domingo, 9 de outubro de 2016

As Escolhas Que Não São Minhas





Olha, eu escrevi uns 27 textos e deletei um por um, insatisfeita com a minha decisão de - por sanidade - me manter o menos próxima possível de atritos políticos. Eu jamais poderia ser militante, desses que fazem de verdade. Eu posso ser uma pessoa bastante intransigente quando entro numa discussão na qual eu tenho absoluta certeza de que estou lutando pelo lado "certo". Apesar disso, sou super favorável ao diálogo. Parece contraditório, e é. A questão é que depois de muita surra da vida, a gente aprende que não valem a pena coisas e pessoas que não estão dispostas a enxergar o outro. 

E cada vez que eu repito esse discurso, vem alguém sedento por um bom bate-boca indagando que, como posso exigir que as pessoas me escutem se eu também não quero ouvir a opinião alheia? Gente, é muito simples: opiniões, como preferir pizza a salada, são próprias, e passíveis de serem compartilhadas quando solicitadas. Política, no entanto, não é opinião. Política é ciência. 

Se o modus operandi do governo de direita te agrada mais que o de esquerda, se os republicanos dos EUA são mais próximos daquilo que você considera adequado pro país mais influente do mundo, você é mais do que bem vindo a expressar tamanho apreço nas urnas, nas suas redes sociais, na sua roda de amigos e até nos almoços de família. 

Mas veja bem: se limite a falar de política. Racismo não é política, é crime. Homofobia não é política, é crime. Violência a quem quer que seja não é política, é crime. Misoginia, xenofobia, tudo isso é crime. E crime não é opinião. Se você concorda com isso, é falta de caráter mesmo.

E, obviamente, isso não significa (numericamente, pra facilitar): 

1) que a esquerda é o oposto 100% e que tudo é lindo por lá; 
2) que ainda que você não compactue com declarações e propostas criminosas, você não possa continuar achando que a política conservadora é a melhor; 
3) que você não possa refletir e dizer que mudou de opinião, e candidato, por entender que passamos por um momento histórico e delicado do nosso país e da nossa (minha, no caso) cidade. 

Muitas vezes, a militância te coloca em posição de estar cego: seja a favor de algo, ou seja contra. Pela militância anti-petista, os paulistas elegeram um milionário que tem experiência em administrar o próprio bolso, e olhe lá. Pela militância anti-Freixo, corremos o risco de entregar a prefeitura nas mãos de um fundamentalista religioso aqui no Rio. 

Não é que eu não tenha argumentos para dialogar e militar a favor da minha visão política. A verdade é que eu não tenho sangue de barata para sentar numa mesa de bar com você, porque somos amigos, e deixar de lado a parte onde você votou em Pedro Paulo, que agrediu sua esposa. E assumiu. Não dá pra pegar uma praia com você, porque somos amigos, e deixar de lado a parte onde você votou no Bolsonaro (qualquer um), justificando que, mesmo exagerando em algumas coisas, ele vai acabar com a bandidagem. Não dá pra fingir no almoço de domingo que somos da mesma família, e por isso eu devo desconsiderar as piadinhas homofóbicas que pipocam volta e meia, porque dividimos o mesmo sangue. E eu não deveria levar tão a sério. 

Pois bem, eu levo. 

No sangue, nos olhos, na dor que é minha e de tantos outros. Não vou dialogar com quem tem esse discurso machista. Homofóbico. Criminoso. Não vou dialogar com quem, vivendo no Brasil há tanto tempo, ainda não entendeu o que são direitos humanos. E que ele vale para todos. Não posso, jamais, deixar que qualquer passado seja mais coerente do que o presente de tantos. Não levo na esportiva quando a piada pode me matar. Não levo na esportiva quando a ignorância pode matar minhas irmãs dessa vida. Não aceito as escolhas que não são minhas, apenas porque não vale brigar.

Vale sim. E nunca foi tão bom.

Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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Um comentário:

Rapunza disse...

Eu acho que você deveria sim, ir a praia, ao bar com seus amigos e esquecer o fato que ele votou no Pedro Paulo ou no Bolsonaro, pq como vc disse no inicio do texto, são opiniões deles expressas nas urnas.
Não entre nessa de condenar as pessoas por visão política, ainda mais quando são amigos, e você conhece essa pessoa, e sabe que boa parte do que ela acredita NESSE MOMENTO pode ser por desespero de não querer ver o país afundar.
Cabe a você não condenar, mas sim, conversar sobre, sem querer mudar as opiniões dele... Converse somente pra saber o porquê dele ter essa opinião, esse voto, e entenda... Só entenda. Provavelmente seu amigo tb entende vc.