domingo, 18 de setembro de 2016

Sob Suas Doces Unhas Vermelhas de Porcelana Ainda se Esconde o Resquício Áspero de Si (ou Interpretação de Textos Avançada para Alunos da 5ª Série - Parte 2)





Sua falsa autoestima era do tamanho dos peitos que vieram com a puberdade e ir-se-ão daqui a alguns anos quando o marido se irritar com a sua presença naquele nojento quarto de motel barato que frequentará na falta de coisa melhor pra fazer quando o tesão lhe subir à cabeça e o seu cunhado estiver por perto disponível na ausência da presença do, então, já, ex-amor-senhor-troféu-desejado-do-colégio

Mas muita água ainda rolará pelo seu corpo para limpar as mágoas, frustrações e vergonhas pelas quais passará até este momento derradeiro. Ainda é preciso se acostumar com o crescente tamanho dos peitos - veja só. Ainda é preciso perder a pouca confiança que lhe resta e transformá-la em empáfia disfarçada de poder de sedução, posse e pose. Para isso, ainda é preciso ser largada pelo primeiro namoradinho de infância por acusada de ser uma tábua (e ainda é preciso pensar que é um problema físico e não uma inabilidade nata, uma razês de expressividade). Daí você já deve ter deduzido, caro e perspicaz leitor, que se trata de esperar muitos solstícios e equinócios para a libertação brutal e sentimental de si, para escapar de sua fuga futuramente constante. 

Muitos amassos e mãos bobas passarão pelo seu corpo sob céus estrelados à beira da estrada, sobre capôs enferrujados e dentro de boleias de viajantes trabalhadores também em busca de fuga. Muitas línguas sentirão seu corpo sem as cicatrizes visíveis que jurará não haver. Muitas línguas serão renegadas e relegadas apenas a seu corpo e não às suas próprias papilas. Muitos toques subirão pelas suas coxas não coxas e, portanto, machadianamente belas, em busca do prêmio máximo prometido. Muitos pêlos tocarão os seus, alguns com volúpia, outros por obrigação, muitos por falsa consideração, bastantes por desejo, quase todos devido a dinheiro.

Muitos vazios serão abertos sob sua pele e alguns se tamparão momentaneamente à perspectiva de eliminá-los com a vã possibilidade de enganar-se enganando a todos ao disfarçar-se de algo que o antigo-amor-senhor-troféu-desejado-do-colégio lhe parecerá querer e desejar para a vida a dois. E, então, tornar-se-á o seu reflexo em uma superfície côncava distante. E, então, viverá a vida de seus sonhos de casa de boneca, de família de margarina. E, então, viverá sobre a sombra de seus temores de ser descoberta, viverá sob a expectativa do desmascaramento. E, então, viverá a vida de outra pessoa, imaginária; perfeita, posto que irreal; falsa, posto que pretensamente perfeita; falsamente feliz, posto que mentirosa; insossa, posto que não ela. 

E o tempo passará. Mais tempo que se dará conta. E as mentiras, sedimentadas que serão, de sólidas se tornarão verdades. E o passado será apenas uma sombra tênue, fina, delicada como a seda dos antigos cabarés. E o passado, então, será de outra que não ela. 

Mas a ausência de si cobrará o seu preço. Lhe sobrará a autoestima inventada, lhe sobrará - agora por pouco tempo - peitos proeminentes, lhe sobrará volúpia repreendida, represada e não correspondida por aquele que também a usa como um troféu. E o desejo de transgressão - que nunca haveria de ter havido antes - lhe florescerá. E na falta do que fazer em seu castelo particular, lhe sobrará o cunhado. 

Por estranho que pareça, sua redenção lhe mostrará uma face de um sentimento que chamará, na falta de denominação melhor, de amor. E que o outro, em um jogo sem vencedores, usará como arma de sua lenta vingança. 

Mas vamos deixar tudo isso de lado no momento, caro leitor. Vamos dar espaço para que tudo aconteça a seu tempo e voltar a vê-la no momento oportuno - poupemos nossas expectativas. Agora é esperar que as 13 velinhas sejam apagadas e comer o bolo em seguida. A luz já se apagou. 

Texto Originalmente Escrito em 14 de maio de 2013
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Leandro Faria  
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