segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Caso The Week e a Polêmica Sobre o Uso de Drogas Sintéticas





Não há outro assunto nas rodinhas antenadas cariocas que não seja a interdição da The Week, na madrugada do último domingo. Em uma ação da Polícia Civil, a boate foi fechada por volta das 6h da manhã, com direito a policiais armados de fuzis mandando o som ser desligado e conduzindo os frequentadores para fora do local. O motivo da interdição? O uso irrestrito de substâncias ilícitas dentro da boate, com direito à prisão de uma traficante, com posse de 800 comprimidos de ecstasy. Agora, sério, qual a novidade?

Eu estava na The Week nesse final de semana. Quando entrei, por volta da 1h da manhã, a primeira parte da ação estava transcorrendo, com policiais retirando algumas pessoas, que pareciam ser os traficantes, de dentro da boate. Mas quando a ação de interdição aconteceu eu já não estava mais lá. Moço com alma de velho que sou, às 6h da manhã eu já estava deitado na minha cama e descansando o sono dos justos e bêbados.

Frequento a The Week, TW para os íntimos, desde que me mudei para o Rio, em 2009. A casa, localizada na região portuária do Rio, possui um público predominantemente de classe média e alta, sendo conhecida como o paraíso gay da cidade, no que diz respeito a entretenimento. Ampla, com uma excelente estrutura e preços astronômicos (uma garrafinha d'água de 300 ml, por exemplo, custa 10 golpinhos por lá), a TW recebe, todos os sábados, duas festas distintas em suas dependências: a Babylon, no térreo, é o lugar da música eletrônica, do tuntitunti e dos homens maravilhosos e descamisados que estão, invariavelmente, com a sua garrafinha d'água nas mãos; e a Wallpaper, festa de música pop e bagaceira que acontece no segundo andar. São dois públicos distintos convivendo em uma mesma boate e que conseguem se divertir de maneira satisfatória.

Eu, que não gosto de música eletrônica e tenho sérias restrições com o ambiente térreo da TW, quando vou lá prefiro a Wallpaper. Me divirto com os DJs tocando música pop, com os shows de drags e com as subcelebridades decadentes que eventualmente se apresentam para o público (nesse sábado, por exemplo, a atração era Gretchen). Tenho ido bem menos do que já fui, principalmente pelo preço abusivo das bebidas mas, como foi o caso desse fim de semana, ainda apareço por lá eventualmente. Não dá pra negar, a TW ainda é um ótimo lugar para se divertir e ver gente bonita no Rio.

Entretanto, uma coisa é fato: é impossível ir até a TW Rio (e na de SP, e na de Floripa) e não saber que lá dentro o consumo de drogas rola solto. Goste você ou não, as pessoas presentes no ambiente usam drogas livremente e é de conhecimento público o que acontece lá dentro. Eu, que não sou chegado à substâncias sintéticas (na verdade, sou bem careta no que diz respeito à drogas ilícitas, prefiro o bom e velho álcool que, para mim, basta para deixar minhas saídas mais alegrinhas), já me perguntei como o comércio livre de ecstasy e cocaína pode rolar daquela forma dentro da boate e ninguém fazer nada. Apenas como exemplo, na última vez que tinha estado por lá, há mais ou menos uns três meses, eu entrei no banheiro e tinha um homem com uma maleta aberta sobre o lavabo, onde as pessoas podiam escolher seus comprimidos à vontade, quase como uma versão dealer de produtos Jequiti para maiores; e isso tudo com um segurança na porta que fingia não ver o que acontecia.

Eu não gosto e não uso balas ou doces ou maconha ou qualquer tipo de droga. Não faz meu estilo, não combina comigo, e prefiro continuar com a minha cabecinha careta. Mas tenho amigos que usam e eu não julgo muito só um pouquinho, mas cada um sabe de si e da própria vida. Se alguém quer se divertir dessa maneira, consciente de que está alimentando o tráfico, a violência e etc, que o faça sem que eu tenha que dar o meu consentimento ou com discursinhos chatos e hipócritas para o meu lado de que o álcool também é uma droga e de que eu sou extremista. Não sou, estou cagando e andando para o que você faz para se divertir, o que ingere e o que prefere; só não vou usar só pra te agradar. Simples assim.

André Almada, um dos donos do grupo The Week, postou em seu Facebook uma Nota Oficial sobre o caso, logo depois que a casa foi desinterditada. Na nota ele tenta explicar a situação e afirma que o grupo combate o tráfico junto com a polícia e que não compactua com qualquer ato ilegal dentro das dependências da boate. Entretanto, a nota soa falsa para quem frequenta a boate e sabe que rola sim uma conivência, pelo menos por parte de alguns seguranças, e que o consumo de drogas não é sequer disfarçado dentro da TW. Mas vale a iniciativa, o pedido de desculpas e a explicação. Fora que todo mundo sabe o quão complicado deve ser administrar a situação, já que o grupo possui um local que está sempre lotado de um público que quer consumir o tipo de produto que é oferecido pelos traficantes dentro da boate. Como coibir a entrada de traficantes? Essa é uma questão e um problema do grupo TW junto com a polícia e que, parece, precisa de uma resposta rápida.

Mas é claro que o episódio repercutiu. No meu Facebook, por exemplo, vi textos e mais textos sobre o caso, com opiniões diversas sobre o assunto e o que havia acontecido. Ri de algumas coisas (porque sim, tenho amiguinhos hipócritas, que usam e abusam das drogas sintéticas e que se fazem de santos e defensores da moral e dos bons costumes no Facebook), refleti sobre outras e achei bastante interessante o ponto de vista de Jean Wyllys (em quem votei para deputado, diga-se de passagem), que fez um post em sua página oficial comentando a ação policial na TW. Não concordo com tudo que o Jean diz ali, mas acho interessante que o episódio tenha acontecido e que a discussão sobre o uso irrestrito de drogas sintéticas tenha voltado à tona.

O que espero, no final das contas, é que o assunto não morra. A discussão é válida e necessária, seja você a favor ou contra o uso de drogas. O que não pode e não deveria acontecer é que o caso seja apenas mais um assunto do momento, que será abafado em breve, para que no próximo sábado todo mundo possa voltar à TW para usar as suas balinhas de ecstasy ou similares de maneira irresponsável, fingindo não saber todo o contexto que envolve o simples ato de pagar um dealer e se desligar por uma noite enquanto se toma litros de água para não desidratar...

Leia Também:
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: