sábado, 22 de outubro de 2016

Estupro Masculino: Uma Piada?

...ou Como Se Colocar Verdadeiramente no Lugar de Uma Mulher




"Assaltantes são estuprados durante 5 dias, após invadirem casa de predador sexual gay." 

Essa é a chamada de uma notícia que saiu em diversos sites, na última quinta-feira (20). Uma dupla de assaltantes, de 54 e 36 anos, arrombaram a casa de um homem na Flórida, Estados Unidos, com o intuito de roubá-lo. O que eles não imaginavam era que a vítima fosse um homem com mais de 2 metros de altura, 130 quilos e com diversas passagens pela polícia por agressões e abusos sexuais à homens gays, conhecido por The Wolfman. Depois de cinco dias presos e sofrendo violência sexual pelo estuprador, os criminosos gritavam tanto, que um vizinho chamou a polícia e os três foram presos.

Num primeiro momento, a notícia parece divertida. O primeiro pensamento é: mereceram! Fica ainda mais divertido quando lemos o comentário feito pela "vítima": "Eles quebraram a minha porta da frente, então eu quebrei as suas portas de trás." Eu mesmo não tive compaixão nenhuma pelos ladrões, achei sim que foi uma bela lição, talvez um pouco exagerada, mas quem procura acha. Mas o que me fez refletir e chegar a esse texto, foi o fato de me ver atraído pela imagem do agressor, um homem grande, de porte bastante atraente, que de forma bem sacana fez com que eu me imaginasse no lugar dos assaltantes, e produzisse chistes e piadas com amigos à respeito. Passados os primeiros momentos naturais de zoação sobre o assunto, me peguei a pensar que estupro jamais é algo que se possa desejar, a sensação deve ser uma das piores possíveis.

The Wolfman, a vítima que acabou surpreendendo os ladrões, estuprando-os por 5 dias.
Sexo consensual com um homem do tipo que violentou seus assaltantes, pode ser um desejo normal e saudável, mas desejar ser estuprado por ele da mesma forma que aconteceu com as vítimas é apenas algo que faz parte dos fetiches e fantasias de gays, e que leva muitos a acreditar que não existe estupro de homossexuais masculinos, já que esses estão sempre dispostos ao sexo e, mesmo que digam o contrário, curtem um sexo forçado, dessa forma, uma violência sexual contra um gay não pode ser considerada estupro, porque no fundo eles sempre gostam. E então, um gay estuprado sempre vira uma piada. Triste realidade, mas num país onde nem assassinato de gays é levado à sério, quem dirá estupro.

Mulheres são estupradas diariamente e muito pouco é feito para aplacar essa calamidade. Gays estuprados? Realmente, uma grande piada.

Eu nunca passei por uma situação dessas, é bom deixar claro, porque escrevo sobre muitas vivências pessoais aqui,. Não é esse o caso agora, mas recentemente vivi uma situação que me deixou profundamente incomodado e mexido, por justamente me sentir na pele de tantas mulheres e amigas que provavelmente já passaram pela mesma situação.

Eu esperava o ônibus, no centro da cidade, por volta das 13h, voltando pra casa. Um homem puxou assunto, respondi monossilábico, por pura educação. Estava distraído e num primeiro momento não tive malícia a respeito do sujeito. Demorou alguns minutos até que o ônibus chegasse e, pra mim, estava evidente que o cara não pegaria o mesmo que eu. Ao subir e passar a catraca, senti o sujeito atrás de mim sussurrando pra que eu fosse pro fundo do ônibus, que estava vazio. Fervi de ódio. Procurei sentar bem no meio, ao lado de alguém, mas a pessoa com quem sentei, em seguida desceu, e antes que o tarado sentasse comigo, levantei e fui para outro banco, onde um dos lugares estava ocupado por um jornal. O sujeito asqueroso e insistente, tentando disfarçar, por causa da moça sentada atrás de mim, perguntou se o jornal era meu e se podia pegar, se esticando por cima de mim para alcançá-lo, e novamente me mandando ir para os bancos de trás. Eu apenas ignorava e fingia demência, mas segundos depois, quando ele me cutucou as costas, e eu senti que talvez ele não desistisse, me preparei para armar um barraco dentro do ônibus e meter a mão na cara dele. Felizmente isso não foi necessário; percebendo que não ia rolar, o cretino desceu em seguida.

Ao olhar para trás e não vê-lo mais no ônibus, senti alívio, não por medo, mas por não precisar ir às vias de fato e me expor dentro de um coletivo, para colocar o tarado no seu devido lugar. E aí, de repente, olhando pela janela, comecei a chorar discretamente, de raiva, de revolta, por aquele sujeito ter a ousadia de achar que só por eu ser gay, automaticamente me sentiria atraído por ele e disposto a fazer qualquer tipo de sexo que fosse. Chorei pela falta de respeito, pelo atrevimento de invadir meu espaço físico, me tocar sem meu consentimento. Chorei pensando em minhas amigas, no quanto elas sentem o mesmo e/ou ainda pior, quando algum homem simplesmente cisma que elas devem estar a fim e, se não estiverem não importa, eles são mais fortes e elas servem pra saciar seus desejos.

Eu sou delicado sim, sou afeminado sim, sou meigo sim e, frágil, talvez; mas sou homem, grande, parrudo, posso utilizar da minha força física para inibir esse tipo de assédio indesejado, que raramente acontece, porque na maioria das vezes, quando assediado por estranhos, eu até curto. Não sejamos hipócritas, o gay que nunca curtiu um sexo anônimo CONSENSUAL, que atire a primeira pedra. E mesmo com todas as características físicas de um homem que poderia meter a mão na cara ou dar uma voadora nele, meu assediador não se intimidou. Imaginem o perigo iminente que nossas mulheres correm todos os dias.

Isso aconteceu a umas duas semanas e pensar no risco que é ser mulher não saiu da minha cabeça até hoje. Como elas estão desprotegidas diante de uma sociedade machista tão cheia de babacas. E como nós devemos nos unir e lutar por respeito e pela vida, à delas e a nossa, até o fim.

Leia Também:
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
FacebookTwitter


2 comentários:

Joelma Vasconcelos disse...

Boa reflexão, amigo.
Obrigada pelo texto e pela empatia com as mulheres <3

Estupro nunca deve ser motivo de risada, ninguém deveria ter que passar por isso. Achei a notícia chocante e horrível, sabe que não sou adepta ao "olho por olho, dente por dente”, sou mais Gandhi.

O assédio que sofreu me despertou uma sensação de empatia muito forte. Sinto que assim como as mulheres, a comunidade LGBTT sofre repressão sexual ao mesmo tempo que é hiperssexualizada pela sociedade.
A grande maioria dos seres humanos são seres sexuais e isso obviamente não quer dizer que queremos sexo a qualquer momento e com qualquer pessoa, mas sinto que a mulher ou o homossexual não pode dizer que gosta de sexo que é automaticamente visto como sexualmente disponível ou OBRIGADO a manter relações sexuais com quem quer que seja. Nesse aspecto, creio que mulheres e gays sofram na mesma medida, pois acabam sendo objetificados por seu comportamento sexual, o que só demonstra que a sociedade ainda não nos vê como indivíduos dignos de respeito.

Homem, Homossexual e Pai disse...

UAU! que situação esta que passou, mas vc teve presença de espirito e se livrou do louco tarado, o que me deixa triste é que nem todo mundo consegue fazer o que vc fez não é? e muitas mulheres! precisamos alertar todos!