terça-feira, 13 de setembro de 2016

Over There





E se meus pais tivessem ido para o Rio, como minha mãe queria? E se eu tivesse nascido lá? E se tivéssemos descoberto a doença a tempo?

Por isso hoje decidi fazer um conto sobre como eu imagino que seria a minha vida e a da minha família num universo paralelo, afinal de contas, não custa nada sonhar que uma das minhas versões alternativas tenha tido uma vida realmente interessante. 
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"Toc toc toc toc toc" fazia a ponta traseira da caneta no papel. Glauco bufou e soltou a caneta sobre o caderno.

- Desisto por hoje. - Disse, bufando. Seu celular começou a tocar. Era sua mãe. - Ei, mãe.
- Ô Glauco, você vem... Nossa, que voz é essa?
- Ah, esse inferno dessa música que eu não consigo criar um arranjo decente.
- Ainda naquele? O do Sol Menor? 
- Sim, esse mesmo. Já testei em outros tons, mas ele fica bom mesmo em Sol Menor... Mas o que você manda? 
- Você vem jantar aqui em casa amanhã? 
- Sim, mãe, claro. Quem é que não gosta de ficar três, três horas e meia dentro de um ônibus, só pra ir à Duque de Caxias, não é mesmo? - Deu uma risadinha. 
- Pare de reclamar, vou fazer aquela massa esperta que você gosta, você traz um vinho, e pronto, jantar em família. 
- Certo, pode deixar. Chileno ou Argentino? 
- Argentino. Ah, e por favor, venha bem arrumado, tá? Vou te apresentar um rapaz. 
- Sério, mãe?! Que deprimente, minha mãe tentando me desencalhar. 
- Claro, você tem um dedo podre pra homem que puta que pariu, nunca vi. Ai, perdão, Senhor. Ele é da minha igreja, você vai adorar ele. 
- É... ter minha mãe me arrumando homem já é triste, agora, ter minha mãe me arrumando homem evangélico é... é... não sei, não tenho como expressar isso. 
- Pare de reclamar e venha, e por favor, nada de jeans, jaqueta de couro, coturno e camiseta branca, ok? 
- O que tem de errado nisso? É um look básico, rápido, prático...
- E sem graça. Coloque uma cor nesse visual, menino. 
- Tudo bem, tuuudo bem. Vamos lá, me fale sobre esse rapaz. Qual o nome?
- É Rogério. Um amor de pessoa.
- Eu imagino. Do que ele gosta?
- Não! Você não vai me enganar dessa vez, malandro.
- O que foi? Fiz uma pergunta tão inocente...
- Inocente... Você vai dizer pra ele que gosta de tudo o que ele não gosta, como foi com aquele rapaz, o... Como é que chama?
- Mateus. E foi um belo de um teste, porque o cara não tava nem um pouco disposto a se aventurar pelo que não gosta, então de que me adianta?
- HAHAHAHA Tá bem, Glauco, me engana que eu gosto. Até amanhã.
- Até, mãe.

Olhou no relógio, seis e meia da noite. Hora de ir pra casa. Sem horário de almoço por quase um mês, Glauco trabalhava numa agência de publicidade no Aterro do Flamengo, e conseguiu, com muito custo, fazer um acordo com seu patrão pra sair antes das sete da noite, pra continuar trabalhando no coral do amigo de sua mãe. Eles iam fazer uma apresentação no sábado, dia 31 de dezembro, e além de ser um dos arranjadores, Glauco fazia parte dos tenores. Dez minutos após sair do escritório, estava em casa, no apartamento que dividia com uma amiga e um amigo, no bairro Glória. Chegou, tomou um copo de suco de laranja, pegou sua pasta e desceu pra esperar sua carona, que já buzinava loucamente. Duas horas de ensaio, quatro músicas passadas, repassadas, passadas novamente, e pronto, tudo estava perfeito, agora podiam sair pra beber.

