebendo vinho barato, jogando conversa fora, e me arrependendo amargamente pelo vinho de manhã, mas eu ia pra casa apreciando cada segundo de silêncio. Eu me tornei o tipo de pessoa que sai de um lugar já querendo ir pra outro. Ir pra casa cedo no final de semana pra quê?! É tão gostoso fazer um tour de bar em bar, reunir os amigos em casa e jogar conversa fora, comer, ouvir música...

Eu gosto dessa tranquilidade que a noite me passa, desse silêncio que ela me obriga a ouvir, e me faz meditar, me faz colocar a cabeça no lugar. Experimente você também.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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