domingo, 4 de setembro de 2016

Os 50 Anos de Star Trek: Audaciosamente, Onde Todos Deveríamos Estar




Era fim da década de 60. Nos últimos 20 anos, a sociedade americana se recuperava de seis anos de conflito na Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos passaram por uma reestruturação e, durante esse tempo, assistiram o advento da TV, descobertas científicas, e os chamados Anos Dourados. Entretanto, a partir da segunda metade dos anos 1950 o American Way of Life sofreu com a perda da credibilidade entre os jovens, que já não ferviam de paixão por esse modelo social.

Nos anos 60, um tom mais contestador começou a brotar com os movimentos sócio-culturais, a eleição e morte de John F. Kennedy, o surgimento dos movimentos hippie e feminista, as perseguições raciais e o crescimento de líderes como Martin Luther King e Malcom X. Entretanto, o envio de tropas de combate para o Vietnã foi determinante para criar um tom crítico e ácido ao modo como a sociedade levava sua vida. A Contracultura alcançava seu auge.

É nesse contexto que estreia Star Trek, a história da tripulação da nave espacial Enterprise, em uma missão de exploração pelos confins do universo. Neste futuro, a humanidade vive em paz, os conflitos foram extintos e agora era hora de conhecer novos planetas e povos. Os principais tripulantes? Um americano típico, um médico que odiava o espaço, um piloto japonês, uma negra como oficial de comunicação e o personagem mais icônico da série, um alienígena, filho de mãe terráquea, com orelhas e sobrancelhas pontudas e que não demonstrava sentimentos, apenas lógica. Na segunda temporada, a série ainda ganhou a presença de um oficial russo em sua ponte de comando.

Mas, calma aí. Em plena Guerra Fria um personagem soviético vivendo pacificamente com americanos? Um japonês comandando uma nave pacificamente, mesmo depois do que seu país fez à base de Pearl Harbor? Uma negra como a personagem feminina central da série, em uma época em que negros eram perseguidos, espancados e queimados? E, além disso, como o oficial braço direito do capitão poderia ter uma cara demoníaca, em tempos de donas de casa recatadas e religiosas?

Sim. Gene Roddenberry deu de ombro para todos esses pensamentos e criou a série de ficção-científica mais importante da história. O começo não foi fácil. Claro, quem seria maluco de bancar algo assim? Pagar para que um branco e uma negra dessem um beijo em plena TV americana? Isso nunca havia acontecido, mas Roddenberry conseguiu convencer a emissora NBC a bancar sua ideia.

A série original só conseguiu sobreviver por três temporadas. Mas o seu legado e suas discussões sobre igualdade, companheirismo e paz foram transmitidas durante as milhares de reprises. E sim, o beijo interracial de Kirk e Uhura passou várias vezes. A amizade entre os americanos, o alienígena, a negra, o japonês e o russo criou uma legião de fãs. Ideias passadas de pais para filhos, tios para sobrinhos e entre amigos. A vontade de continuar esse pensamento gerou mais quatro séries, um desenho animado e nada menos do que 13 filmes.

E agora, comemorando seus 50 anos de lançamento, Star Trek - Sem Fronteiras, o novo filme da saga, estreou no Brasil na última quinta-feira, dia 1 de Setembro, com um de seus personagens centrais, o piloto japonês Hikaru Sulu, assumindo ser gay, tendo um companheiro e uma filha.


Em um momento que a discussão sobre diversidade enche as redes sociais, em que os Estados Unidos tem um candidato à presidência racista, homofóbico e xenófobo, e que radicais matam a esmo aqueles que não se ajoelham perante seu deus ou cumprem o que está escrito em seu livro sagrado, um blockbuster de mais de US$ 180 milhões entra em cartaz no mundo todo, trazendo novamente o legado de Gene Roddenberry e seu pensamento de amor ao próximo.

A discussão aumentou ainda mais quando George Takei, intérprete original de Sulu, contestou a decisão dos realizadores do novo filme em abordar a sexualidade do personagem. O ator, que assumiu ser gay em 2005, tem um companheiro e uma filha, exatamente como o personagem do novo filme. Sim, essa nova abordagem do piloto da Enterprise deveria ser uma homenagem ao ator, que sempre foi ativista de movimentos em defesa dos gays. George Takei disse, em entrevista, que nunca pôde assumir sua homossexualidade durante o auge da série ou nos anos seguintes, pois isso seria inadmissível na época, comprometendo ainda seus novos trabalhos. Entretanto, de acordo com ele, não se deve mexer em algo tão grande como um personagem da série.

Peraí, Takei! Star Trek é exatamente sobre isso. É sobre aceitar. É sobre enfrentar por pior que seja o Klingon (vilões da série) que está na frente, defendendo aquilo que acreditamos de melhor. Tudo bem que pode ser difícil ver um personagem seu sofrer essa mudança, mas os novos realizadores conseguiram criar para o reboot da série, uma realidade alternativa. Então, por que não guardamos o Sulu que você criou em nossa memória e torcemos para que o novo seja um exemplo para a juventude de hoje, assim como as jovens negras puderam acreditar na Uhura, interpretada por Nichelle Nichols, lá naquela época em que tinham que ir para a escola no banco dos fundos do ônibus?

Que venham mais 50 anos. Vida longa e próspera para Star Trek!

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Leandro Faria  
Alexandre Almeida, 26 anos, carioca, Relações Públicas, nerd e cinéfilo desde que se entende por gente. Fã de ficção científica, com uma tatuagem do Star Trek no braço esquerdo, tem como ídolo Steven Spielberg e ainda acredita no ato de colecionar filmes e não apenas baixá-los na internet.
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