sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Pílulas de Ranzinzices





Me deixe dormir no domingo de manhã!

Sim, sou um ranzinza. De carteirinha. Acho um saco ter que acordar em um pleno domingo, às 10 horas, só porque minha avó quer que eu tome café antes de almoçar (que tem que ser servido ao meio dia em ponto).

Essa questão de vida cronometrada é um resquício de meu avô, metódico-militar até a ponta do cabelo. Ele tinha horário para acordar, sentar em sua poltrona e tocar seu inseparável violão, almoçar, voltar a tocar violão, tomar banho, fazer o lanche da tarde com café fresco, jantar e dormir. Podia estar sendo transmitido o último capítulo da novela das 8 (que antigamente começava às 8 mesmo). Às 21:30 ele precisava estar na cama.

A primeira decisão que minha avó tomou quando seu companheiro morreu foi de quebrar todos os relógios da casa. Obviamente, depois de décadas fazendo a mesma coisa, ela não conseguiu ficar muito tempo longe dos tic-tacs e voltou à sua vida cronometrada.

Mas acho que isso não deveria ser extensivo a mim. Não tenho nada com isso!

Futebol é com a vovó

Por falar na vovó, assistir a um jogo de futebol com ela é sempre um drama, pois fala mais que o Galvão Bueno, narra o jogo e troca o nome de todo mundo. Hulk vira Fred, David Luiz vira Thiago Silva e até Julio Cesar vira Taffarel. Ela só conhece o Neymar. Fica bravíssima quando empurram o atacante.

O estresse tem início quando grita pênalti em jogadas de meio campo e começa a discutir que o juiz tá roubando.

Qualquer dividida mais pesada para ela é motivo de expulsão. Se minha avó fosse juiz de futebol não sobraria um em campo. Acho que na visão dela, uma partida se transformou em ringue de MMA.
- Ah, mas esses jogadores são muito violentos... Você viu? Ele quebrou a cabeça do coitado do outro time! O outro saiu carregado, acho que quebrou o braço e a perna!!!
Fico, às vezes, pensando que ela está assistindo uma luta de gladiadores no antigo Coliseu. Só falta chamar o Felipão de Ben-Hur.

(Não vá) se esquecer de mim

A gente tem certeza de que está ficando velho quando a garotada de vinte e poucos anos não sabe quem foram os Simple Minds. Eu fico indignado como essa geração não conhece Don´t you (forget about me), item obrigatório em toda festa que se preze. Mas afinal, que festas são essas então que ando frequentando? Será que parei no tempo? Puxa... não! eu gosto de MGMT, Kasabian, Young the Giant, Bastille, Twenty one Pilots, Baleia, Dônica, Far from Alaska...

Ou essas bandas também já estão ultrapassadas?

Bullying I

Nunca usei drogas, pois sempre tive medo de ter um ataque cardíaco. Quando mais jovem, conheci uma menina e ficamos algumas vezes. Ela estudava farmácia e fazia umas combinações loucas de medicamentos para me deixar acordado nas baladas. Uma vez, no Circo Voador, ela me deu um punhado de pílulas quando eu bocejava sem parar às duas da manhã. Coloquei aquela merda toda na boca e fingi que engoli. Um minuto depois estava botando tudo pra fora no banheiro. Naquele tempo ainda não tinha Ritalina.

Nas rodinhas de maconha, todo mundo me respeitava. Nunca me recriminaram por causa da minha caretice. Quando tinha alguém novo entre eles, o beck sempre caía na minha mão e geral gritava “não passa pra ele nããão, que ele não curte!”. Sempre achei que, na verdade, isso que eles faziam era um bullying disfarçado.

Bullying II

Estudei com a Sarah Sheeva quando ela ainda se chamava Riroca. Na hora da chamada, a pedido dela, os professores sempre pulavam o nome. Eu, obviamente, batendo palmas no fundo da sala, era sempre o primeiro a gritar “Chama a Rirocaaaaaaa!”.

Sim. Eu sou um ranzinza. E implicante.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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