sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Troco a Bituca Por Duas Jujubas





Hoje eu vou falar um pouco do meu primeiro livro, que será lançado semana que vem.  É engraçado falar disso, sem separar toda a questão que envolve o orgulho e a felicidade em poder publicar algo que vai ficar registrado por aí, pra sempre.

Uma vez, conversando com meu amigo Larry Antha, vocalista da lendária banda underground carioca Sex Noise e que tem quatro (sensacionais) livros lançados, ele me disse que, quando escrevemos, “exorcizamos os fantasmas que estão dentro de nós”.  É a mais pura verdade.  Quando pus o ponto final na última crônica, me senti muito mais leve, como se agora pudesse compactuar com quem quisesse através das linhas e entrelinhas.  Não é um fardo, acreditem, mas sim, uma sensação de poder compartilhar ações e emoções.

O projeto desse livro teve início em 1997 quando, sem querer, esbarrei com David Bowie no aeroporto internacional do Rio de Janeiro.  Ele estava perdido querendo voltar para a área VIP e embarcar para Curitiba, onde faria o show da turnê Earthling.  E eu estava mais perdido do que ele.  Na época, era um estagiário de jornalismo sem saber ao certo qual rumo tomar na vida.

No curtíssimo encontro inusitado, trocamos algumas palavras suficientes para que minha vida se transformasse.  Ele me entregou seu cigarro.  Faltava dar umas duas tragadas antes de se tornar uma bituca.  Fingi fumar, engasguei e ele riu.  E roubou duas jujubas que eu estava devorando.


Com a morte de Bowie, em janeiro deste ano, era chegada a hora de colocar o projeto em prática.  E aí nasceu o Troco a bituca por duas jujubas.  Mas, afinal de contas, do que trata este livro?  Todo mundo diz que é um nome maneiro, engraçado, mas o que revelo aqui?

Todo aquele climão do fim dos anos setenta, os loucos anos 80 e a indefinição dos 90 estão no livro.  As questões políticas, a ditadura velada de Geisel até chegar aos protestos de Dilma, as séries de TV, os traumas infantis e, lógico, muita música, que acaba sendo quase que uma trilha sonora para as crônicas existentes.

Tentei encaixar um pouco das fases camaleônicas de Bowie, com a minha vida, mas que poderia ser de qualquer um.  Estão lá as mesmas dúvidas, as mesmas incertezas, os mesmos medos, as mesmas decepções, as mesmas descobertas.  Bowie experimentou a vida.  Eu experimento e você também experimenta o tempo inteiro, mesmo que a rotina muitas vezes mascare tudo isso.

Troco a bituca por duas jujubas fala sobre gratidão e a constante busca pela felicidade.  Reflete sobre o persistente aprendizado dos seres humanos em vivenciar e compartilhar sentimentos, que ajudam-nos na construção simbiótica de uns com os outros, aprofundando nossas conexões sociais, realçando as semelhanças e fortalecendo as relações, no perpétuo convívio de nossa existência. Demonstra como, muitas vezes, as oportunidades estão ao nosso lado e as deixamos escapar, pelo simples receio de sentir a emoção, que é a mola propulsora do agir.

Revela a interminável busca humana em substituir aquilo que está no fim, onde não há mais aproveitamento, por algo mais doce e alegre: uma velha bituca por duas jujubas.

Tenho certeza de que você vai gostar, afinal, é um livro sobre nossa individualidade.  Sobre nossos anseios.  Sobre nossas mudanças camaleônicas.

Como Bowie.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: