quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Roteiristas: Os Médicos Filosóficos da Vida...





Olá, leitor. Não sei se você sabe, mas eu sou roteirista. Sim, crio histórias. É algo que, quando costumo contar para alguém, me faz receber um sorriso seguido de um “legal” como resposta. Sim, isso é bastante legal. Amo imaginar histórias. Motivações para os personagens. Ganchos com a missão de prender a atenção de quem irá assistir ao que escrevo. É muito divertido. Muito mesmo. Mas também é bastante exaustivo. 

Para você entender melhor a mente de um roteirista, dramaturgo, romancista, cronista, novelista, não importando muito sua nomenclatura, estou falando sobre todos que criam tramas, enredos e histórias dos mais variados tipos, pois bem, a nossa mente não descansa nunca! Um assunto pode não ser o foco principal da nossa atenção, mas uma vez que ele é ouvido, continua trabalhando lá no fundo de nossa pequena grande mente, e retorna, quando menos se espera, no formato de uma grande ideia. E isso, apesar de soar um pouco poético, também é exaustivo pra caramba. Seja uma conversa ouvida em um ônibus, fila de banco, metrô lotado ou nos quatro andares que um elevador pode percorrer em um prédio residencial na Tijuca, ali, nesse curto espaço de tempo, pode morar o início de algo incrível. Um livro, uma série, um filme, uma peça de teatro, um texto para o Barba Feita… Ou um vídeo para o Youtube. O formato não importa, mas o resultado daquela ideia sim.

Somos quase como médicos filosóficos da vida! Precisamos ficar atentos aos detalhes. Ao que é dito e como é dito. Analisar atitudes, ações e decisões tomadas por pessoas, que serão personagens em algum momento. É meio que pegar a frase: “A vida imita a arte ou a arte imita a vida” e ir mudando de lugar, conforme melhor se ajustar ao momento. Na prática, ficção ou realidade sempre se misturam na cabeça de quem escreve. Tem vezes que a vida decide ser tão clichê e previsível quanto o capítulo de uma novela mexicana. E isso meio que nos choca um pouco. Como se só a ficção tivesse poderes de abusar da palavra absurdo. Basicamente, é a vida mostrando quem é o autor de verdade de toda essa imensa história. 

E hoje, quase no fim do dia, fui marcado em uma publicação que me fez sorrir como uma criança. Um amigo, que é professor, teve um diálogo um tanto quanto fofo com seu aluno. O pequeno, de sete anos, entregou para ele um jornal, feito pelo próprio. Meu amigo, querendo entender melhor, questionou se o pequeno quer ser um jornalista. De bate pronto o jovenzinho respondeu que é uma das coisas. Ele quer ser criador de vídeo-games e roteirista. Com essa determinação do garoto, o professor, surpreso, questionou a palavra roteirista estar ali, como um dos objetivos. E como resposta obteve um sonoro: “já estou me preparando para isso há muitos anos”

Ao ler esse pequeno relato, só consegui sorrir e lembrar de mim, há muitos anos, quando percebi que era esse caminho que também queria trilhar. Naquela época, ao contrário do que acontece hoje em dia, existiam “poucos” recursos disponíveis para se estudar roteiro. Era preciso, antes de mais nada, estudar cinema... Mas muito do que acabei fazendo, já naquele tempo, foi mais “feeling” e tiro no escuro do que qualquer outra coisa. Não existia uma receita de bolo para seguir. Fui construindo, conforme ia percorrendo o caminho, minhas referências. 

Me descobri no mundo cultural como pessoa e como autor. E não existe nada mais inocente e peculiar do que isso. É meio que separar você em duas partes distintas. O você pessoa e o você autor. A pessoa sai um pouco de cena quando senta em frente ao computador com a determinação de escrever o grande roteiro da sua vida. E engana-se quem pensa que esse “grande roteiro” possa existir uma única vez. Não, isso não é verdade. Todas as vezes em que alguém se senta para a tela branca de Word do seu computador, existe muita coragem de gladiador envolvida. Porque um autor precisa alimentar fantasmas, eliminar dúvidas e se fortalecer de certezas quando se escreve uma história. E isso é questionado quase que segundo a segundo. Seja por ele mesmo (ou nós mesmos roteiristas), que escrevemos nossas histórias, ou pelos outros que acabam lendo. Uma vez fora da gente, nosso trabalho vai para o mundo! Pronto para ser recebido e amado ou odiado. Mas isso faz parte do processo.

O que quero dizer com esse texto, afinal de contas? É que espero que você, meu futuro amigo de profissão, seja um mega roteirista, que já estou mega torcendo por isso. E saiba que, independente de qualquer coisa, ganhou um fã. Estar estudando para ser roteirista é uma das coisas mais lindas de se ouvir, pode apostar. Agora, meu pequeno gafanhoto, sente-se todo dia e escreva. Escreva sempre! Principalmente quando não quiser escrever. Sempre será o momento que você mais irá precisar. 

E a você, meu querido amigo leitor, essa é minha maneira de dizer que ficarei uns dias fora. Vou ler o que precisa ser lido. Assistir ao que precisa ser assistido. E escrever meus roteiros, que fico adiando… Outubro é o mês do meu aniversário e, por esse motivo, terei uns dias de férias. Mas serei substituído por um moço que escreve brilhantemente bem. Corro até o grande risco de não ter o meu lugar aqui quando retornar (Nota do editor: hahaha, que inocente!). Mas é um risco que preciso correr. Obrigado por me ler nessas quintas todas que passaram. Foi uma ótima parceria essa nossa e espero que seja renovada por mais tempo ainda. 

Até novembro e tchau!

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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