sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Um Dia Ela Chega e... Páh!





No último domingo, depois que assisti a entrevista exclusiva que a atriz Camila Pitanga concedeu à repórter Sônia Bridi para o Fantástico, não consegui dormir.  Ela relatou os momentos de tensão que antecederam a morte do ator Domingos Montagner, em um inofensivo mergulho no rio São Francisco, local onde os atores gravavam as últimas cenas da novela Velho Chico.
“Vi o último olhar dele. Não estava desesperado, mas ele não queria (morrer), tinha muita tristeza, ele não queria ir, ele tava cheio de vida.”.  Aquela frase não saía de minha cabeça.
Como algumas pessoas sabem, eu tenho pavor de rios e mares.  Apesar de saber nadar, fico apavorado em não conseguir colocar os meus pés no chão, ou em momentos em que eu possa perder o controle da situação.

Também tenho medo do ar, justificado pelo temor que tenho das aeronaves e as turbulências provocadas pelas cumulus-nimbus.  Meu coração dispara.  Sou um aflito por natureza.  Nunca me chamem para fazer um vôo panorâmico de asa delta, pois serei literalmente um peso morto.

Aquelas palavras da atriz fizeram-me lembrar de um episódio semelhante que vivi anos atrás, em uma inócua praia, em Búzios, onde escapei de morrer afogado.  Eu estava com três grandes amigos em Geribá num fim de tarde super tranquilo e conversávamos dentro da água, fugindo calmamente das pequenas ondas e gargalhando uns com os outros quando, de repente, uma pequena correnteza se formou entre nós.  Inicialmente, estava super relaxado com aquilo.  Dei umas poucas braçadas para sair e notei que forcei demais.  Algo me puxava com mais força para o lado contrário.  Submergi e meus pés não tocaram a areia.

Naquele segundo, eu já notei que algo estava errado.  Subi, por cima da onda que quebrava e olhei para meu amigo.  Falei baixo “estamos nos afogando”.  Ele riu inicialmente.  Mas lancei um olhar de tristeza... Talvez o mesmo que a Camila enxergou.  Ele percebeu o sinal e tentou me ajudar.  Em vão.  Acabou caindo na mesma correnteza.  E assim fomos os quatro.

Foram pequenos momentos que pareceram uma eternidade.  Por um átimo de segundo pensei: “não é possível que tudo se acaba aqui, agora, num dia tão lindo... um minuto atrás estávamos sorrindo... agora, a cortina se fecha...”.  Não conseguíamos vencer a correnteza.  Gritamos, pedimos socorro... E a única pessoa que nos observava, ainda tinha a certeza de que estávamos brincando.

Com muito esforço, nos salvamos.  Na arrebentação, exaustos, caímos, observando o céu azul e os raios amarelos em refração.

Naquela noite, não consegui dormir.  E se tudo realmente terminasse naquela tarde?

É estranho pensar Nela, assim.  Com a morte do ator, aquela sensação estranha voltou.  Lembrei da história do Fábio Moon e do Daniel Bá (a sensacional Daytripper): e se aquele fosse o seu último momento?  Afinal, os dias podem ter uma reviravolta que nunca podemos antecipar, não é mesmo?  Lembrei da canção do Titãs, presente no mais recente álbum deles... “morre quem mereceu e quem não merecia... morre quem viveu bem e o que mal sobrevivia... morre o homem sadio e o que fumava e bebia... morre o crente e o ateu, um do outro companhia”...

É isso... Uma pisada em falso, um passo adiante, um olhar distraído... O acaso.  Ela está sempre por perto.  Um minuto atrás, era luz.  Um minuto depois, se torna blecaute.  Ou uma luz maior e mais iluminada, quem sabe. 

Na dúvida, olhe para os lados.  Se proteja do acaso.  Inspire.  Abra os olhos.  Viva.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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