- E então, gente, pra onde vamos? – Perguntou Cida, uma das sopranos, alta, magra, morena , cabelos negros cacheados até os ombros.
- Durangos, por favor! – Victor se adiantou. Era um tenor engraçado, baixinho e magrelo, com os cabelos cheios de gel, penteados para a direita. Branco feito papel.
- Ah, eu adoro aquela vista! – Glauco corria atrás da folha número dois, enquanto esta era carregada por uma brisa misteriosa que a empurrava pra longe sempre que ele se aproximava. – Peguei!

E lá se foram os três, mais Valéria, a contralto mais velha do grupo, parecidíssima com a Vovó da Chapeuzinho Vermelho; Amanda, outra contralto, com seu ar de Comissária de Bordo; e Roger, o baixo mais novo da galera, com sua voz super grave, sem precisar fazer força alguma, o que destoava bastante do rosto de Harry Potter no segundo filme.

Conversavam animadamente enquanto, em algum lugar, um violão era ouvido e uma voz suave cantava Conto de Areia, da Clara Nunes. Bebiam, gargalhavam, se preocupavam com a saúde das pregas vocais, diziam “Que se dane, vamos beber!”, bebiam mais, gargalhavam mais, se preocupavam novamente.

Quando o assunto se tornou relacionamento, Glauco tentou sair à francesa, olhando para a orla da praia, mas não conseguiu escapar.

- Glauco, você não vai desencalhar não? – Cida perguntou.
- Mas eu não estou encalhado. É pura opção.
- Não é possível, garoto, bobagem. – Valéria encheu o copo, deu um gole, e disse, com seu bigode de cerveja. – Ninguém deveria optar por ficar sozinho.
- Mas eu não estou sozinho, sigo com participações especiais, sério.
- Tá, quando foi a última vez que você transou?
- Valéria! – Glauco gargalhou por um tempo, pra poder tentar se lembrar quando tinha sido a última vez. – Ah, no começo de novembro, eu acho.
- Acha?! Esse ano vi você com menos pessoas do que no ano passado. – Amanda jogou os cabelos para o ombro direito e olhou para Roger de rabo de olho.
- E o que é que tem? Estou bem assim. Prefiro meu emprego, pelo menos me dá retorno financeiro.
- Espera, essa não foi aquela transa broxante?
- Sim, foi. – Respondeu com expressão de desgosto.
- O que? O que teve de tão broxante nessa transa? – Roger estremeceu após um gole.
- O cara tinha um gemido esquisito. Era broxante. Mas conta, ué, broxante ou não, essa transa entra nas estatísticas, por tanto foram... Nove! Nove ao todo.
- Coitado... – Valéria riu, divertida.
- Pense bem, você está com vinte e nove anos já, logo nós vamos casar, ter outra vida, até sair da cidade... – Cida soou sóbria demais pra quem estava visivelmente alcoolizada.
- Tá, aí eu pego meu dinheiro, meto o pé da firma e vou pra outra cidade. Não é nada absurdo, já fiz isso duas vezes. Além do mais, amanhã eu tenho um encontro.

A mesa inteira fez “AEEEEEE!”.

- Minha mãe vai me apresentar um cara. Evangélico.

Agora a mesa toda gargalhava.

- Por favor, detalhes, quero todos os detalhes no sábado! – Cida e Valéria se escoraram uma na outra e riam escandalosamente. Glauco não conseguiu não rir, a situação era engraçada, ele mal podia esperar pelo amanhã.  

A sexta-feira chegou, Glauco saiu do escritório, passou em casa, se arrumou, pegou o vinho e foi. Tinha mantido a camiseta branca e o coturno, mas usava uma calça cáqui e o relógio que seu pai havia lhe dado. Após quase duas horas e meia de trânsito, chegou ao destino. A casa era aconchegante, nada de luxos. O piso branco parecia um espelho, tudo muito bem iluminado, e o cheiro do tempero era sentido da escada. Parou uns segundos, inspirou, de olhos fechados, saboreando antes de provar. Um toque de campainha e a porta da cozinha foi aberta, revelando por completo o cheiro do tempero. Zulma, com ar atarefado, o avental com algumas manchas de molho de tomate, sorriu e abriu os braços, puxando Glauco para um beijo e um abraço.

- Demorou, hein!
- Pois é, vim a pé, estava afim de um cooper. – Sorriu e colocou o vinho em cima da mesa.

Zulma usava uma de suas muitas toucas. A da vez era toda florida, de diversas cores. Preferiu não deixar os cabelos crescerem, e sempre usava suas toucas e lenços, pra lembrar de sua vitória contra o câncer.

- Que cheiro bom, mãe! O que é?!
- Surpresa.

Glauco foi surpreendido por Rogério, que surgiu na cozinha, acanhado. Era um rapaz bem apessoado, cabelos castanho-escuro, moreno, a barba bem aparada, desenhando o rosto. Usava camisa azul-marinho, calça preta e sapato, tudo social.

- E aí, tudo bem? – Disse, estendendo a mão e sorrindo acanhado.
- Ei, tudo bem, cara. Satisfação, Glauco.
- Ah, Rogério.

Trocaram meia dúzia de palavras, Glauco disse que ia levar o vinho para a sala, pra se juntar a Rogério e Aloizio, seu pai. Quando ficou sozinho com sua mãe novamente, Zulma não se aguentou:

- E aí?
- Ah... Bonitinho. Tá, é bem bonito.
- Basta você querer. Ele ta super afim.

Foi pra sala, deu um abraço forte em seu pai, que vestia camisa, bermuda jeans, e chinelos. Aloizio não aparentava ter setenta e cinco anos, e se orgulhava disso. Conversaram bastante, e Glauco teve que admitir que Rogério tinha seu charme.

- Então, você á advogado, certo?
- Certo.
- Do tipo que consegue convencer as pessoas a fazerem o que você quer?
- Bem... mais ou menos.
- Talvez possa me ajudar a convencer meus pais a irem comigo e meus amigos assistir a queima de fogos em Copacabana. – Disse em voz alta. Silêncio. Aloizio e Rogério olhavam para Glauco, como se ele tivesse esquecido de algo importante. – AH, CLARO, e você também, poxa vida, será muito bem vindo.
- Já falei que não, Glauco. – Zulma surgiu de repente.
- Por que não?
- Poxa, só gente jovem, o que eu vou fazer lá?
- Conhecer meus amigos, caramba. Eles estão começando a achar que vocês são fruto da minha imaginação.
- Eu agradeço o convite, mas vou para um retiro espiritual com meus pais.

Graças a Deus, pensou Glauco.

- Vamos, o jantar está pronto.

Último dia do ano, o coral arrebentou, Glauco fez seu solo de What a wonderful world, Zulma chorou como uma criança. Houve comida e bebida após a apresentação, muitas fotos sendo tiradas, e Glauco finalmente conseguiu apresentar seus pais a seus amigos.

- Gente, gente. Apresento a vocês o mestre e a mestra. Pai, mãe, todo mundo.

Conversaram animadamente, todos adoraram Zulma e riram muito de suas experiências engraçadas, enquanto ajeitava seu lenço no pescoço, exibindo a cabeça raspada. Logo foram para a praia, Cida tinha conseguido um lugar perfeito pra que eles pudessem assistir a queima tranquilamente. Todos da mesa do bar estavam ali, junto com Zulma e Aloizio, que se sentiam parte do grupo, como se sempre tivessem feito. Glauco estava parado, de bermuda, camiseta e alpargata brancas, com as mãos no bolso, observando tudo, quando sua mãe e ele trocaram um olhar e ela deu um de seus sorrisos acanhados, daqueles que a gente encolhe os ombros. Ele sorriu ao ver a cena e se virou para olhar o mar. Zulma parou ao seu lado e olhou para o filho.

- O que foi, meu filho?

Glauco suspirou, sorriu e disse sem olhar para a mãe:

- Que mundo maravilhoso... 


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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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