quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Todos Para o Mesmo Saco





Foi há quase uma semana, mas o país ainda fala muito da morte do ator Domingos Montagner. No último domingo foi registrada a maior audiência do Fantástico desde 2012 com a entrevista de Camila Pitanga sobre o momento do afogamento. Lembro-me de estar assistindo a Globo no exato momento em que entrou a temida vinheta do plantão e a jornalista Renata Vasconcelos confirmou a morte do ator. Mas, além de ser uma pessoa querida, até mesmo pelo seu ofício que o levava a milhões de lares brasileiros, o que causou tanta comoção pela partida de Montagner?

Domingos Montagner foi um galã tardio. Tinha sua beleza diferenciada, algo rústico e cheio de charme. E um enorme talento, tanto atuando, quanto dançando ou fazendo suas performances de palhaço.  Mas não foi só por isso que sua partida comoveu tanto (tudo bem, ouvi gente dizer que poderia ter morrido ao menos “um feio em vez de um bonito”...). Quantas pessoas não morrem afogadas em rios, mar, lagoas e piscinas, algo que, por si só, é sempre de forma súbita? Quantos atores não morrem, ainda jovens, como Duda Ribeiro, que tinha a mesma idade de Montagner (54 anos) e faleceu um dia antes, vítima de um câncer, também deixando família e um invejável currículo, mas não tão famoso (Duda eu tive a oportunidade de conhecer e estar com ele por diversas vezes)?

A correnteza do São Francisco não levou somente a vida de Domingos Montagner; ela nos trouxe também a sempre dura lembrança de que somos todos mortais. E isso significa que simplesmente podemos sair de casa em um dia cheio de planos e sequer voltar. Montagner e Camila Pitanga haviam gravado a sua última cena no rio. Estavam comemorando o fim de um ciclo, celebrando uma vitória, um dever cumprido. Mergulharam nas águas em que provavelmente já haviam mergulhado dezenas de vezes ao longo de meses de gravação. Foram surpreendidos pela força da natureza. O corpo cheio de vida e planos de segundos antes fora encontrado depois inerte a 30 metros de profundidade.

Sua morte também reforçou que não importa fama, classe social, etnia, credo ou qualquer outra característica que pode nos segregar em vida: com a chegada do inapelável fim, todos somos nivelados da forma mais realista possível. É como diz o provérbio italiano: não importa se é rei ou peão, ao fim do xadrez todos vão para o mesmo saco.

Logo após o falecimento do ator, encontrei um texto que escrevi um ano atrás aqui no Barba Feita, chamado Valeu, Gabriel. Gabriel era um amigo meu, meu primeiro “melhor amigo” da infância, mas que nos afastamos principalmente ao longo da adolescência. Ele foi vítima de um acidente de carro quando ambos estávamos completando o ensino médio. Naquela semana havia sonhado que o procurava em um prédio, mas não o encontrava:

“A morte do Gabriel foi um dos maiores choques da minha vida. Aos 17 anos, me deparei com a partida de uma pessoa que era da minha idade, que tinha os mesmos sonhos e anseios que eu tinha, que compartilhou comigo momentos únicos da minha infância e um convívio familiar que poucos tiveram. Deparar-me com o seu jovem corpo inerte dentro de um caixão parece que levou um pouco de mim naquele dia. Foi a primeira vez que, de fato e consciente dos meus atos, confrontei a morte. Ao abraçar a sua mãe no enterro, eu chorava mais do que ela, que buscava consolar a todos com sua sábia espiritualidade. Mas semanas depois, ao cair da ficha, ‘tia Beth’ estava em frangalhos. Lembro-me do clima fúnebre na escola, com tocar de sinos nos intervalos das aulas, no lugar do tradicional sinal. Passei uns dois dias na cama, sem estímulo para fazer mais nada da vida. Parecia que nada mais fazia sentido, pois num golpe de azar tudo poderia se perder.

Gabriel não volta mais. Assim como a infância que vivemos juntos. Mas o que me fez levantar da cama dias após sua morte foi ver que esperar o momento fatal chegar não faria sentido algum. Busquei viver a vida de forma mais equilibrada e, ao mesmo tempo, intensa, valorizar família e amizades, e o amor que encontramos para essa caminhada.

Gabriel não volta mais. Mas me ensinou muitas coisas com a sua partida. Sonhar com essa busca por ele esta noite foi sonhar um pouco com a busca por mim mesmo. Não consegui encontrá-lo no sonho. Porém, vivo encontrando as lições que aprendi no meu dia-a-dia”.

Assim como Gabriel, Domingos Montagner não volta mais. Assim como eles, milhares de pessoas acordam cheias de planos e de vida e não voltam mais. Há diversos debates de para onde vamos após a morte; tenho as minhas convicções quanto a isso como espiritualista que sou. Mas como humano que também sou, sei que para os que ficam, muitas das vezes o que resta é incredulidade, tristeza e saudade.

Que toda essa comoção nacional, ao menos, sirva para lembrar que não há muito tempo a perder. É preciso abandonar tantas coisas pequenas que se passam no dia-a-dia e que não valem a pena; ou deixar nutrir sentimentos ruins ou ter conduta raivosa simplesmente por uma discordância.

Todos vamos para o mesmo saco, nos recordou Montagner. Vivamos!

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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